Lula e o centro: rola ou não rola?

Cientistas políticos Octavio Amorim Neto e Carlos Pereira, colegas na Ebape-FGV e amigos, têm visões muito diferentes em relação à possibilidade de aproximação entre Lula e os centristas.

Fernando Dantas

25 de junho de 2021 | 10h42

Em artigo recém-publicado no Boletim Macro Ibre de junho, o cientista político Octavio Amorim (Ebape-FGV) analisa como um eventual governo Lula a partir de 2023 deveria se estruturar, do ponto de vista político, econômico e das relações com os militares.

O pesquisador parte da constatação de que as pesquisas hoje indicam favoritismo de Lula, e que, portanto, é recomendável que ‘opinion makers’ e ‘policy makers’ comecem desde já a se debruçar sobre esse cenário.

Para Amorim, Lula deve fazer uma campanha centrista, o que seria uma decisão correta, porque o eleitorado se moveu para a direita desde 2018.

Ele ressalva que, assim como uma vitória apertada pode jogar Lula mais para o centro por necessidade, uma vitória folgada pode levá-lo mais à esquerda.

De qualquer forma, Amorim considera que, para o ex-presidente, caso volte ao poder, será mais sensato fazer um governo próximo ao centro, por causa do antipetismo ainda presente no eleitorado e da desconfiança do empresariado e das Forças Armadas.

Politicamente, o cientista político pensa numa grande frente multipartidária, e, economicamente, na tentativa de um programa de consenso entre liberais e desenvolvimentistas. E Lula teria que manejar cuidadosamente a questão militar. Amorim recomenda que não ceda à tentação conciliadora de colocar um militar no Ministério da Defesa.

O cientista político Carlos Pereira, também da Ebape e amigo de Amorim, vê essas questões de forma inteiramente diferente.

Na verdade, a principal objeção de Pereira é sobre o que enxerga como um pressuposto implícito em toda a argumentação de Amorim.

Na visão de Pereira, o que move o atual ensaio de aproximação entre o centro e Lula “é o pressuposto totalmente equivocado de que o governo Bolsonaro é de terra arrasada em termos institucionais, colocando em risco a democracia brasileira; assim, diante do colapso iminente, Lula seria o ungido capaz de fazer a união nacional”.

O pesquisador ressalva que o governo Bolsonaro trouxe retrocesso em inúmeras dimensões: ambiental, da defesa de minorias, econômica (com o altíssimo desemprego) etc.

Isso, entretanto, é diferente, na sua visão, de ameaça à democracia.

Pelo contrário, o pesquisador vê Bolsonaro muito fragilizado, em termos de popularidade e de força política. E isso se dá em grande parte pela atuação das instituições democráticas, em múltiplos aspectos: Judiciário, órgãos de controle, Legislativo (com a CPI), imprensa e opinião pública.

Para Pereira, as pessoas que veem risco iminente à democracia “não percebem que não dá para dizer que estamos à beira do precipício quando o Tribunal de Contas empareda o governo por conta de uma compra de vacinas e a CPI, com denúncias cotidianas contra Bolsonaro, tem audiência de novela”.

Em relação a aproximar Lula do centro por meio de uma coalizão política abrangente e de um programa econômico que concilie desenvolvimentismo e liberalismo, Pereira pensa que a ideia peca por não entender que a atual polarização da sociedade brasileira, mais do que política e ideológica, é afetiva.

Pereira vem realizando rodadas de pesquisas experimentais com consultas diretas à população, apoiadas pelo Estadão.

Ele nota que alguns resultados, como o apoio ao auxílio emergencial, mudam fortemente se a pergunta é manipulada (por meio de uma foto) no sentido de indicar que o programa é positivo eleitoralmente para Bolsonaro ou não.

Tanto bolsonaristas como petistas são de forma geral favoráveis ao auxílio emergencial. Porém, quando se faz a associação com Bolsonaro, aumenta de forma expressiva o apoio dos fãs do atual presidente e cai bastante o dos partidários de Lula.

Em outras palavras, segundo o cientista político, há uma barreira “afetiva” para Lula se consolidar como candidato de uma frente que inclua o centro, e que não depende de base partidária, programa econômico ou de escolha de políticas públicas.

Para Pereira, com Bolsonaro desmilinguindo e Lula ainda com forte rejeição, é muito prematuro para o centro se aproximar do ex-presidente, em vez de buscar uma candidatura própria.

A coisa muda de figura, na visão do pesquisador, num cenário em que a pandemia é totalmente superada e a economia volte com força, incluindo de forma especial uma recuperação pujante do mercado de trabalho. Nesse caso, Bolsonaro se fortaleceria e talvez não restasse opção ao centro a não ser uma tentativa de aproximação com Lula – que, de toda forma, Pereira considera bastante complicada.

Os pontos de vista não exatamente contraditórios – porque o artigo de Amorim não é uma defesa da candidatura Lula –, mas certamente muito diferentes dos dois cientistas políticos refletem, de certa forma, a saia curta que hoje atormenta o centro político no Brasil.

É fato que o governo centrista de Lula delineado por Amorim pode ter algo de “wishful thinking”. Mas o mesmo pode ser dito sobre a ideia de Pereira de que ainda há viabilidade para um candidato de centro não bolsonarista e não lulista em 2023.

Apenas os acontecimentos a se desdobrarem diante do País nos próximos 15 meses indicarão com quem está a razão, se é que está com algum dos dois. Até lá o centro ainda terá muito com que se angustiar.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/6/2021, quinta-feira.

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