Lula está atirando no próprio pé?

Visões sobre intensidade dos danos à própria campanha causados por declarações polêmicas do candidato petista variam, mas no mínimo a saraivada mensal do ex-presidente não está ajudando.

Fernando Dantas

05 de maio de 2022 | 21h18

Uma questão difícil de responder é se a série recente de declarações polêmicas de Lula – aborto, policiais, Ucrânia – prejudica ou não a sua campanha, e se de alguma forma pavimenta o caminho para uma reação de Bolsonaro.

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, considera que há, sim, esse risco, embora obviamente seja um elemento entre vários que estão determinando o movimento das intenções de voto.

Para Cortez, “podemos estar entrando num cenário em que a janela de oportunidade para a vitória da oposição vai se fechando, em parte por conta das falas do Lula”.

Ele frisa que não está entrando no mérito de nenhum dos posicionamentos polêmicos do ex-presidente, mas sim na oportunidade de terem sido feitos numa campanha eleitoral.

Segundo o analista, o PT tem um dilema estrutural na campanha, que independe dos temas conjunturais. Por um lado, há a necessidade de fazer uma campanha de oposição, de críticas a Bolsonaro, por conta da rejeição elevada do presidente.

Por outro lado, essa postura pode entrar em tensão com a necessidade de ampliar o eleitorado na direção da centro-direita, seja em temas econômicos e – principalmente – de valores.

A parte econômica é menos importante eleitoralmente. Ainda assim, há temas, como a reforma trabalhista, que sofrem a hostilidade do PT, mas que têm defensores na centro-direita.

Bem mais relevante é a campanha em torno de valores, que mexe com o segmento eleitoral amplo e estratégico dos evangélicos. Nesse caso, declarações equivocadas (em termos políticos) em temas como polícia e aborto hoje perduram muito mais no tempo, pelo efeito das redes sociais.

“As gafes viram memes e material de campanha futura”, diz Cortez.

O analista se diz surpreso com o fato de que os ruídos da campanha petista não estão partindo dos muitos grupos heterogêneos que a compõem, e que podem em cada caso ter interesses específicos que não coincidem 100% com a candidatura presidencial.

“Não é a Gleisi Hoffmann ou algum líder de movimento social que está criando os problemas, mas o próprio Lula”, ele aponta.

Já no caso de Bolsonaro, Cortez vê uma campanha mais unilateral de defesa do governo, sem a tensão que ele identificou na estratégia petista.

Bolsonaro tem a caneta e pode dizer que criou o Auxílio Brasil de R$ 400. Mesmo enfrentando uma maré econômica ruim, o analista vê uma tendência ascendente para Bolsonaro. Embora a economia seja indiscutivelmente um tema central da campanha, o advento recente da pauta de valores é um contraponto que o atual presidente pode explorar.

Já o cientista político Claudio Couto, da FGV-EAESP, considera que o impacto eleitoral das falas recentes de Lula é limitado. Por outro lado, ele ressalva que “não ajuda, era melhor não ter falado”. Couto vê falta de uma estratégia mais cuidadosa sobre o que Lula deve ou não dizer para evitar desgastes desnecessários.

O cientista político chama a atenção para o fato de que políticos como Lula, que estão no que chama de “campo da normalidade” – no qual ele inclui todos os protagonistas da atual cena brasileira com exceção de Bolsonaro –, incorrem num custo ao fazer declarações que sejam consideras erradas e infelizes.

“Se esperam racionalidade e sensatez dos políticos no campo da normalidade, mas, no caso de Bolsonaro, que está fora desse campo, é possível falar as maiores barbaridades sem ter nenhum custo”.

Dessa forma, políticos como Lula, que se colocam como anti-Bolsonaro, quando fazem declarações que soem como algo que o atual presidente diria podem estar inconscientemente beneficiando-o.

Ainda assim, Couto interpreta a melhora recente de Bolsonaro nas pesquisas como consequência de uma maior polarização (sem equiparação qualitativa ou moral) entre Lula e Bolsonaro, fazendo com que eleitores de candidatos de terceira via que se esvaziaram migrem para um daqueles dois. O exemplo é o aumento das intenções de voto de Bolsonaro quando Moro desistiu. Nesse sentido, poderia haver uma desidratação de Ciro, em favor de Lula, num momento mais próximo da eleição.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/5/2022, quinta-feira.