Lula joga alguma luz no seu projeto

Últimos movimentos do ex-presidente mostram, na avaliação do analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria Ponteio, montagem de candidatura sólida e ampla, com aproximação do centro, mas sem renunciar à visão de esquerda na economia.

Fernando Dantas

27 de janeiro de 2022 | 19h29

Nas últimas semanas, a candidatura favorita de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República ganhou contornos mais definido em termos de propostas. Ainda se está muito longe de diretrizes claras e consistentes de governo, mas a névoa parece ter começado a se dissipar.

Em termos políticos, como observa Ricardo Ribeiro, sócio da consultoria Ponteio Política, “Lula está construindo uma candidatura muito sólida, que conversa com a maioria da sociedade brasileira, e avançou em termos de criar uma grande frente anti-Bolsonaro”.

Lula deixou claríssimo para a esquerda do PT que não abre mão de ter o ex-tucano Geraldo Alckmin na chapa como vice-presidente, o que Ribeiro considera que tem 95% de chance de dar certo.

Assim, segundo o analista, Lula já tem toda a esquerda, com exceção de Ciro, consigo, e agora está “atacando” o PSD de Gilberto Kassab – para Ribeiro, a aliança está na prática fechada, pelo menos para o segundo turno –, a velha guarda do PSDB e parte expressiva do PMDB.

“Depois ele vai tratar de colher o restante do Centrão que deve aderir a Lula quando ficar definitivamente claro que o Bolsonaro não tem chance de reeleição”, acrescenta o consultor.

Para Ribeiro, o Lula que agora dá sinais de moderação política não vai repetir o presidente com política econômica de pleno agrado do mercado de 2003.

“Ele não deve abrir mão de pontos como mexer no teto, aumentar gastos, mudar a sistemática do preço da gasolina e interromper as privatizações”, avalia o consultor.

No entanto, continua Ribeiro, se prevalecer a visão do ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa, exposta nesta coluna na terça-feira, 25/1, Lula tentaria substituir o atual teto de gastos por um novo arranjo institucional que ancorasse a política fiscal no médio e longo prazo.

O analista frisa que, no momento, não está claro que a proposta de Barbosa preponderará num eventual governo Lula, mas pelo menos é algo que está posto à mesa. Ribeiro, inclusive, considera que o arcabouço sugerido pelo ex-ministro é mais realista em termos políticos do que o teto de gastos nas circunstâncias brasileiras.

Em relação às reações do mercado ao figurino que Lula vai paulatinamente costurando para sua candidatura, o consultor considera que ainda há muita divisão, mas que pode se dizer que pelo menos para parte dos profissionais do sistema financeiro reduziu sua apreensão em relação a um possível governo do petista a partir de 2023.

Na verdade, essa reação ficou patente e foi até comentada na semana passada, havendo até algum exagero, na visão de Ribeiro. “Há um certo wishful thinking com o movimento político do Lula ao centro, mas ele não vai abandonar uma pauta econômica mais à esquerda” diz o consultor.

Entretanto, na sua visão, o mercado pode estar um pouco anestesiado para isso pelo fato de que o próprio governo Bolsonaro já vem praticando vários pontos do que seria a “guinada heterodoxa” de Lula: desmoralização do teto, aumento de gastos no ano eleitoral e provável mexida na sistemática de preços dos combustíveis.

Dessa forma, em boa medida uma mudança de governo Bolsonaro para governo Lula já incorpora um fator “pior não fica” em alguns quesitos, o que talvez possa contribuir para reduzir os sobressaltos de 2022.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/1/2022, quintga-feira.