Lula namora o centro político, mas e a economia?

Analistas políticos veem lógica num aproximação entre Lula candidato e o centro político, mas quando o assunto é economia a coisa se complica.

Fernando Dantas

17 de março de 2021 | 21h18

Já há sinais de que Luiz Inácio Lula da Silva, que tem tudo para se tornar candidato a presidente em 2022, está lançando pontes para o centro do espectro político.

Do ponto de vista de empresários, investidores e mercado, entretanto, talvez mais importante do que o centrismo político seja a possibilidade de que Lula reeditasse a política econômica de 2003 a 2005.

Nessa fase, em que o ministro da Fazenda era Antônio Palocci, com auxiliares como Marcos Lisboa e Joaquim Levy, e Henrique Meirelles estava no Banco Central (onde continuou após essa etapa), foi praticada uma política econômica parecida com a do segundo mandato de Fernando Henrique, e até melhorada.

Houve responsabilidade fiscal, incluindo reforma da Previdência, reformas microeconômicas importantes (especialmente no crédito) e o lançamento do Bolsa-Família, programa social focado, eficiente e barato, que é admirado por dez entre dez liberais.

Existem chances reais de que um Lula presidente a partir de 2023 volte ao início da sua jornada no Executivo Federal há 20 anos?

Vários analistas políticos consideram que uma caminhada ao centro faz sentido político para Lula. E como o ex-presidente sempre deu mostras de inteligência política, é natural imaginar que possa seguir esse caminho.

O problema, porém, é a já mencionada diferença entre centrismo político e política econômica ortodoxa e liberal. Nem sempre as duas opções estão ligadas.

Octavio Amorim Neto, cientista político da Ebape/FGV, nota que o eleitorado brasileiro moveu-se à direita recentemente, e que Lula e seus estrategistas provavelmente incluirão esse ingrediente em sua equação eleitoral. O ex-presidente disputaria a eleição pelo campo da esquerda, claro, mas fazendo um movimento para o centro.

Na visão do pesquisador, como um dos elementos centrais do bolsonarismo é o antiesquerdismo radical, uma esquerda sensata, moderada e que conversasse com o centro seria mais difícil de alvejar.

Amorim Neto não descarta até a possibilidade de que, na campanha eleitoral do próximo ano, Lula chame para assessorá-lo – com compromisso de se tornar ministro da Economia, ou Fazenda, em caso de vitória – algum economista liberal de grande prestígio.

Ele cita nomes como Marcos Lisboa, Arminio Fraga ou Henrique Meirelles, mas apenas para sinalizar o tipo de perfil que tem em mente. Amorim faz a ressalva de que não tem qualquer informação sobre isso, e que se trata apenas de análise política.

Segundo o cientista político, porém, a ideia de que Lula acalmará os espíritos com um perfil centrista e política econômica “paloccista” em 2022 e 2023 é outra conversa.

Para começar, ainda que o ex-presidente escolha esse caminho, há um problema sério de credibilidade. A partir de 2008, sobretudo, e com intensificação no governo de Dilma, o figurino relativamente liberal e ortodoxo de política econômica foi substituído por heterodoxia, desenvolvimentismo e populismo fiscal. Essa quebra de confiança é difícil de reparar.

Adicionalmente, as bases eleitorais de Lula têm resistências concretas e muito específicas contra o programa liberal de política econômica. Sindicalistas resistem a privatizações e funcionários públicos a qualquer ajuste fiscal que recaia em sua remuneração e aposentadorias.

“Se Lula ganhar, 2023 será um ano muito difícil”, prevê Amorim Neto.

Segundo Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, “do ponto de vista político, o movimento do Lula ao centro já começou”.

Ele cita o recente pronunciamento e coletiva do ex-presidente, com acenos a forças do centro, e a troca de gentilezas com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), ex-presidente da Câmara.

Mas Ribeiro ressalva: “Na política econômica é mais complicado, especialmente se a gente leva em conta o que o mercado entende como a melhor política econômica para o País”.

O analista nota que a retórica de Paulo Guedes é essa política econômica dos sonhos do mercado (independentemente da sua baixíssima implementação), e Lula não vai subscrever um discurso e um programa hiperliberal e fiscalista.

“A política econômica do Lula será sempre muito mais intervencionista, mais contrária à privatização e com um viés desenvolvimentista, com a ideia de que a participação do Estado na economia é importante”, ele diz.

Ainda assim, Ribeiro considera possível que um Lula candidato (e presidente) adote alguns compromissos de responsabilidade fiscal e de não tentar reverter a autonomia do Banco Central e privatizações já realizadas.

O analista pensa que Lula revisaria o teto de gastos e, caso se comprometa com a responsabilidade fiscal, tentaria um ajuste das contas públicas via aumento da carga tributária.

Em termos de funcionalismo, ele acha possível que Lula tentasse impor para valer o teto de remuneração e cortar privilégios. Manter um congelamento geral tem chance muito mais remota.

Ribeiro descarta nova reforma da Previdência e, no caso de programas sociais, não vê possibilidade de cortes, mas talvez de racionalização numa perspectiva de política social focada, na linha de diversos projetos que surgiram recentemente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/3/2021, quarta-feira.