Lula no governo aumenta a confusão

Cientistas políticos se mostram perplexos com os desdobramentos cada vez mais bizarros da crise política brasileira.

Fernando Dantas

15 de março de 2016 | 23h57

É chover um pouco no molhado escrever que a propalada ida do ex-presidente Lula para o ministério aumenta ainda mais as incertezas econômicas e políticas da conjuntura brasileira. Mas não dá para fugir a esta conclusão. Se investidores e agentes econômicos apreciam alguma previsibilidade, não é no Brasil que eles vão encontrá-la agora. O cenário de que tudo pode acontecer, inclusive nada, está mais forte do que nunca.

Começando pela política econômica, Lula dedicou-se nos últimos anos a turvar completamente qualquer noção que alguém possa alimentar sobre o que ex-presidente defende de verdade. A narrativa principal no momento é de que ele quer mudanças na política econômica, na direção do que o PT propõe, o que seria uma guinada populista. Por outro lado, fala-se que Lula poderia trazer consigo para o governo o ex-presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, que é um arquétipo da ortodoxia. Enfim, de um extremo ao outro, percorrendo as infinitas gradações entre eles, tudo pode acontecer.

Na seara política propriamente dita, tirando-se o motivo imediato de impedir que Lula vá para a cadeia, as interpretações sobre a prevista ida do ex-presidente para o Ministério também são as mais variadas possíveis.

O cientista político Jairo Nicolau, da UFRJ, observa que essa possibilidade significa uma virada radical em menos de dez dias nas anunciadas intenções de Lula. “Há muito pouco tempo ele anunciou que iria para a rua, percorrer o Brasil, com um papel de mobilização social; agora, subitamente, ele surge com um operador político de bastidores – é mais uma peça nesse jogo de dificílima interpretação”, diz Nicolau.

Outro que manifesta perplexidade com o atual cenário é o cientista político Celso Rocha de Barros, doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford. Ele frisa que “não há dados suficientes para fazer uma análise precisa, inclusive porque a gente desconhece o que está sendo efetivamente negociado entre lideranças políticas chave, como por exemplo entre o Lula e o Renan (Calheiros, presidente do Senado)”.

Feita essa ressalva, Barros aponta alguns cenários. Um seria aquele no qual Lula atuaria para tentar salvar Dilma politicamente, mas não se meteria na economia e “deixaria Barbosa fazer o seu trabalho”. Já outra possibilidade seria a de que a ida do ex-presidente ao governo poderia ser uma tentativa de “todo mundo sair junto na hora do impeachment, numa frente unida para fazer oposição ao novo governo, o que deverá ser fácil, dado que a pauta econômica continuará sendo o ajuste”.

Essa segunda hipótese seria mais compatível com uma virada populista, que, na verdade, seria muito mais para marcar posição – já que efetivamente quase não haveria tempo para nada –, já se pensando em ser oposição ao presidente que substituir Dilma.

Há ainda o aspecto do impacto junto à opinião pública da entrada de Lula no Ministério. Nicolau acha que, após a maciça demonstração de intensa hostilidade ao ex-presidente de parte da população nas manifestações de domingo, 13/3, essa cartada irá acirrar ainda mais o ânimo da opinião pública.

Barros concorda com essa visão, mas crê que “quem está contra ele vai ficar mais contra ainda, mas não deve aumentar a parcela dos que estão contra”. Ele nota ainda que qualquer perda adicional de popularidade do governo Dilma que a manobra causar “já está precificado, porque não dá muita diferença se a popularidade está a 10% ou a 8%”. Ele crê que isso é especialmente verdadeiro numa perspectiva em que Dilma, Lula e o PT estejam se preparando para sair do governo para a oposição. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/3/16, terça-feira.