Lula, o polivalente da economia

Ex-presidente já chancelou todo tipo possível de política econômica, da mais ortodoxa à mais intervencionista. Caso se firme com favorito para 2022, incerteza sobre o que Lula fará na economia será prejudicial ao País.

Fernando Dantas

14 de maio de 2021 | 18h24

O favoritismo do ex-presidente Lula para as eleições de 2022, segundo a foto do momento, inevitavelmente levará ao debate sobre qual será a sua política econômica, caso seja eleito.

Ao longo dos 13 anos e meio do petismo no poder, a política econômica variou muito. De forma muito esquemática, pode-se dizer que variou do branco para o preto (ou vice-versa, tanto faz), passando gradativamente por todos os tons de cinza, dos mais claros aos mais escuros.

O polo inicial foi basicamente ortodoxo e liberal (com pequenas exceções). Já quase no final do período petista, atingiu-se o pico de nacional-desenvolvimentismo.

No finalzinho, no ano e meio de segundo mandato antes de Dilma ser afastada, houve reviravoltas dramáticas. Primeiro, voltou-se bruscamente, de uma vez só, sem nenhum tom de cinza, à ortodoxia liberal com Joaquim Levy na Fazenda.

Quando Nelson Barbosa o substituiu, já era meio tarde demais para a tentativa de delinear uma nova síntese entre mais cuidado na parte fiscal e elementos heterodoxos. Pautas bombas e dramática perda de governabilidade deixaram o espaço apenas para a gestão de crise, embora o novo ministro tenha até conseguido algum avanço reformista, como no caso das pensões.

Um ponto importante a frisar é que Lula é corresponsável pela política econômica de Dilma, embora naturalmente seja um político muito mais flexível, que provavelmente não teria insistido tanto nos erros da nova matriz como a ex-presidente.

Mas foi Lula quem convenceu Dilma a prosseguir com Guido Mantega no Ministério da Fazenda. E Mantega foi o grande responsável pela mudança da política econômica no petismo, ao receber, como ministro da Fazenda, um País regido por diretrizes ortodoxas e liberais e gradativamente colocá-lo num experimento intervencionista e nacional-desenvolvimentista.

Este colunista esteve presente ao encontro dos Chefes de Estado do G-20, em Seul, em novembro 2010. Dilma foi como presidente eleita, assim como Lula, o presidente ainda em exercício, e seu ministro da Fazenda, Mantega.

Foi então que Lula trabalhou pela manutenção de Mantega no posto de comando da economia, decisão sacramentada na viagem de volta da Coreia do Sul para o Brasil.

É possível dizer, portanto, que Lula já endossou todo o repertório possível de políticas econômicas que se encontram hoje no eixo do debate brasileiro entre ortodoxos e heterodoxos, tirante talvez o hiperliberalismo algo antiquado de Paulo Guedes.

Do rigor da cartilha fiscalista e ortodoxa de quadros como Henrique Meirelles e Joaquim Levy à irresponsabilidade fiscal de Arno Augustin e ao fervor intervencionista de Guido Mantega e Luciano Coutinho, todo um enorme arco de políticas econômicas, as mais diversas e contraditórias, já tiveram a chancela e o carimbo de Lula.

E o que isso significa caminhando para 2022?

Infelizmente, há uma tradição na sociedade brasileira de considerar como pecado venial a total dissociação entre o que um político fala e faz.

É verdade que, quando o chamado estelionato eleitoral é veloz demais e resulta em desastre, como em 2015, o eleitorado pune.

Mas quando ele é mais dilatado e “dá certo”, fica tudo bem.

Em 2002 e 2003, depois de décadas de pregação de políticas econômicas sem pé nem cabeça (contra o plano Real, contra todas as reformas de FHC, suspeitoso da dívida pública etc.), Lula fez um cavalo de pau de última hora quando já estava com a eleição no papo, cujo episódio mais lembrado é a “Carta ao Povo Brasileiro”.

Em 2003 e 2004 a crise foi vencida, com o bônus do início de um ciclo de alta das commodities. Lula tornou-se merecidamente um presidente de altíssima popularidade, e o resto da história é bem conhecido.

De qualquer forma, o eleitorado, o sistema político e – eu diria – até mesmo a intelligentsia brasileira nunca acharam muito necessário cobrar de um político carismático e bem sucedido como Lula que explicite de forma clara quais são os seus planos econômicos.

Tudo o que se tem, portanto, são os sinais emitidos pelo ex-presidente. Ele anda bem próximo de diversos economistas heterodoxos, de diferentes matizes e correntes. Quando concede emitir alguma opinião sobre economia, Lula parece sinalizar na direção do nacional-desenvolvimentismo – uma nova tentativa da nova matriz – cultuado com ardor pelo eterno candidato Ciro Gomes.

Diferentemente de Ciro, no entanto, Lula não parece dar muita bola para o assunto. O que leva muitos a pensar que, quem sabe, na hora agá, se for eleito, ele conduzirá uma política econômica moderadamente ortodoxa e liberal.

O colunista confessa que não tem a mais vaga ideia de qual será a política econômica de um eventual governo Lula, nem se considera particularmente aparelhado para esse exercício psicopolítico de adivinhação.

Uma coisa, porém, é certa. À medida que a eleição se aproxime, e na hipótese de o favoritismo de Lula se consolidar, essa incerteza, se persistir, será prejudicial à economia brasileira, e, portanto, ao bem-estar da população, especialmente a mais pobre.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/5/2021, sexta-feira.