Lula permanece como franco favorito

A cientista política Daniela Campello apresenta fatos, dados e tendências históricas do voto no Brasil e na América Latina que põem em xeque a aposta numa reação de Bolsonaro. O xis da questão é a economia.

Fernando Dantas

05 de abril de 2022 | 19h29

Nas últimas semanas, ao sabor do fluxo de pesquisas eleitorais, surgiu uma sensação difusa de que, mesmo com Lula ainda mantendo grande favoritismo, haveria uma reação por parte de Bolsonaro. Esta coluna mesmo abordou o tema.

A cientista política Daniela Campello, da Ebape-FGV, e pesquisadora residente do Wilson Center for Internacional Scholars em Washington DC, entretanto, considera precipitado apostar que Bolsonaro pode vir a bater Lula na eleição de outubro.

Evidentemente, a pesquisadora ressalva que o imponderável sempre pode ocorrer e desarrumar todas as peças do tabuleiro eleitoral. Porém, analisando a partir do que se sabe hoje e levando em conta padrões que tendem a se repetir no Brasil e em outros países, Lula permanece como grande favorito, na sua visão.

Campello e o cientista político Cesar Zucco (Ebape-FGV) estudaram a forte correlação entre sucesso eleitoral em países latino-americanos e bom desempenho da economia. “Não somos só nós e há uma imensa literatura sobre voto econômico”, ela acrescenta.

Assim, a primeira observação de Campello em relação à atual disputa eleitoral no Brasil é a importância da economia. As projeções medianas de mercado hoje, coletadas pelo Banco Central, indicam que o PIB brasileiro vai crescer apenas 0,5% este ano, a inflação ficará em 6,86% e a taxa de desemprego médio será de 11,1%.

É um conjunto de números que indica um ano muito ruim na economia. Em particular, além do alto desemprego, a renda média tem caído com força nos últimos meses.

E os eleitores estão muito sintonizados com essa realidade, aponta Campello. Assim, segundo a série de pesquisas Genial-Quaest, o número de brasileiros que apontam a economia como o principal problema atual do país atingiu 51% em março de 2022, o maior valor desde pelo menos janeiro de 2021.

É verdade que a alta de 35% para 51% dessa resposta entre os dois levantamentos da Genial-Quaest de fevereiro e março deve-se em boa parte à queda, no mesmo período, de 27% para 12% dos que consideraram saúde/pandemia o maior problema.

Fazendo um parêntesis no seu raciocínio, a pesquisadora nota que é injustificado o espanto de muitos observadores pelo fato de haver alguma melhora na avaliação sobre o desempenho de Bolsonaro na pandemia.

“Os eleitores têm memória curta, e isso não é uma questão apenas brasileira, mas que ocorre em qualquer país”, ela diz.

O eleitorado tende a focar a situação presente, geralmente o ano ou até o semestre da eleição. Como como a pandemia hoje está muito mais controlada, a avaliação sobre a atuação do governo acaba melhorando também.

Mas é exatamente essa mesma característica que faz com que a economia no momento da eleição, principal fator do voto, seja tão decisiva.

A pesquisadora observa que “para o eleitor, o presidente é sempre o responsável”. Dessa forma, apesar da grande quantidade de choques ligados à pandemia e à guerra na Ucrânia que turbinaram a inflação no Brasil e no mundo, 75% dos brasileiros acha que a aceleração da alta dos preços é de responsabilidade do governo.

Em março de 2020, sempre de acordo com as pesquisas Genial-Quest, 60% dos eleitores diziam que a economia no último ano piorou. É uma queda em relação aos 73% de novembro de 2021, mas ainda representa um nível extremamente ruim.

De forma simétrica, as pessoas que tinham avaliação negativa do governo Bolsonaro eram 56% em novembro de 2021 e 49% em março de 2022 (versus, respectivamente, 19% e 24% de avaliação positiva). Novamente, há uma leva melhora, mas ainda em território muito desfavorável para o atual presidente.

Que a economia ruim favorece a oposição em eleições presidenciais fica evidente na estabilidade das intenções de voto estimuladas (nomes são apresentados) nas quais Lula flutua desde junho de 2021 na faixa de 40-45% e Bolsonaro em torno de 25%.

Campello também alerta também para as falhas do raciocínio de que os presidentes brasileiros desde a redemocratização que tentaram a reeleição sempre tiveram sucesso.

Isso é verdade, e os casos são três: FHC, Lula e Dilma. Mas todos eles, nesse ponto do calendário eleitoral (agora ela utiliza pesquisas do Ibope) tinham situação de popularidade muito melhor do que Bolsonaro no mesmo momento.

Os três ex-presidentes tinham avaliação positiva acima de 35% em fevereiro do ano da reeleição, comparado a 22% de Bolsonaro. A maior avaliação negativa neste ponto entre os três foi a de Dilma em 2014, com 27%. Bolsonaro tem 51%.

A pesquisadora analisou 62 eleições presidenciais em nove países latino-americanos entre 1985 e 2021, do ponto de vista de candidatos a reeleição ou candidatos apoiados pelo incumbente (como Dilma por Lula em 2014).

A aprovação média de todos esses candidatos dez meses antes da eleição era de 40,7%; a dos vencedores, de 56,1%; e a dos perdedores, de 33,2%. Isso se compara aos níveis abaixo de 25% de Bolsonaro.

Ela nota, finalmente, que, entre os candidatos (a reeleição ou apoiados pelo incumbente) com 40% ou mais aprovação a 10 meses do voto, naquele mesmo conjunto de eleições, , 72% foram vitoriosos. Daqueles com aprovação maior que 30%, 62% ganharam. Mas no grupo com aprovação inferior a 30% (como Bolsonaro), só 20% se elegeram.

Campello observa que, evidentemente, contar com a máquina do governo ajuda na eleição, mas este está longe de ser um fator decisivo.

A pesquisadora acrescenta que as eleições de 2018 foram muito atípicas, e algumas generalizações feitas a partir daquela experiência são exageradas. Um exemplo é a crença de que atualmente um candidato se elege sem partido, sem coalizão, sem dinheiro de campanha etc. (como foi aproximadamente o caso do atual presidente na última eleição).

Em primeiro lugar, ela aponta, em 2018 o candidato incumbente, Michel Temer, não concorreu, e o candidato por ele apoiado, Henrique Meirelles, teve um votação ridícula. Foi quase como um eleição sem a presença do presidente em exercício.

Eleições presidenciais tendem a ser plebiscitos sobre o governo incumbente. Porém, no caso de 2018, a crise política e econômica intensíssima e o quase desaparecimento do governo no poder da cena eleitoral fizeram com que o voto (incluindo o econômico) do eleitor se manifestasse como uma rejeição ao sistema político como um todo – o que criou o espaço para o outsider.

Já em 2022 é possível que se volte a um padrão mais normal, em que o governo Bolsonaro estará na berlinda, e em que os fatores de sempre – base política, partido forte, dinheiro de campanha – voltarão a ter influência.

Num resumo de sua visão, Campello diz que “Bolsonaro permanece em condições muito difíceis para se reeleger”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/4/2022, terça-feira.