Lula precisa dos liberais?

Ex-presidente consolida seu favoritismo, como indica o Datafolha, mesmo mantendo discurso econômico que desagrada o establishment centrista.

Fernando Dantas

27 de maio de 2022 | 18h48

A pesquisa do Datafolha divulgada ontem mostra Lula crescendo nas intenções de votos a partir de uma posição já de franco favoritismo. A “foto do momento” da pesquisa indica vitória de Lula no primeiro turno, mas é claro que muita água ainda vai rolar antes do dia da eleição.

De qualquer forma, a se crer no Datafolha, talvez o instituto de opinião pública ativo hoje de maior credibilidade, Lula e sua campanha estão “fazendo a coisa certa”, já que seu favoritismo se consolida de forma crescente.

Nem todo mundo concorda com isso, claro. Em artigo publicado hoje no jornal O Globo, o economista Rogério Furquim Werneck escreve que “se afigura a cada dia mais intrigante a resistência de Lula a dar demonstrações claras e inequívocas de que está disposto  a se mover para o centro do espectro político”.

Ao final do artigo, Werneck deixa a pergunta: “É com esse discurso populista, espantosamente obtuso, que Lula pretende conquistar eleitores de centro”?

O economista se refere a uma série de declarações do candidato petista contra o teto de gastos, contra a reforma trabalhista ou a favor da intervenção no sistema de preços da Petrobrás.

Mas será que Lula precisa mesmo caminhar para o centro nas suas declarações sobre política econômica para conquistar mais eleitores e viabilizar, quem sabe, uma vitória no primeiro turno?

Essa é uma pergunta difícil de responder com algum grau de certeza. Tanto quanto a coluna saiba, as pesquisas de opinião relativas à eleição presidencial não têm levado aos eleitores questões muito específicas de política econômica do tipo “você votaria num candidato contra/a favor do teto de gastos?”; ou contra/a favor da política de paridade internacional do preço dos combustíveis?”.

A sensação é que a grande maioria do eleitorado é indiferente a esses temas colocados dessa forma, não por desprezo, mas por desconhecimento.

É claro que essas questões podem ser reformuladas de um jeito mais simples. Será que os eleitores preferem um presidente que “vai reduzir” o preço da gasolina? Nesse caso, seguramente a resposta é ‘sim’, e não é por outro motivo que Bolsonaro demite um presidente da Petrobrás atrás do outro.

Por outro lado, é certo que se comprometer com o atual sistema de precificação dos combustíveis, que justa ou injustamente é responsabilizado por levar a gasolina às altitudes em que hoje está, pode atrair o voto de um punhado de eleitores supereducados que entendem essa questão técnica, mas certamente não é algo decisivo para vencer a eleição no primeiro turno – quiçá, o contrário.

Já a questão do teto pode ser refeita de forma simplificada como algo no gênero “você prefere um presidente que não torre dinheiro público?”, a formulação mais simpática que a coluna conseguiu imaginar para a defesa da necessária austeridade fiscal.

Ainda assim, será que uma posição “contra a gastança” agrega votos necessários para levar Lula ao segundo turno? É bem duvidoso, já que, até como consequência de décadas de eficaz discurso populista celebrando a suposta capacidade de o governo resolver problemas derramando recursos nas mais diversas áreas, parte do eleitorado pode perceber uma postura de “é preciso economizar” como típica de ricos que querem cortar o apoio aos pobres mas não os juros que engordam o seu capital.

Quanto à reforma trabalhista, nem é preciso argumentar que defendê-la provavelmente tira mais do que acrescenta votos – e isso nada tem a ver com o mérito das mudanças em si.

É preciso insistir aqui na ressalva de que a questão que a coluna busca investigar é muito difícil de responder. Muitos observadores julgam que um discurso mais moderado de Lula em todos os sentidos – seja em temas de valores e costumes, seja em política econômica, seja em relações internacionais – compõe um todo da versão centrista do candidato que o ajudou no passado a atrair a parcela do eleitorado mais avessa a radicalismos e consolidou suas vitórias eleitorais.

Nesse sentido, qualquer desvio poderia despertar a desconfiança do eleitorado centrista. Mesmo quem não esteja particularmente preocupado com a questão específica do teto de gastos temeria de forma alarmista uma “venezuelização” do Brasil quando Lula ataca o atual arcabouço fiscal.

É possível, mas o fato concreto, a crer no Datafolha, é que Lula – “mesmo com esse discurso populista, espantosamente obtuso”, para usar as palavras de Werneck – vem consolidando o seu favoritismo e se aproximando mais de uma possível vitória no primeiro turno. E, caso esta não aconteça, aumentando a perspectiva de uma vitória folgada no segundo.

Na verdade, para esta coluna parece que a tão demandada aproximação de Lula com o centro, iniciada com a escolha de Geraldo Alckmin para vice, é de fato muito importante – mas não tanto para ganhar a eleição, e sim para garantir um ano eleitoral mais tranquilo e para já ir lançando as sementes de uma gestão com boa governabilidade e bem sucedida a partir de 2023. Mas aí já estamos falando de outra história.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)


Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/5/2022, sexta-feira.