“Lulinha paz e amor” está de volta?

Enquanto o establishment cerra fileiras contra o golpismo de Bolsonaro, Lula se aproxima do centro. Mas há um limite claro a esse movimento.

Fernando Dantas

29 de julho de 2022 | 21h27

Com seu amplo favoritismo refletido na estabilidade das intenções de voto que apontam vitória com larga margem nas eleições de outubro – com possibilidade até de fechar a fatura no primeiro turno –, Luiz Inácio Lula da Silva vê o seu caminho para a presidência se desatravancar e ele mesmo dá passos para desanuviar o ambiente político.

O Lula raivoso de 2018 parece ter desaparecido. O candidato ainda faz declarações que arrepiam o centro liberal, em temas econômicos como os preços da Petrobrás, ou de relações internacionais como a guerra da Ucrânia, mas no front político doméstico o petista não tem criado marolas. Com o supermoderado Alckmin de vice, Lula tem conversado com todo mundo e só hostiliza Bolsonaro e seu círculo íntimo.

Com a ressalva de que o ex-presidente é um líder político mutante e por vezes volátil, há sinais consistentes de que o “Lulinha paz e amor” está voltando.

Por outro lado, há finalmente no País um nítido movimento de reação ao golpismo de Bolsonaro. A Carta aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito foi endossada em grande estilo pelo establishment, tendo sido assinada por grandes empresários do setor produtivo e financeiro, ex-ministros do Supremo e centrais sindicais.

Já a Fiesp e a Febraban devem assinar o manifesto “Em Defesa da Democracia e da Justiça” e o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, assinou a “Declaração de Brasília”, também em defesa da democracia, ao fim da Conferência de Defesa das Américas (CMDA).

A reação à escalada autoritária de Bolsonaro, portanto, não está restrita à esquerda, mas envolve um grosso contingente de instituições e pessoas que detêm muitas das rédeas de comando econômico e sociopolítico no Brasil.

Lula, por sua vez, sinaliza disposição de retribuir essa aceitação tácita da sua eventual vitória por uma substancial parcela das elites da sociedade brasileira.

Já está programado para a primeira semana de agosto um encontro de Lula com o grupo centrista “Derrubando Muros”, composto por empresários, economistas, cientistas sociais, ambientalistas e comunicadores.

O grupo montou um elenco de propostas no e-book “Uma agenda inadiável”, a ser divulgado na semana que vem. Trata-se de um agrupamento apartidário, que está conversando com todos os candidatos, à exceção de Bolsonaro, que ameaça a democracia.

Na prática, porém, nessa eleição superpolarizada entre Lula e Bolsonaro, salvo alguma reviravolta muito surpreendente nos dois meses até as urnas, não conversar com Bolsonaro e conversar com Lula é na verdade abrir uma ponte ampla e imponente para que o petista, caso queira, caminhe para o centro.

A fina flor dos economistas liberais e tucanos faz parte do Derrubando Muros, nomes como Arminio Fraga, Elena Landau e Samuel Pessoa.

Não deve haver, porém – e todos os interlocutores envolvidos nesse diálogo provavelmente sabem disso –, uma aproximação tão forte entre Lula e o centro liberal que deságue numa reedição do “paloccismo” caso o candidato petista confirme seu favoritismo em outubro.

Essa é uma via provavelmente interditada para Lula por razões políticas. O candidato não pode trair a sua fervorosa base política, que está muitíssimo à esquerda de grupos como o Derrubando Muros.

O “lulista raiz” permaneceu fiel ao ex-presidente nos tempos de chuva e de sol, incluindo a queda em desgraça com a Lava-Jato, o período na cadeia e a ascensão de volta ao estrelato político. Seria um risco enorme e provavelmente um tiro no pé fazer um governo que ignorasse as demandas dessa parcela do eleitorado.

Ainda assim, com seus dotes camaleônicos e habilidade política, Lula pode tentar uma mescla de políticas sociais inovadoras e política econômica não muito liberal mas prudente, tentando dar um pouco para cada um dos participantes do grupo muito heterogêneo que vai apoiar direta ou indiretamente a sua eventual volta ao Planalto.

Será uma tarefa extremamente difícil, na verdade, dadas as grandes expectativas e demandas geradas pela possibilidade de volta de Lula ao governo e a situação socioeconômica do País ainda bastante frágil, tanto em termos conjunturais como estruturais.

Lula, porém, tem a autoconfiança e a capacidade de liderança necessárias para missões quase impossíveis. Resta saber se também terá a sabedoria sem a qual os dois outros atributos se tornam inúteis.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/7/2022, sexta-feira.