Luta do grau de investimento não acabou

Brasil tem pouco tempo - mas ainda assim tem algum tempo - para evitar a perda do grau de investimento pela segunda das três grandes agências, o que acarretaria consequências muito piores.

Fernando Dantas

11 Setembro 2015 | 19h24

Não adianta chorar sobre o leite derramado, e a estratégia do governo agora deveria se voltar a evitar que o Brasil perca o grau de investimento pela segunda das três principais agências internacionais de rating, depois que a Standard & Poor’s tomou esta decisão. Se a segunda perda ocorrer, é o gatilho para que muitos investidores institucionais externos tenham que reduzir ou eliminar suas aplicações no Brasil, o que teria um impacto muito mais severo no câmbio, na inflação e na estabilidade macroeconômica nacional.

O País tem pouco tempo para agir, mas ele existe. No caso da Fitch, o Brasil está um degrau acima do grau de investimento, e com perspectiva negativa. Se vier um downgrade, o grau de investimento ainda é preservado. Já na Moody’s, o Brasil está com perspectiva estável no primeiro nível do grau de investimento. A situação é mais delicada, porque as agências não precisam necessariamente mudar a perspectiva para negativa antes de rebaixar. Mas, ainda assim, a perspectiva estável cria algum espaço de reação. Sinais emitidos pelas duas agências nos últimos dias indicam, para usar as palavras de Joaquim Levy, ministro da Fazenda, que não há um “afã” de tirar o grau de investimento do Brasil.

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, nota que estudo do FMI de 2010, com foco nas ações de rating das três grandes agências durante a crise global, indica que a S&P tem um padrão “mais cíclico e volátil” do que a Moody’s e a Fitch. Isto significa que a S&P tenderia a agir mais rápida e intensamente que as outras duas.

Borges cita dois exemplos. Durante a crise asiática do final da década de 90, a S&P rebaixou o rating da Coreia do Sul até quatro degraus abaixo do grau de investimento, comparado ao rebaixamento para apenas um degrau abaixo da Moody’s. Em 2011, na briga entre Executivo e Congresso nos Estados Unidos sobre limites de endividamento público, a S&P foi a única das três a efetivamente retirar o triplo A do país. Moody’s e Fitch se contentaram com a perspectiva negativa.

No caso do Brasil, a S&P foi a primeira a dar grau de investimento ao país, em 30 de abril de 2008, o que de certa forma confirma que a agência é “rápida no gatilho”, como sugere a análise de Borges. Por outro lado, Moody’ e Fitch acabaram seguindo a S&P ainda em 2008, o que é bem menos tranquilizador.

O economista-chefe da LCA nota ainda que o credit default swap (CDS, uma espécie de seguro contra calote) da dívida brasileira está acima da russa (títulos de cinco anos nos dois casos), pelo menos até o fechamento de ontem: 387 pontos base para o Brasil, 366 para a Rússia. No entanto, a Rússia perdeu este ano o grau de investimento pela S&P e pela Moody’s e está no primeiro degrau desta classificação pela Fitch, com perspectiva negativa.

“Eu diria que a Rússia está muito próxima de perder o grau de investimento das três agências, e, no entanto, o Brasil está pior que a Rússia para os mercados”, diz Borges.

Isto, para ele, explicaria porque a reação do câmbio até agora ao downgrade da S&P foi menos intensa do que o esperado. Uma turbulência menos severa que a antecipada, se este cenário perdurar, também criaria um cenário menos deteriorado sobre o qual a política econômica teria que agir para evitar outros rebaixamentos de rating. Por outro lado, o fato de o Brasil apresentar aos mercados risco pior do que um país com classificação inferior junto às agências parece indicar que a direção do rating de Moody’s e Fitch no caso brasileiro é para baixo.

De qualquer forma, Borges acha que, para os analistas, o momento é de pesquisar criteriosamente as variáveis sensíveis ao rating de países com a mesma classificação e um degrau abaixo do Brasil na Moody’s e na Fitch. Já o governo deveria se esforçar para entregar as medidas fiscais que evitariam que as duas agências seguissem a S&P.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, tem uma visão mais pessimista que a de Borges. Para ela, “a decisão da S&P foi muito bem embasada, e se não houver uma forte reação do governo é apenas uma questão de tempo antes que as outras agências sigam pelo mesmo caminho”.

A economista nota que, na entrevista de ontem, Levy não apresentou nada de novo que possa criar a perspectiva que o buraco de R$ 64 bilhões – a diferença entre o déficit primário de 0,5% do PIB da proposta orçamentária para 2016 e o superávit de 0,7% anteriormente programado – seja fechado. Na sua visão, o Congresso não vai aceitar uma solução que seja muito baseada em aumentos de impostos, tampouco que seja muito concentrada em cortes de gastos cuja responsabilidade recaia sobre os parlamentares. Assim, o Executivo teria de cortar significativamente programas sociais de sua própria alçada para chegar a um acordo com o Congresso que produza a melhora fiscal necessária a evitar que as Moody’s e Fitch acabem também retirando do Brasil o grau de investimento (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/9/2015, sextaq-feira.