Luz no fim do túnel da inflação?

Fernando Dantas

15 de agosto de 2014 | 11h59

Se as notícias sobre atividade parecem cada vez piores para o governo, parece haver por outro lado uma tênue luz no fim do túnel em termos de inflação. Não é possível, dizer, nem de longe, que a convergência do IPCA para o centro da meta seja apenas uma questão de tempo, e o impacto dos reajustes de preços administrados e do câmbio (cuja trajetória futura é particularmente incerta) deve manter o índice próximo ou até acima do teto do sistema de metas (6,5%) por um bom tempo. Por outro lado, surgem os primeiros tênues sinais de que o componente mais importante e problemático da inflação brasileira, referente aos serviços, pode estar finalmente reagindo à perda de ritmo da economia.

Segundo a economista Silvia Matos, que coordena a análise macroeconômica no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, “há, pela primeira vez em muito tempo, um sinal alentador sobre a inflação que não vem de elementos voláteis e relacionados a choques, como alimentos e câmbio”.

Ela se refere ao indicador de serviços, expurgado de passagens aéreas e tarifas de hotéis. Silvia explica que, desta forma, ela busca retirar justamente os componentes dos serviços que também são muito voláteis e ligados a eventos conjunturais. As passagens aéreas têm tipicamente grandes oscilações mês a mês, e os hotéis foram contaminados pela Copa do Mundo.

O índice resultante acumulava inflação de 4,86% no ano até junho, exatamente o mesmo nível dos seis primeiros meses do ano passado. Em julho, no entanto, o índice de serviços, menos passagens aéreas e hotéis, ficou em 0,46%, comparado a 0,64% no mesmo mês de 2013. Com isso, até julho, o acumulado do ano fica em 5,3%, ante 5,5% em 2014.

Silvia acha que essa pequena diferença pode ser significativa no caso de uma parte da inflação que tende a ser bastante inercial e menos sujeita a oscilações. Além disso, ela nota que os modelos macroeconométricos sugerem que, em face da forte desaceleração da economia, a inflação de serviços total este ano pode ficar em torno de 8%, comparado a 8,7% em 2013.

Para a economista, a demora do enfraquecimento da economia em reduzir a inflação de serviços é explicada em parte pela manutenção do crescimento da renda no mercado de trabalho, ainda que o emprego cresça pouco segundo a PME. Silvia observa que o próprio governo buscou “poupar emprego”, com a desoneração da folha e medidas para facilitar o “lay-off” (quando as empresas mantêm os trabalhadores em casa recebendo).

A inflação de serviços têm 70% dos seus itens subindo em 12 meses acima do teto de 6,5% da meta, sendo muito dispersa e resistente. Segundo Silvia, se de fato ela estiver começando a ceder, a continuidade deste processo vai depender da moderação salarial daqui em diante.

O Banco Itaú, por sua vez, revisou as projeções do IPCA para 2014 e 2015 de 6,5% para, respectivamente, 6,3% e 6,4%. As novas projeções acompanham revisões para baixo também do crescimento do PIB: de 0,7% para 0,6%, em 2014; e de 1,5% para 1,3%, em 2015.

Grande perda

A morte do candidato Eduardo Campos tem um componente negativo que vai além da tragédia humana e dos cálculos eleitorais de curto prazo. É difícil para um país como o Brasil, com seu sistema político repleto de problemas, produzir lideranças políticas com perfil presidenciável. A história da redemocratização até agora ensina o quão importante é a qualidade do presidente. Campos, mesmo que não vencesse as atuais eleições, era um quadro de valor que certamente teria novas chances no futuro. É uma perda imensa num grupo extremamente escasso e vital para o Brasil.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/8/14, quarta-feira.

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