Luz no fim do túnel nos estoques

Alta na confiança da indústria em janeiro chama atenção de especialistas da FGV, que confeccionam o índice. Nível ainda é baixíssimo, há vários senões, mas pode ser um sinal de que recessão vai se amainar nos próximos meses.

Fernando Dantas

28 de janeiro de 2016 | 17h28

Os responsáveis pela área de índices de confiança da Fundação Getulio Vargas (FGV) acham que não se deu a atenção devida à prévia do Índice de Confiança de Janeiro, que subiu 3,7 pontos em relação ao índice fechado de dezembro, de 75,4 para 79,1 – pela atual metodologia, isto significa uma alta de precisamente 37% de um desvio padrão. A prévia foi divulgada na semana passada.

Aloísio Campelo, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), e principal responsável direto pelos índices de confiança da FGV, explica que a subida da prévia da confiança da indústria em janeiro é uma “boa notícia” que exige, de início, que se façam várias ressalvas e qualificações.

O nível da prévia de janeiro ainda é baixíssimo. Campelo observa que 100 é a média histórica. Assim, leituras abaixo de 90 são mais de um desvio-padrão abaixo da média, isto é, “baixas”; e as inferiores a 80 são mais de dois desvios-padrão abaixo, ou seja, “muito baixa”. Na verdade, na história recente, a confiança da indústria só ficou abaixo de 80 no período de dezembro de 2008 a março de 2009, quando os impactos da grande crise global se faziam sentir com maior força.

Feitas essas ressalvas, o economista da FGV acrescenta que o fator principal por trás da elevação da prévia de janeiro foi o reequilíbrio de estoques e que isto “pode ser considerado uma possível luz no fim do túnel”.

A prévia indica que o nível de utilização de capacidade da indústria continuou caindo, mas com uma aceleração significativa do processo de ajuste de estoques.

“A indústria ao longo da maior parte de 2015 diminuía a produção, dava férias coletivas, mas a queda da demanda sempre surpreendia e o desequilíbrio de estoques persistia – a novidade agora é que há uma diminuição do número de empresas e segmentos com estoques excessivos”, aponta Campelo.

Ele atribui a essa melhora na situação dos estoques, por sua vez, as respostas mais positivas na prévia de janeiro às perguntas de natureza mais subjetiva, como a situação e o ambiente de negócios das empresas industriais.

Com a prévia de janeiro, é possível identificar um possível “turning point” na confiança da indústria, com o vale tendo sido atingido em agosto, quando o índice ficou em 73,5. Também aqui é preciso cautela, alerta Campelo. Em recessões muito prolongadas, há mais chances de acontecer viradas temporárias, as chamadas trajetórias em “w”, algo que se nota, por exemplo, nos anos 70 e 80 no Brasil. Outro ponto é que os níveis atingidos em meados de 2015, com leituras abaixo de 74, são mais baixos que os piores momentos da crise de 2008 e 2009 – que dizer, a inflexão, se de fato está acontecendo, se dá a partir de níveis deprimidíssimos.

Mesmo com essas notas acautelatórias, Campelo vê chances de que “o ritmo da recessão se amaine nos próximos meses”.

Evidentemente, a consolidação recente do câmbio num nível em torno de R$ 4 é um fator importante para a indústria, não só pelo mercado externo, mas talvez principalmente pela possibilidade de substituir importações no mercado doméstico.

Além disso, há o consumo das famílias, que sofre impactos em direção contrária. De um lado, o prosseguimento da deterioração do mercado de trabalho, que afeta negativamente a renda. Do outro, um processo mais adiantado de reestruturação das finanças familiares depois do ciclo de consumo e endividamento artificialmente prolongado com as desonerações tributárias.

Campelo observa que muita gente embarcou na rearrumação das finanças pessoais já no ano assustador de 2015 – contendo o consumo e pagando dívidas – e agora “talvez possa liberar um pouco mais do orçamento para consumir”. Embora os números previstos para o consumo das famílias este ano tenham uma cara ainda muito feia, por causa do carregamento estatístico, o economista da FGV nota que eles embutem uma queda mais moderada na margem.

Ainda assim, ele não nota no Índice de Confiança do Consumidor de janeiro, divulgado hoje, o pequeno raio de esperança que identificou na última prévia da indústria. A confiança do consumidor em janeiro subiu 2,5 pontos, para 67,9, mas isso se segue a uma queda 2 pontos em dezembro, para não falar do nível ainda baixíssimo.

“Não dá para dizer por enquanto que tenha tendência de reversão na confiança do consumidor”, diz Campelo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 27/1/16, quarta-feira.

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