Luzes noturnas

Variações de imagens de satélite da iluminação à noite podem ser a nova fronteira dos indicadores econômicos em tempo real.

Fernando Dantas

11 de janeiro de 2017 | 11h11

As luzes noturnas, captadas por imagens de satélites, podem vir a ser uma nova fronteira na coleção de indicadores que visam captar as tendências do PIB em tempo real. Uma empresa startup japonesa, adequadamente chamada de Nowcast, anunciou recentemente um novo produto que estima o ritmo da economia analisando imagens de satélite de luzes noturnas, e que será aplicado ao Japão, Estados Unidos, China, Índia e Taiwan. A metodologia correlaciona a intensidade da iluminação com indicadores da indústria e do comércio.

Em 2002, foi publicado pela prestigiosa American Economic Review um trabalho dos economistas Vernon Henderson, Adam Storeygard e David Weil mostrando que as luzes noturnas podem contribuir para aperfeiçoar as estatísticas de PIB per capita – de nível de renda, e não de mudanças de nível, como no produto da Nowcast – dos países, especialmente aqueles com alto grau de informalidade.

A metodologia também permite sair mais facilmente da armadura das estatísticas nacionais para o PIB (são conhecidas as dificuldades técnicas de desagregar indicadores de produto no nível de regiões, estados e municípios) para medir a atividade econômica de quaisquer áreas territoriais que se escolham. O trabalho de Henderson, Storeygard e Weil mostrou, por exemplo, que, à época, as áreas costeiras da África subsahariana estavam crescendo a um ritmo inferior ao do interior do continente.

Outro trabalho recente, dos economistas Maxim Pinkovskiy, pesquisador do Fed de Nova York, e Xavier Sala-i-Martin, da Universidade de Columbia, utiliza as luzes noturnas para medir a qualidades dos dois mais conhecidos bancos de dados de PIB de todos os países em paridade de poder de compra (PPP), que permitem a comparabilidade: as Penn World Tables, da Universidade de Pennsylvania, e os World Development Indicators (WDI), do Banco Mundial.

Utilizando as luzes noturnas como um previsor de taxas de crescimento da renda, Pinkovskiy e Sala-i-Martin concluem que as últimas versões do WDI, especialmente a de 2011, são de forma geral as melhores para se medir a diferença de renda entre os países. Com a mesma metodologia, eles indicam que as novas versões das Penn World Tables não são necessariamente melhores que as antigas – isto é, as mudanças metodológicas na apuração dos números em PPP não estão melhorando a qualidade dos dados comparativos.

O tema das luzes noturnas como indicadores em tempo real de diversas variáveis econômicas e não econômicas têm sido mais intensamente investigado recentemente, à medida que começa a chamar mais a atenção e a ser mais levado em consideração, como fica claro no produto oferecido pela Nowcast. Estes trabalhos são interessantes pela multidisciplinariedade, envolvendo economistas e especialistas em sistemas de informação geográfica.

Um trabalho de outubro de 2015, por exemplo, reuniu os economistas José Lobo, da Escola de Evolução Humana e Mudança Social da Universidade do Arizona, e Charlotta Mellander, da Universidade de Jönköping, na Suécia, com Kevin Stolarick, especialista em sistemas de informação da Universidade OCAD, em Toronto, e Zara Matheson, analista de sistemas de informação geográfica da Universidade de Toronto.

Eles usaram microdados suecos e testaram a correlação com dois tipos de registro de emissão de luzes noturnas: irradiada e saturada. As conclusões são diversas e variadas, como a de que a correlação da luz irradiada com a atividade econômica é mais forte do que a da luz saturada, e de que o uso das luzes noturnas para mapear o ritmo econômico, mesmo com todo o avanço metodológico possível, tende a uma ligeira superestimação nas grandes áreas urbanas, e à subestimação em áreas rurais.

De qualquer forma, é um novo campo que se abre para uma das tarefas mais cruciais e desafiadoras para bancos centrais, autoridades econômicas, empresários e mercado financeiro: saber o que está de fato acontecendo no momento presente com a economia. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/1/17, segunda-feira.

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