Mais emprego formal

Resultado da PNADC de fevereiro a abril surpreendeu positivamente, com crescimento firme da população ocupada e muitas vagas com carteira assinada.

Fernando Dantas

31 de maio de 2022 | 20h34

A taxa de desocupação da PNAD Contínua (PNADC) de abril, referente ao trimestre de fevereiro a abril, surpreendeu positivamente, ficando em 10,5%, abaixo da mediana das expectativas do mercado do Projeções Broadcast, de 11%.

Mas o resultado que mais chamou a atenção do analistas foi o crescimento da população ocupada (PO), de 1,1% ante o trimestre de novembro a janeiro e de 10,3% ante o trimestre fevereiro-abril de 2021.

Em particular, os empregos com carteira assinada do setor privado (excluindo trabalhadores domésticos) cresceram 2%, ou 690 mil vagas, ante o trimestre novembro-janeiro. Ante fevereiro-abril de 2021, o salto foi de 11,6%.

A taxa de desemprego é a menor para um trimestre terminado em abril desde 2015, mas o economista Bruno Imaizumi, da consultoria LCA, observa que ainda há 65 milhões de brasileiros aptos a trabalhar que não procuram emprego – isto é, estão fora da força de trabalho –, comparados a 62 milhões em fevereiro de 2020, logo antes da pandemia.

Em diversos países se observa o fenômeno de retorno incompleto da força de trabalho no pós-pandemia, o que pode ter causas comuns e/ou específicas de cada país. De qualquer forma, Imaizumi considera que esse fenômeno prejudica um pouco a comparabilidade da taxa de desemprego atual com a do período pré-pandemia.

O crescimento da PO com destaque para os empregos formais, entretanto, é um indicador adequado e mostra que o mercado de trabalho vem acompanhando outros indicadores da economia em termos de sinalizar que o primeiro terço do ano foi mais forte do que se projetara.

Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, aponta que, apesar de os 35,2 milhões de trabalhadores com carteira assinada no trimestre fevereiro-abril deste ano não serem o nível recorde da série, que chegou a um máximo de 37,8 milhões no trimestre até junho de 2014, os 61 milhões de trabalhadores contribuindo para o INSS nessa última leitura da PNADC é o ponto mais alto da série.

Além dos empregados do setor privado com carteira assinada, contribuem para o INSS trabalhadores por conta própria com CNPJ, parte dos empregados domésticos ou mesmo informais que contribuem por espontânea vontade.

O economista Daniel Duque, doutorando na Universidade de Bergen (Noruega) e pesquisador associado do Ibre-FGV, nota que há três meses a PNADC vem registrando surpresas positivas.

De início, ele recapitula, se presumia que a volta do setor de serviços – que emprega muito – pós-pandemia poderia explicar os bons resultados, mas agora a impressão é de fato que a retomada da atividade como um todo pode ser um fator importante.

Já o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, também do Ibre-FGV, vê no fato de que alguns setores de destaque positivo na PNADC de abril terem sido transportes e outros serviços um sinal de que a reabertura da economia ainda pode explicar melhor as surpresas do que uma economia supostamente pujante.

A renda real média, por sua vez, ficou praticamente estável no trimestre fevereiro-abril em relação a novembro-janeiro (alta de 0,1%), mas ainda acumula uma perda significativa, de 7,9%, a fevereiro-abril de 2021.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/5/2022, terça-feira.