Mais mortes, melhor colocação

Mais mortes, melhor colocação

Segundo relatório do IHME, centro de pesquisa independente sobre saúde global nos Estados Unidos, no início de maio o Brasil tinha quase 600 mil mortos por Covid. Por outro lado, o País não está entre os 20 piores em mortes por 100 mil habitantes.

Fernando Dantas

10 de maio de 2021 | 21h00

O Brasil já tem aproximadamente 600 mil mortes por Covid-19, e não as cerca de 420 mil reportadas oficialmente pelo Ministério da Saúde.

Por outro lado, o Brasil não está entre os 20 países com maior proporção de mortes por Covid relativamente à população. Segundo o site Worldometers, que usa números oficiais, o Brasil seria o 13º país com mais mortes por Covid em termos per capita.

Aquelas duas informações, uma ruim, outra boa (comparado ao que se julgava), se encontram em recente relatório do Institute for Health Metrics (IHME), um centro de pesquisa independente sobre saúde global sediado na Universidade de Washington, em Seattle.

No artigo, o IHME explica as razões pelas quais, nas suas publicações sobre Covid, está trocando os números oficiais dos países por uma estimativa própria de mortes totais.

Até 3 de maio de 2021, segundo a instituição, o número de mortes por Covid-19 no mundo era estimado em 6,93 milhões, mais que o dobro dos 3,24 milhões reportados oficialmente pelos países naquela mesma data.

O motivo principal da mudança do IHME para uma estimativa própria é que, por fatores como diferenças entre os países na capacidade de testagem, a  confiabilidade nos números oficiais de óbitos varia enormemente caso a caso.

O instituto explica que, no caso de países como Peru, Equador e Federação Russa, “a discrepância entre as morte reportadas e análises das taxas de mortes comparadas a taxas esperadas de mortes, algumas vezes chamadas de “mortalidade em excesso”, sugerem que a taxa total de mortes por Covid-19 é maior que os números oficiais em muitos múltiplos”.

Simplificadamente, para chegar às “mortes em excesso”, toma-se o aumento das mortes totais num país ou região num determinado período.

Levando em conta outros fatores relacionados à Covid, chega-se a um número de pessoas que em tese morreu da doença para explicar por que as mortes totais foram maiores do que a projeção de mortes num cenário sem a pandemia. Se o número oficial de óbitos atribuídos à Covid é muito menor do que o sugerido pela análise das mortes totais, há um grande excesso de mortes.

O relatório do IHME informa que há seis fatores relacionados à Covid que influenciam o total de mortes num dado lugar e período durante a pandemia.

O primeiro são as mortes causadas diretamente pela pandemia. O segundo são as mortes causadas pelo fato de que tratamentos médicos de outras enfermidades não foram adequadamente realizados, por causa da mobilização do sistema de saúde para tratar da Covid.

O terceiro é o aumento de mortes ligados a problemas de saúde mental associados à pandemia e ao isolamento social, como depressão e maior consumo de álcool e drogas (o texto cita especificamente os opioides).

O quarto fator é a redução de acidentes em função de as pessoas circularem menos por causa do distanciamento social. O quinto é a redução de mortes por doenças cuja transmissão diminui por causa das medidas tomadas para conter a Covid-19 (quarentena, máscaras etc.), como gripe sazonal, outros tipos de vírus do aparelho respiratório e sarampo.

E finalmente há que contabilizar a redução de mortes por enfermidades crônicas – como problemas cardiovasculares ou doenças respiratórias – de pessoas que teriam morrido desses problemas se não tivessem falecido antes por causa do coronavírus.

Levando em conta esses fatores, o IHME recalculou as mortes por Covid-19 semana a semana, ou mês a mês (dependendo da periodicidade da divulgação dos números oficiais nos diferente países) no mundo todo.

A partir disso, dividiram-se países e regiões em grupos pelo tamanho das mortes em excesso. Os melhores em termos de reportar dados são aqueles no qual as mortes por Covid variam de 100% a 125% dos números oficiais (tons em azul). A pior classificação é aquela em que as mortes reais pela doença são dez vezes ou mais superiores às oficiais (tons em laranja).

Como se vê no mapa publicado pelo IHME reproduzido acima, China, Austrália, Nova Zelândia, boa parte da Europa, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e porção do Brasil no Sul, Sudeste e Centro-Oeste estão com as menores mortes em excesso. Outras partes do Brasil, a América do Norte e alguns países do Norte da África e Oriente Médio estão ainda com níveis razoáveis de mortes em excesso, porém maiores.

Já boa parte da África, o Maranhão no Brasil, Índia e Rússia registram mortes em excesso várias vezes maiores que as mortes oficiais.

Com dados que vão até o início de maio, o artigo mostra que o Brasil  não apenas as 408.680 mortes por Covid apontadas então oficialmente, mas sim 595.903.

Nos Estados Unidos (sempre até o início de maio), foram diretamente vitimadas pela Covid-19 um total de 905.289 pessoas, e não as 574.043 da contagem oficial. Na Índia, México e Federação Russa, esses dois números são de, respectivamente, 654.395 (total calculado pelo IHME)/221.181 (oficial), 617.127/217.694 e 593.610/109.334.

Pelo recálculo do número de óbitos por Covid, o Brasil sai da lista dos 20 países com maiores mortes por coronavírus por 100 mil habitantes. Estão na lista países como Bulgária (3ª com mais mortes proporcionais à população), México (5º), Romênia (8º), Peru (10º), Federação Russa (12ª), Polônia (14ª), Hungria (16ª) e Ucrânia (19ª).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estada.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/5/2021, segunda-feira.

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