Mais uma chance para Guedes

Vitória da centrodireita nas eleições municipais pode reforçar pauta econômica comum entre Executivo e Congresso. Mas Guedes tem mostrado que não consegue impor sua agenda no caótico governo Bolsonaro.

Fernando Dantas

30 de novembro de 2020 | 20h04

As análises sobre os resultados das eleições municipais estão em todas as mídias. Discute-se em detalhes os partidos que avançaram e aqueles que recuaram, assim como novas lideranças que emergiram.

Saindo das árvores para avaliar a floresta, não há dúvida de que as forças políticas que protagonizaram o segundo turno de 2018, o lulopetismo e o bolsonarismo, saíram enfraquecidas. Por outro lado, o centro e a centrodireita, representados no Brasil por partidos como PSDB, MDB, DEM e o Centrão, no conjunto se fortaleceram (o que não quer dizer que todas essas agremiações tenham avançado).

Se o Brasil contasse com um governo minimamente funcional, o resultado do pleito municipal seria uma boa notícia para a economia e, consequentemente, para os mercados – assim como foi a vitória de Biden nos Estados Unidos.

Ambas as eleições sinalizaram que a maré alta do populismo de direita pode ter ficado para trás, e que o eleitorado está apostando em moderação e racionalidade.

Bolsonaro é um populista de direita. Numa primeira abordagem, o enfraquecimento dessa tendência debilitaria o governo brasileiro, pioraria a governabilidade e seria negativo, portanto, para o encaminhamento da agenda governista.

Em termos da pauta econômica, entretanto, essa análise é superficial. O extremismo de Bolsonaro se concentra muito mais na pauta de costumes, valores, segurança etc.

Economia nunca foi tema de muito interesse do atual presidente e do seu núcleo “ideológico” de seguidores. Bolsonaro comprou “de porteira fechada” o programa liberal de Paulo Guedes.

Apesar de visto como hiperliberal por alguns, a operação do ministro da Economia no contexto sociopolítico brasileiro acaba sendo semelhante – embora bem menos eficaz – à de outros ministros de governos tucanos, da primeira fase de Lula, do final de Dilma, e de Temer.

As ideias mais liberais de Guedes, como introduzir capitalização na reforma da Previdência, não conseguiram nem engatinhar.

Assim, não é exagero dizer que a pauta econômica do governo Bolsonaro está bem alinhada com a centro-direita que parece ter sido a vencedora do pleito municipal. Claro que as eleições não foram para o Congresso, e, portanto, esse reforço é indireto – mas ainda assim ele existe.

Sempre há, obviamente, a tensão entre o Executivo, que tem que fazer os gastos caberem no Orçamento e tomar medidas muitas vezes impopulares, e o Legislativo, mais propenso a atender interesses específicos de eleitores e financiadores políticos.

Porém, como mostrou a aprovação do teto de gastos e da reforma da Previdência, desde 2015 o Congresso tem se mostrado cooperativo em relação a medidas fiscais que impliquem contenção de gastos e redução de benefícios.

A esquerda, que na oposição tradicionalmente se opõe a medidas de ajuste fiscal e reformas pró-mercado, já estava enfraquecida antes dessas eleições e provavelmente terá ainda menor capacidade de barrar uma eventual ação concertada entre o governo e a maioria parlamentar de centro-direita.

Obviamente, é preciso um Executivo que faça política tradicional com eficiência, e isso não significa necessariamente, como pensam alguns, recorrer à corrupção.

Negociações não necessariamente no topo da nobreza da atividade política, envolvendo cargos e verbas legalmente alocadas, existem na maioria das democracias e são necessárias, especialmente em presidencialismos de coalizão, como o brasileiro. Quem diz isso, aliás, são cientistas políticos que estudaram a fundo o sistema político nacional.

Existe, portanto, um alinhamento entre a pauta econômica do governo e as forças políticas vitoriosas na última eleição que, em condições normais de temperatura e pressão, auguraria bem para o encaminhamento das necessárias medidas fiscais e para a retomada das reformas estruturais.

É mais uma oportunidade para Guedes de retomar o controle das ações, em parceria com as lideranças relevantes do Congresso, e tentar deixar um legado positivo da sua passagem pelo governo (que pode inclusive ser prolongada em caso de sucesso).

É claro, porém, que esse não é um cenário provável. O ministro da Economia teria de se impor não só às diversas áreas do governo que tentariam sabotar esse esforço, mas inclusive ao presidente e sua explosiva irracionalidade.

Guedes até agora deu mais sinais de irritação inócua seguida de adaptação, no confronto com essas forças contrárias, do que de embate eficaz e de afirmação do seu poder como – em teoria – o principal “policymaker” do governo.

É difícil crer que esse padrão possa mudar. Mas sempre estará nas mãos do ministro a capacidade de tentar virar o jogo. A ver.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/11/2020, segunda-feira.

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