Mais uma fala de Tombini

Esta coluna foi publicada pela Broadcast antes da fala de Tombini, presidente do BC, ontem (14/4). Tombini se ateve ao discurso recente e não trouxe surpresas para o mercado

Fernando Dantas

15 Abril 2015 | 17h08

Está prevista para hoje (14/4, terça-feira) às 12:45 a fala do presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, que encerrará o evento Itaú BBA Macro Vision de 2015. Há dois anos, no encerramento do Macro Vision de 2013, o ex-diretor de Política Econômica Carlos Hamilton provocou impacto nos mercados com a declaração de que “gostaria de registrar que cresce em mim a convicção de que o Copom poderá ser instado a refletir sobre a possibilidade de intensificar o uso do instrumento de política monetária, da taxa Selic’.

Em seguida, na reunião de maio de 2013, o Copom dobrou para 0,5 ponto porcentual o ritmo do aperto monetário iniciado no encontro anterior. Entre maio de 2013 e janeiro de 2014, foram seis altas de meio ponto porcentual que levaram a Selic de 7,5% para 10,5% (ela ainda iria até 11%, com mais duas de 0,25, antes da parada em maio de 2014).

Uma pergunta importante, portanto, é se Tombini aproveitará o evento do Itaú, apinhado de profissionais do mercado financeiro, para dar alguma sinalização importante de política monetária. Hoje também é o dia das sabatinas no Senado dos novos diretores apontados para a diretoria do BC: Tony Volpon e Otávio Ribeiro Damaso, que já está falando aos senadores. Porém, se o BC quiser dar algum recado, é mais provável que este venha de Tombini.

Para um conhecido e respeitado gestor, o cenário mais provável é que Tombini e os diretores redobrem o discurso de que seguem comprometidos em levar a inflação ao centro da meta, de 4,5%, em 2016. Ele nota que há grande ceticismo no mercado quanto ao cumprimento do objetivo no próximo ano, ainda que as projeções medianas contemplem uma grande desaceleração do IPCA de 8,1% em 2015 para 5,6% em 2016.

“Apesar de ser uma batalha inglória, é cedo para o BC desistir e por isso eles devem reafirmar o compromisso de pés juntos e dizer que seguem vigilantes”, comenta o analista.

Uma situação bem diferente seria se Tombini decidisse por fim às dúvidas do mercado entre um aumento de 0,25 ou 0,5 ponto porcentual na próxima reunião do Copom, em 28 e 29 de abril. Segundo o gestor, uma sinalização dura, que apontasse para 0,5, mexeria com o mercado e poderia inclusive resultar em convergência da expectativa de 2016 para mais próximo do centro da meta – inclusive porque a extrapolação poderia ser a de que, com 0,5 em abril, haveria outra elevação de 0,5 na reunião do Copom de início de junho.

Ele nota que, a duas semanas da reunião de abril, o BC tem um conjunto de informações bem mais atualizado do que o dos últimos documentos oficiais, o que poderia dar base a uma mudança na comunicação. “Mas parece que é muito cedo para ele se comprometer, o estilo (do BC de Tombini) é o de deixar as opções em aberto até o último minuto, o que indicaria que ele não vai mudar a comunicação”, acrescenta o analista.

Para ele, a comunicação do BC indica que a autoridade monetária já gostaria de ter reduzido o ritmo das elevações da Selic para 0,25, mas foi impedida pela depreciação cambial. Assim, por um lado, seria surpresa um sinal dovish agora na direção de 0,25, que conflitaria com o propalado comprometimento com 4,5% em 2016, mas a volta no câmbio e a redução de volatilidade nas últimas semanas também segura uma decisão antecipada por 0,5.

Tiago Berriel, economista-chefe da gestora Pacífico, considera que “o BC tem uma grande oportunidade de surpreender pelo lado hawkish”. Ele lembra a fala de Hamilton no Itaú Macro Vision de 2013, embora não antecipe que Tombini seguirá pela mesma via.

Para Berriel, a melhor opção para a autoridade monetária seria a de simultaneamente sinalizar um ajuste mais forte da Selic e a reduzir o estoque de swaps cambiais. Assim, seria um sinal na direção de estimular o ajuste estrutural do câmbio e dos preços relativos de tradables e non tradables. Por outro lado, seria evitada uma apreciação com o aperto monetário adicional. Ele não crê neste cenário, entretanto, inclusive porque Tombini já deu sinais claros de que enxerga a manutenção do atual estoque de swaps cambiais por longo tempo.

Dado esse fato, Berriel acha que a segunda melhor opção seria a de se indicar uma trajetória da Selic um pouco acima da precificada na curva de juros, que inclusive caiu nos últimos dias. “Seria uma oportunidade de demonstrar grande seriedade quanto ao processo de convergência”, ele diz. Essa sinalização, na sua interpretação, seria de pelo menos mais duas altas de 0,5 ponto porcentual.

O economista da Pacífico vê alguns incentivos para o BC adotar uma comunicação mais dura. Ele nota que o governo e a equipe econômica como um todo estão muito comprometidos em entregar um pacote completo de ajuste, dentro do que chama de “onda de virtude da política econômica”: correção de preços relativos, inflação rumo à meta e política fiscal que coloca o País na direção do fortalecimento da solvência. Ele nota que Tombini e o BC ficarão numa situação desconfortável junto aos seus pares na equipe econômica se não entregarem a sua parte na correção geral de rumos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 14/5/15, terça-feira.