Manifestações e as chances de Dilma

Fernando Dantas

18 de fevereiro de 2014 | 10h14

O economista Alexandre Marinis, da consultoria Mosaico, especializado em análise política, acha que a temporada de manifestações deste ano, prevista para as vésperas da Copa, não deve afetar a popularidade da presidente Dilma Rousseff como gostaria a oposição. Além disso, de forma quase paradoxal, ele diz que, caso as manifestações sejam muito intensas e marcantes, isto poderia até ajudar a presidente a se eleger no primeiro turno, se levasse a um aumento dos votos brancos e nulos.

Para Marinis, um fator decisivo na eleição deste ano é a interação entre manifestações e propensão ao voto nulo ou branco. Ele diz não ter uma resposta clara a dar para a direção  desta relação, mas considera que os analistas deveriam monitorá-la com a máxima atenção.

O economista parte do princípio óbvio que manifestações que canalizem a insatisfação popular são danosas à popularidade de qualquer governante. “Se não tivesse havido nenhuma manifestação no ano passado, nós nem estaríamos conversando”, diz.

Mas ele acrescenta que, no caso da campanha presidencial deste ano e dos efeitos da agitação social para a candidatura Dilma, é preciso fazer uma análise bem mais complexa. Marinis aponta que ganhar no primeiro turno é um objetivo muito importante para a presidente, já que deve haver união das oposições num possível segundo turno, e um embate com a chapa de Eduardo Campos e Marina Silva seria bem difícil para a presidente.

Um primeiro ponto sobre as previstas manifestações deste ano, para Marinis, é que elas provavelmente não terão um impacto nem de longe comparável às de 2013. Não há o fator surpresa, os governantes e até a polícia estão tendo tempo para se preparar melhor, e a Copa virá acompanhada de férias escolares e grandes feriados, o que pode ser desmobilizador. A morte do cinegrafista Santiago Andrade, além de reduzir a popularidade das manifestações, deve afastar parte do público, temeroso de incidentes semelhantes.

O economista nota que as manifestações vêm perdendo apoio, que, de números próximos a 90%, no auge de 2013, caiu para 56% na medição do Datafolha agora em fevereiro no Rio. Estes números não são exatamente comparáveis, ele ressalva, por causa de bases geográficas diferentes, mas apontam um indiscutível esvaziamento  do apelo popular dos protestos.

Mais significativo, continua Marinis, é o fato de que houve um racha social no apoio. Na recente pesquisa do Datafolha no Rio, a aprovação caiu para apenas 44% entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, enquanto sobe a 71% entre os que ganham dez salários mínimos ou mais. O economista observa que a perda de popularidade das manifestações se dá justamente entre o público mais pobre, que vota mais no PT, enquanto os mais ricos, que tendem mais à oposição, ainda apoiam os protestos. Isto indica que o movimento talvez não tenha tanta capacidade de mudar o quadro eleitoral.

Ele acrescenta que, da Copa do Mundo até as eleições, há bastante tempo para uma recuperação de popularidade presidencial, caso as manifestações abalem as intenções de voto em Dilma. A aprovação do governo Dilma teve ums queda brusca de 71% para 45% no ano passado, com os protestos, mas já havia voltado para 54% em meados de setembro – menos tempo do que os dois meses e meio entre o fim da Copa e a votação do primeiro turno.

Apesar de todas essas ressalvas, Marinis ainda considera bem possível um segundo turno na eleição deste ano, em função do alto nível de votos brancos votos e nulos que vem sendo apontado em sondagens como as do Ibope. Se o nível destes votos se normalizar, e supondo que parte dos que votariam branco ou nulo se encaminhe para um candidato de oposição, sobe bastante a chance de um segundo turno. Por não serem contabilizados como votos válidos, os brancos e nulos, na verdade, ajudam quem estiver em primeiro lugar no primeiro turno.

Daí deriva a parte da análise de Marinis mais surpreendente, e talvez mais importante. Grandes manifestações que renovem o sentimento geral de descrédito com os políticos, e que estimulem o voto branco ou nulo, podem, paradoxalmente, contribuir para a reeleição da atual presidente.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estado.com)

Esta coluna foi publicada ontem, 2ª, 17/2/14, na AE-News/Broadcast

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