Manobras e versões

Dois cientistas políticos, em lados opostos da disputa de poder atual, analisam as manobras e contramanobras do impeachment.

Fernando Dantas

11 de maio de 2016 | 17h46

A intrincada história do impeachment da presidente Dilma Rousseff pode ser apreciada em dois níveis diferentes. Um é o desenrolar dos fatos em si – sob este ângulo, a grande maioria dos analistas considera que o impeachment é jogo jogado, e, salvo alguma enorme surpresa, Dilma será substituída por Temer em questão de poucos dias e não deve retornar ao governo para o qual foi eleita.

O outro nível é o da interpretação dos fatos, que provavelmente será, por longo tempo, material a ser moldado e utilizado no combate entre as forças protagonistas da vida política brasileira.

As visões de dois competentes cientistas políticos, que hoje se colocam em polos opostos da disputa política em curso, sobre as manobras e contramanobras de ontem ilustram bem o ponto acima. Carlos Pereira, doutor pela New School University, de Nova York, e pós doutor por Oxford, na Inglaterra, é professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape-FGV) e colocou-se, desde o ano passado, claramente a favor do impeachment. Celso de Barros, doutor por Oxford, é articulista da Folha de São Paulo e ativo participante do debate público, assumindo-se abertamente como petista.

Para Pereira, a anulação das sessões do impeachment pelo deputado Waldir Maranhão (PP-MA), presidente interino da Câmara, posteriormente revogada pelo próprio autor, indica que “o PT perdeu a capacidade de se indignar com o próprio ridículo”. Ele nota, como já é bem sabido, que a manobra inicial foi arquitetada com o advogado-geral da União, o petista José Eduardo Cardozo, e Flávio Dino, governador do Maranhão, do partido aliado PCdoB.

Muitos observadores consideraram a tentativa do deputado maranhense como uma jogada tosca, com muito pouca chance de dar certo – um típico “lance de desespero”. O fato de que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ignorou a anulação de Maranhão e deu prosseguimento normal ao trâmite do impeachment no Senado foi a primeira pá de cal na manobra.

Segundo Pereira, “o PT precisa ter dignidade na derrota, aceitá-la e partir para outra – a insistência em ficar se agarrando a uma situação completamente sem saída só vai gerar perdas ainda piores”. Ele nota que as ações de Maranhão provocaram turbulências no mercado financeiro, podem ter prejudicado empresas e atentaram contra a respeitabilidade internacional do País.

“Vejo com muita tristeza um partido com a história do PT se permitir esse grau de ridículo ao partir para a resistência cega”, ele diz, acrescentando que vê um “esgarçamento e dilaceramento” da imagem do partido, que “não interessa a ninguém”.

Pereira diz ser importante para a democracia brasileira que o PT e as outras agremiações de esquerda se preservem para “fazer uma oposição aguerrida e vigilante ao governo Temer, cobrando posturas retilíneas e políticas públicas adequadas”. Para o pesquisador, “o PT não está fora do jogo, pode se reciclar, se reencontrar e voltar mais forte no futuro – mas agora é fundamental reconhecer que perdeu”.

Outra visão

Barros, por sua vez, concorda com Pereira em que Dilma e o PT perderam a guerra do impeachment. “O governo agora está cumprindo tabela”, ele diz.

Diferentemente do pesquisador da Ebape, porém, Barros considera que as manobras como a de Maranhão e todas as peripécias dos últimos dias são ruídos que não têm importância nem para o desfecho do impeachment, nem para a imagem que os partidos levarão para o futuro.

“O PT tem muitos problemas e poderia até acabar, mas não será por causa do que está ocorrendo agora, mas sim por causa da Lava-Jato, pela prisão de quadros do partido, e pelos erros econômicos que cometeu com a nova matriz”, diz Barros.

Ele lembra ainda que “o impeachment foi uma luta muito pesada, e o processo do outro lado também foi muito feio”. O cientista político cita o pedido do PSDB ao TSE da cassação do registro da candidatura de Dilma e Temer e pela diplomação de Aécio Neves e Aloysio Nunes; o voto tucano contra o fator previdenciário, que o próprio partido instituiu; a participação do PSDB no esvaziamento do plenário, a comando de Eduardo Cunha (PMDB-RJ, ex-presidente da Câmara), numa manobra para não votar a pauta “bomba”; e o próprio fato de que o impeachment, ao fim e ao cabo, teria sido decidido pela distribuição de cargos do futuro governo Temer, cujo ministério “vai ficar parecido com o anterior”.

“Ninguém acha que o processo de impeachment foi uma Primavera de Praga – foi uma luta política, com aspectos bem feios como costuma acontecer com muitas lutas políticas, e que alguém ganhou e alguém perdeu”.

Barros nota ainda que muitos dos que se indignaram com a manobra de Maranhão não tiveram a mesma reação com as muitas manobras de Cunha.

Para o cientista político, não houve golpe, porque as regras foram cumpridas, mas ele acha relativamente compreensível que o PT use esse discurso para se preparar para a oposição, assim como é natural que PSDB e PMDB tentem caracterizar os últimos movimentos petistas como indignidade e ato de desespero – tudo isso seria parte do jogo político.

O único ponto relevante na manobra de Maranhão, segundo Barros, seria saber se haveria algum dedo de Cunha (houve especulações neste sentido, mas o ex-presidente da Câmara colocou-se energicamente contra a decisão do interino) ou de outras lideranças do PMDB, o que poderia indicar futuros problemas para Temer.

Segundo Barros, “ninguém sai sem arranhão deste processo, o Aécio está queimado, todo mundo saiu ferido – o PMDB e o PSDB ganharam o jogo, mas ninguém é popular, existe um desânimo generalizado e não haverá uma onda de otimismo como na época do impeachment do Collor”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/5/16, terça-feira.