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Mantega falou primeiro

Fernando Dantas

13 de abril de 2014 | 21h19

Quando, em setembro de 2010, Guido Mantega disse que havia uma “guerra cambial” no mundo, a declaração foi tomada por muitos no Brasil como mais um factoide produzido pela contumaz loquacidade do ministro da Fazenda brasileiro, mas a imprensa econômico-financeira internacional tomou o tema suficientemente a sério a ponto de o Financial Times criar uma espécie de seção no seu site com o título de “currency wars”. Hoje, o tema pode ser encontrado na Wikipedia, com fartas citações às declarações de Mantega.

De qualquer forma, eram tempos de glória para o mais longevo ministro da Fazenda da redemocratização, com o Brasil caminhando para um crescimento de 7,5% naquele ano. Posteriormente, como se sabe, a chamada “nova matriz econômica” implantada pela presidente Dilma Rousseff fracassou, levando o País à atual situação de baixo crescimento e alta inflação.

O prestígio de Mantega caiu consideravelmente, a ponto de a sua substituição já ter sido sugerida tanto pelo Financial Times quanto pela também britânica revista The Economist. Nesse contexto, as contribuições de Mantega ao debate das questões econômicas globais, como a referência à guerra cambial, também caíram no esquecimento ou no descrédito.

É curioso, portanto, ver o tema agora ser retomado por um dos economistas mais prestigiados do mundo, Raghuram Rajan, ex-professor da Universidade de Chicago, e hoje presidente do Reserve Bank of India, o banco central da Índia.

Sem mencionar a expressão “guerra cambial”, Rajan levantou na quinta-feira (10/4), durante um debate paralelo à reunião de Primavera do FMI, em Washington, preocupações muito semelhantes às que Mantega expressou há mais de três anos. Na plateia, figurava nada menos que o ex-chairman do Fed, Ben Bernanke, o principal formulador e executor dos gigantescos programas de injeção de liquidez dos Estados Unidos pós-crise global, e que, como Rajan, também é visto como um dos melhores macroeconomistas do mundo. Os dois discutiram sem papas na língua, como mostra reportagem no site do Financial Times.

A tese de Rajan é que o superexpansionismo monetário dos países ricos forçou os emergentes a acumular reservas para se contrapor as ondas de capital especulativo de curto prazo e a instabilidade associada ao entra-e-sai destes recursos. Assim, a “lição” que os emergentes estão aprendendo é a de que devem evitar déficits comerciais, manter o câmbio competitivo e acumular reservas.

Rajan perguntou se essa era a “mensagem que a comunidade internacional queria enviar”, já que a receita, se muito disseminada, configura um mundo com amarras ao crescimento econômico e do comércio internacional – especialmente do ponto de vista de um liberal como o presidente do BC da Índia.

Bernanke defendeu a política monetária dos ricos, e especialmente dos Estados Unidos, dizendo que o afrouxamento quantitativo (nome técnico das políticas não convencionais de expansão de liquidez) aumenta a demanda global, enquanto a manipulação da taxa de câmbio (que Rajan disse que os emergentes estão sendo obrigados a fazer) desvia a demanda de um país para outro, sem aumentá-la.

Além disso, o ex-chairman do Fed afirmou que as críticas de Rajan ao afrouxamento quantitativo também vinham do fato de que, independentemente do seu efeito nos emergentes, o atual presidente do BC da Índia sempre foi desfavorável àquela política, mesmo no contexto estritamente americano.

De qualquer forma, a discussão entre Rajan e Bernanke, assim como os comentários de Mantega sobre a guerra cambial, apontam para um mesmo problema: a falta de coordenação macroeconômica global entre as grandes economias ou grupos de economias.

Quando o mundo se viu à beira do abismo em 2008 e 2009, logo após o colapso do Lehman Brothers, no início da grande crise global, é sabido que houve uma excepcional atuação coordenada do G-20, com políticas anticíclicas somando-se para evitar uma repetição da Grande Depressão dos anos 30.

De lá para cá, porém, com a redução relativa dos níveis de risco sistêmico global, a tendência foi a volta aos tempos de cada um por si, com o G-20 relevando-se um grupo grande e heterogêneo demais, e ainda mais incapaz de coordenação global do que o G-7, que já não é representativo por excluir as grandes economias emergentes.

No debate de ontem, Rajan disse que “todas as regras remanescentes (de coordenação global) estão sendo quebradas”. Para ele, as regras foram estabelecidas numa era muito diferente da atual, voltadas apenas para desvalorizações competitivas e manipulação cambial. Dessa forma, elas não lidam com a questão do afrouxamento monetário não convencional e suas consequências nas economias de outros países.

Para ser justo com Mantega, independentemente dos erros que possa ter cometido na condução da economia nacional, as preocupações atuais de Rajan ecoam problemas apontados pelo ministro da Fazenda brasileiro já em 2010.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na sexta-feira, 13/04/2014.

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