Mantega prevê, com Dilma, novo ciclo de expansão

Em entrevista à Broadcast, Mantega diz que economia retomará expansão e PIB pode crescer de 2% a 3% em 2015, caso Dilma vença e o cenário externo melhore. O atual ministro, que deixa o cargo em 2015, criticou duramente Armínio Fraga e o que considera a proposta ortodoxa dos tucanos.

Fernando Dantas

16 de outubro de 2014 | 15h06

Em entrevista à Broadcast (publicada em 15/10/14, quarta-feira), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a economia já começou a se recuperar no segundo semestre, e que um novo ciclo de expansão deve se iniciar se a presidente da República, Dilma Rousseff, for vitoriosa em sua tentativa de reeleição. Já no caso do candidato do PSDB, Aécio Neves, vencer o embate e o economista Armínio Fraga sucedê-lo na Fazenda, Mantega vê risco de recessão, porque acha que os tucanos vão eliminar subsídios ao financiamento ao investimento, entre outras medidas que prejudicariam a economia.

Para Mantega, os ajustes de preços administrados em 2015 serão dentro da normalidade de todos os anos, já que não há defasagens. Na sua visão, caso o tucano Aécio Neves vença a corrida presidencial, haverá um forte ajuste de preços administrados, e a inflação só poderá ser controlada com grande elevação de juros, recessão e desemprego. Mantega disse ainda que os tucanos vão desmontar a política industrial e deixar a indústria ser submetida à competição externa.

Mantega considera que a economia brasileira pode crescer de 2% a 3% em 2015, com a vitória da presidente da República, Dilma Rousseff, supondo um cenário internacional melhor. Ele disse ainda que as pressões inflacionárias devem diminuir com a queda das commodities, o que deve levar o Banco Central a praticar uma política de crédito mais flexível. Para Mantega, a ideia de que a nomeação de um ortodoxo para o Ministério da Fazenda aumentaria a confiança não faz sentido. A seguir, a entrevista, feita na terça-feira, 16/10/14. 

 

2015 será melhor com Dilma ou Aécio na presidência?

Se houver a vitória da situação, nós teremos uma grande chance de iniciar um novo ciclo de expansão da economia brasileira, que já se configura desde agora. Mas se o candidato da oposição ganhar a eleição, se o ministro da Fazenda for o Armínio (Fraga), nós teremos uma grande chance de colocar o País numa recessão.

 

Por quê?

Isso se vê a partir das medidas que estão sendo propostas. Nós propomos medidas para que a economia volte a crescer num patamar mais elevado, e ela já está mostrando uma reação neste segundo semestre de 2014. Há melhoria no crédito, inflação mais bem comportada, o comércio está reagindo e a indústria automobilística está aumentando as vendas e a produção. Os supermercados estão faturando mais, a indústria de materiais de construção também. No próximo ano teremos melhores condições para uma expansão mais forte. Haverá um pouco mais de crédito, que ficou apertado este ano, um cenário internacional um pouco melhor e o amadurecimento de projetos que estão em andamento. Um dos carros-chefes dessa nossa recuperação econômica e da transição para um novo ciclo de expansão é um grande programa de infraestrutura. Enquanto os candidatos da oposição fazem promessas, nós já estamos pondo em prática esse grande programa.

 

Por que esse cenário dependeria da vitória de Dilma?

Isso só é possível porque vamos dar continuidade à política industrial, que é muito importante, para aumentar a produtividade da indústria brasileira. Vamos dar continuidade à política de financiamento ao investimento, que seria eliminada se houvesse uma vitória da oposição. Refiro-me aos juros subsidiados para financiamentos através dos bancos públicos e dos bancos privados também, como no caso do PSI (Programa de Sustentação do Investimento) do BNDES. Nós sabemos que o candidato a ministro da Fazenda falou que vai acabar com os subsídios, vai acabar com desonerações. Certamente o investimento vai se retrair no País com isso. Eu me pergunto, quais desonerações ele vai reverter? Sobre a cesta básica, que nós reduzimos? Da folha de pagamentos?

 

Se foram realizadas tantas medidas positivas, porque o crescimento médio do governo Dilma foi tão baixo, com reduzida taxa de investimento e com a inflação próxima ao teto da meta?

Nos últimos cinco anos, estamos atravessando uma crise mundial. Se olhar o crescimento do nosso governo antes da crise, eram taxas muito mais elevadas. Nós vínhamos crescendo 4% em 2006, quando me tornei ministro da Fazenda; 6% em 2007; e 5,2% e, 2008. Quando começou a crise, ela derrubou o crescimento de todos os países, inclusive os mais dinâmicos, a China, a Índia, etc. Vários países entraram em recessão, como na Europa. Para um período de crise, tivemos um desempenho muito bom. De 2009 a 2014, a taxa média de crescimento foi de 3%, bem maior do que no período tucano, mesmo sem essa crise internacional. Hoje esperamos uma reversão da crise internacional, que vai terminar, não sei se neste ano, ou no próximo, mas em breve. E aí teremos um cenário internacional melhor. Se não tivéssemos tomado as medidas que tomamos nesse período de crise, como o PSI, não teríamos mantido uma taxa de investimento elevada. No ano passado, o investimento do Brasil cresceu mais de 5%.

 

Sim , mas depois de ter tido uma queda muito grande. A taxa de investimento como proporção do PIB continua bem abaixo de 20%, não cumprindo o objetivo do início do governo Dilma.

O que aconteceu foi a crise internacional, que baixou a taxa de investimento do mundo. Baixou também o desempenho da indústria. Comparado com os Estados Unidos e com a Alemanha, o desempenho na indústria no Brasil de 2005 até hoje foi um pouco maior. Crescemos mais que a indústria alemã, considerada uma das mais produtivas do mundo. A crise baixou o desempenho de alguns segmentos. Se não tivéssemos usados as medidas anticíclicas, e eu tenho certeza de que o nosso adversário não usaria, porque a ortodoxia é contra medidas como redução de impostos e juros durante a crise, teria sido uma catástrofe. Nós teríamos tido o mesmo destino que os países europeus, que entraram em recessão. Nós passamos pela crise com crescimento menor, é verdade, porém com o grande privilégio de gerar emprego, e não desemprego, como aconteceu na maioria dos países. Mesmo em 2014, com um crescimento mais modesto, o nosso desemprego continuou caindo. Estamos hoje com 5%, um dos menores que já tivemos. Se não tivéssemos feito essas medidas, se tivéssemos seguido a recomendação do economista Armínio Fraga, aí sim nós teríamos tido desemprego e recessão, que é o que o programa que eles estão apresentando fará no Brasil caso eles ganhem a eleição.

 

Por que o sr. vê um cenário tão pior com os tucanos?

Eu li a sua entrevista com Armínio Fraga (publicada na Broadcast em 6/10) e está muito claro o que eles pretendem fazer. Levar a taxa de inflação ao centro da meta. Significa elevar juros, que é o que faziam no passado. Se pegar a taxa de juros de 1999 a 2002, quando o Armínio foi presidente do Banco Central, ela ficou altíssima, o triplo da taxa de juros que praticamos hoje. A inflação era mais alta, é verdade, a inflação cresceu no período em que ele foi presidente do BC. Ele entregou em 2002 uma inflação acima de 12%. Então ele vai combater a inflação como combateu naquela época, a menos que tenha mudado. Ele falou que vai eliminar subsídios, está na sua entrevista, disse que redução de tributos é um paliativo. Nós não achamos que reduzir tributos é um paliativo. Nós achamos que é importante reduzir tributos, porque o Brasil tem uma carga tributária elevada, e é importante dar competitividade às empresas.

 

E como o sr. vê o ajuste da economia que muitos economistas consideram inevitável no próximo ano?

É um equívoco dizer que há preços reprimidos e que, para controlar a inflação, a gente esteja controlando preços. Os nossos preços administrados estão em linha com as regras estabelecidas. Alguns têm regra, outros é uma definição que o governo dá. Eu quero dizer que todos os preços estão ajustados de acordo com as regras e com o mercado. Eu lanço um desafio ao candidato a ministro da Fazenda, Armínio Fraga, de me mostrar qual é o preço administrado que está fora do lugar.

 

O sr. parece dizer que no ano que vem não haverá alta de juros, já que aponta isso como o caminho da oposição, e está dizendo ainda  que não haverá nenhuma correção de preços defasados. É isso?

Do nosso ponto de vista, o próximo ano será de normalidade. Os preços administrados serão ajustados como todo ano. Em relação aos juros, o BC elevou a Selic até 11% e depois parou. O que vai fazer não sei, porque ele tem uma certa autonomia. Quando parou de elevar os juros, o BC sinalizou que a inflação está sob controle, em algum momento poderá reduzir os juros. Aí é uma questão do Banco Central, uma decisão dele. Mas o BC começou a flexibilizar a política monetária, tanto que em setembro temos mais crédito.  E se você olhar os juros que foram praticados pelo presidente do BC, Armínio Fraga, você verá que o apetite de juro alto é muito maior. Era mais que o dobro do que praticamos.

 

O contexto econômico era diferente, veio depois de uma desvalorização cambial descontrolada.

São duas concepções econômicas diferentes. Importante para o Armínio é só fazer um ajuste fiscal forte, atingir o centro da meta de inflação rapidamente, e câmbio flutuante. Aliás, câmbio flutuante ele está falando agora, porque no início do governo FHC eles fizeram um câmbio engessado. Para nós, o tripé é condição necessária, mas não suficiente. Eles acham que basta fazer esses ajustes e a economia vai sozinha. Eles vão desmontar a política industrial, vão retirar subsídios, e vão deixar a indústria submetida à competição externa.

 

Voltando aos preços administrados, também não há defasagem na gasolina?

A gasolina todo ano sofre reajustes, dentro da normalidade. Todos os anos ajustamos Correios, remédios tabelados, planos de saúde, loteria, energia elétrica – neste caso, até acima da média, por causa da seca que tivemos este ano, que nos atrapalhou bastante. Agora, o que a oposição está falando é que vai reajustar fortemente. Como é que vai controlar a inflação se vai dar um baita ajuste de preços? A inflação só não vai subir nessas condições se causarem uma recessão, com uma baita taxa de juros, que vai desestimular a construção civil, as atividades em geral. Vai diminuir a demanda do consumidor brasileiro, o poder de compra. Vai causar desemprego e, portanto, menos trabalhadores estarão consumindo.

 

Na entrevista a Broadcast a que o sr. se refere, Arminio Fraga defende, na verdade, um ajuste suave e gradual, que ele diz que seria possível com a recuperação da economia em caso de vitória tucana. O sr. acha que a recuperação da confiança de fato ajudaria a economia a se ajustar?

 

O período em que as ações mais subiram no Brasil foi de março a julho, antes do processo eleitoral. É claro que no período eleitoral há alguma influência. Alguns usam pesquisas, operam o mercado, ganham dinheiro com volatilidade e flutuações. Mas a Bolsa subiu no primeiro semestre porque havia confiança na economia brasileira de que nós teríamos melhores condições para uma recuperação assim que economia internacional desse uma melhorada. Até o dia 13 de agosto, quem estava na frente era Dilma e tivemos um bom fluxo de capital e de investimento externo direto que, este ano, está batendo recorde, deve ser US$ 67 bilhões. Se isso não é confiança, eu não sei o que é confiança. Qual é a confiança que tem alguém que levou o País a uma situação de inadimplência. É bom lembrar que, em 2002, o Brasil teve de recorrer ao FMI. Entregaram a economia com o risco Brasil de 2.412 na pontuação do Embi. Dizem que foi por causa do Lula, mas, em novembro de 1998, quando houve a desvalorização do real, estávamos com 1.500 de risco Brasil. Hoje estamos em torno de 240. O mercado, portanto, não tinha confiança no então presidente do BC e no governo da época.

 

Mas não é curioso que, apesar de tudo o que o sr. está dizendo sobre os fatos de 12 anos atrás, hoje o mercado mostre mais confiança em Aécio, a julgar pelo comportamento recente do preço dos ativos?

Eu já falei que há volatilidade nas eleições…

 

Mas por que a volatilidade tem esse sentido tão específico hoje?

Eu falei que antes da campanha, quando a presidenta Dilma estava de longe à frente nas pesquisas, a bolsa subiu, de fevereiro a agosto. Como você me explica isso?

 

O sr. então não concorda que a Bolsa esteja subindo com as chances de Aécio e vice-versa?

Não foi só o Brasil, outros países emergentes também tiveram elevação. É uma aposta nos países emergentes mais promissores. Porque a economia capitalista está fragilizada, não tem tantas alternativas de investimento, de ganhar dinheiro. O Brasil é um país que tem essas condições. O Brasil hoje está sólido apesar de um crescimento menor conjuntural. Muito mais sólido do que quando nos foi entregue em 2002, um país fragilizado, a beira do default, à beira do precipício, porque não tinha recursos para pagar suas contas, e teve de pedir dinheiro para o FMI. Hoje nós somos credores, emprestamos dinheiro ao FMI. Os quatro anos de governo Dilma foram quando mais recebemos investimento estrangeiro direto. Isso não é o pessoal que fica especulando, olhando o curto prazo. É uma visão de médio e longo prazo, de confiança no Brasil.

 

Como será a política fiscal no ano que vem?

A nossa política fiscal foi a mais responsável, porque estamos fazendo superávit primário há onze anos consecutivos, enquanto o governo FHC só fez durante quatro anos, metade do seu período. Ninguém pode questionar nossa política fiscal em termos de seriedade. Num período de crise, se faz um superávit um pouco menor. No próximo ano, já há uma proposta no Congresso de fazer um superávit primário entre 2% e 2,5% efetivos do PIB.

 

É um forte aumento em relação ao que se espera para 2014, não? Um forte aperto fiscal.

Este ano estamos buscando 1,9%.

 

Mas vamos chegar a isso? Há muito ceticismo, as projeções estão bem abaixo disso.

Ainda temos várias receitas extraordinárias até o fim do ano e a economia está voltando a crescer mais, o que traz arrecadação maior.

 

Mas o ano já está terminando…

No próximo ano, vamos fazer um esforço fiscal maior, como foi feito em 2011, quando começou o governo Dilma. O mais importante é diminuir a dívida. No período do Armínio, ele fazia um primário de 3% e a dívida aumentava, porque tinha que pagar uma conta de juro muito mais alta. Não adianta nada fazer um fiscal maior só para pagar a conta de juros e aumentando a dívida pública. A dívida nos foi entregue em 60% do PIB e hoje está em 35%, muito menor do que no segundo governo FHC. Continuaremos praticando a responsabilidade fiscal sem comprometer a economia. Quando faz fiscal muito forte e rigoroso, não dá condições para a economia crescer.

 

Quanto a economia pode crescer no próximo ano?

É possível que melhore o cenário internacional, com mais mercado para as nossas exportações. Há a melhora do crédito. Nós enfrentamos uma inflação produzida em parte pela seca, e ano que vem não deverá ter seca, não teremos as mesmas elevações das tarifas de energia elétrica. Temos queda das commodities no mercado internacional, inclusive o preço de petróleo está abaixo de US$ 90. Queda de preços de grãos, alimentos. A pressão inflacionária será menor na economia brasileira, porque uma parte desta pressão veio de fora. Com isto, o BC poderá fazer uma política de crédito mais flexível, hoje a economia está girando sem crédito para consumo, embora haja crédito abundante para investimento. É importante ter recuperação de consumo para ter retomada do investimento. Assim a economia poderá caminhar para uma taxa de crescimento entre 2% e 3% no próximo ano.

 

Por que o sr. deixa o cargo de ministro da Fazenda após esse longo período?        

É justamente por ser um período tão longo. Quando vou às reuniões do FMI, eu quase já não tenho velhos amigos, todos foram embora. Já passei por três secretários de Tesouro americanos, três ou quatro ministros da Fazenda da Alemanha. Já estou há mais de oito anos na Fazenda, já estava no governo, fui ministro do Planejamento e presidente do BNDES. Tenho de cuidar mais da família que está reclamando. Se ficar mais um mandato, vou ter de mudar de família. Isso não significa que haverá mudanças nessa política desenvolvimentista. É um modelo desenvolvimentista, que faz política industrial, que estimula a geração de empregos, que estimula a construção civil, que tem o programa Minha Casa Minha Vida, em que o governo federal gastou R$ 15 bilhões no ano passado, e deve gastar R$ 18 bilhões. É muito fácil fazer superávit se suprimir esses R$ 18 bilhões, e acabar com esse programa. Esse programa vai continuar, o Bolsa-Família vai continuar, o programa de infraestrutura vai ser ampliado. O nosso rumo está muito bem definido, tem de continuar gerando emprego, reduzindo desigualdade, é um programa que combina ação econômica e social. Já o programa do nosso adversário é ortodoxo típico, acha que não tem de ter ação social, a ação social é uma decorrência das ações econômicas que são limitadas a só fazer o tripé.

 

Há uma especulação de que, se reeleita, a presidente Dilma chamaria um ministro da Fazenda de perfil ortodoxo para recuperar a confiança dos mercados. O sr. crê nisso?

Essa questão não se coloca. No meio da eleição, discutir o novo ministro da Fazenda, sendo que estarei aqui até dezembro… Não me parece que faça sentido. É igual àquele que se sentou na cadeira antes da eleição (referência ao episódio na derrota de FHC para Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura de São Paulo), no mínimo dá azar. Certamente eu não colocaria como ministro da Fazenda um cidadão ortodoxo como o Armínio Fraga que, no passado, não tinha a confiança do mercado. Falei para você qual era o nível de confiança que havia.

 

Sim, mas a variação do preço dos ativos parece indicar que ele tem essa confiança no presente…

Eu me baseio em dados, não invento nada. No segundo mandato do FHC, tanto o presidente quanto o presidente do BC não tinham a confiança do mercado, embora fossem ortodoxos. O presidente nem era, foi levado a uma política ortodoxa pelos seus assessores econômicos. Não sei de onde tiraram a ideia de que basta colocar um conservador para voltar a confiança.

 

(Fernando Dantas –fernando.dantas@estadao.com)

 

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