Mapeamento da desaceleração global

Com José Júlio Senna, do Ibre, um resumo das principais hipóteses pela demanda e pela oferta da perda de ritmo econômico, especialmente dos países ricos.

Fernando Dantas

02 de junho de 2015 | 22h55

Uma das grandes questões econômicas do nosso tempo, importante tanto para o Brasil quanto para o mundo, é a desaceleração dos países ricos e a queda das taxas de juros internacionais. O economista José Júlio Senna, à frente do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio, vem radiografando o fenômeno e mapeando o debate global sobre o tema.

De 1980 a 2014, as economias avançadas cresceram a uma média de 2,4%. Desde 2011, porém, a expansão dos ricos está bem abaixo desta média, tendo sido sempre inferior a 2%. Em contraste, os emergentes cresceram acima da média (1980-2014) de 4,6% entre 2011 e 2014, mas com tendência de desaceleração.

A inflação também caiu de maneira geral desde 2011, e o comércio global perdeu ritmo. Já os juros reais nos países ricos deram prosseguimento nos últimos anos a uma tendência de queda iniciada no começo da década de 80. Numa amostra do FMI de 18 países até 2012, ao final deste período os juros reais de três meses eram negativos (em torno de -1%) e as taxas de dez anos estavam próximas de zero. A tendência de queda continuou desde então.

Um dos principais pensadores sobre a perda de fôlego da economia dos países ricos é Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Entre 2002 e 2007, apesar de um juro básico real de apenas 0,3%, a economia americana cresceu a uma média anual nada explosiva de 2,7%, com inflação comportada de 2,5%. Por outro lado, no mesmo período os imóveis subiram 62%, a bolsa teve alta de 28%, os empréstimos bancários cresceram 74% e a dívida das famílias saltou de 75% para 98% do PIB.

A história na zona do euro entre 2002 e 2007 é parecida. Com juro real básico real de apenas 0,4%, o crescimento médio anual da região foi de 2% e a inflação média de 2,2% – números que ficam longe de sinalizar uma economia superaquecida. Ainda assim, a bolsa subiu 65%, os empréstimos bancários elevaram-se em 56% e a dívida das famílias saltou de 56% para 69% do PIB.

A visão do Summers é que, pré-crise global de 2008, a economia já tinha dificuldade de crescer, a chamada “estagnação secular”. O crescimento modesto que houve veio na esteira de bolhas de ativos turbinadas pela política monetária superacomodatícia. A razão para a fraqueza da demanda é o excesso de poupança para pouca disposição de investir, por uma série de possíveis causas, como desigualdade nos países ricos, investimentos menos intensivos em capital na economia contemporânea, queda dos investimentos por envelhecimento populacional, etc.

Crítico da tese da estagnação secular, Ben Bernanke, ex-chairman do Federal Reserve (Fed, BC americano), acha que o investimento vai reagir ao juro negativo e está demorando a fazê-lo por motivos conjunturais, como ajuste fiscal, demora na recuperação do mercado residencial e condições de crédito. Ele também frisa o excesso de poupança asiática (especialmente chinesa) para explicar a queda dos juros já no período pré-crise, mas Summers, na verdade, nunca excluiu este fator.

Senna também chama a atenção para as reflexões de Kenneth Rogoff (ex-economista-chefe do FMI), de que não há deficiência de demanda e o momento atual segue o padrão pós-crises financeiras; e de Richard Koo, economista-chefe do Nomura, que – tendo como referência o Japão pós-estouro da bolha nipônica – vê uma “recessão de balanço”, quando as empresas passam a priorizar a redução da dívida em relação à busca do lucro, o que prejudica a demanda agregada.

Há, finalmente, toda uma discussão da desaceleração pelo lado da oferta. Um nome básico deste debate é o do economista Robert Gordon, da Northwestern University, que vê uma queda do ritmo de aumento da produtividade quando se compara os efeitos da segunda revolução industrial (eletricidade, motor de combustão interna e encanamentos) com os da terceira, ligada à internet e aos computadores.

Mas essa é uma discussão complexa, e Senna vem estudando também visões alternativas à de Gordon, como pesquisadores que investigam a defasagem entre as grandes revoluções tecnológicas e os aumentos de produtividade (devido à adaptação do sistema produtivo), que ocorreram no passado e podem estar acontecendo hoje também. E há ainda muitas outras questões, como os serviços a preço zero que não são captados na estatística (Skype, Wikipedia) e a queda da demanda por trabalho rotineiro e por trabalhadores de renda média. Esses fenômenos, por sua vez, podem estar ligados ao padrão das “jobless recoveries” (recuperações sem criação de emprego) e do aumento da fatia do capital na renda.  A desigualdade, lembra Senna, é uma das possíveis causas da estagnação secular. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 1/6/15, segunda-feira.

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