Mapeando o debate da crise grega

Fernando Dantas

23 de junho de 2011 | 17h03

Abaixo, meu artigo de ontem na AE-NEWS da Broacast. 

O drama grego, pela sua importância e gravidade, pelos riscos que traz à economia europeia e global, e pelas imensas somas envolvidas, provocou uma torrente de análises de alto nível, como talvez só tenha sido registrado em tempos recentes no auge da crise global. São tantas as interpretações e projeções que é útil tentar mapeá-las, mostrando quais são os consensos, as dúvidas e os dilemas, e quais os principais argumentos subjacentes às diversas posições.

Há consenso, é claro, sobre a gravidade da situação. Com a crise global, a Grécia saiu da posição de um participante do euro relapso em termos fiscais (déficit público por muitos anos acima de 3%), mas que crescia bem, para uma situação econômica terminal: déficits gigantescos nas contas públicas e na conta corrente (respectivamente 9,6% e 10,4% do PIB em 2010), relação dívida/PIB próxima a 150% do PIB, economia em contração (pelo terceiro ano consecutivo em 2011), desemprego altíssimo e gravíssima crise política e social. No momento, a resistência da sociedade grega às medidas de austeridade associadas à negociação de um novo pacote de ajuda é um sintoma da dificuldade sobre-humana de se conseguir uma solução para a crise.

Fora da esfera oficial, em que obviamente algumas coisas não podem ser ditas, parece não haver quase nenhum analista que acredite que a Grécia pode sair da sua armadilha de endividamento sem algum tipo de reestruturação. E aqui começam algumas dúvidas e divergências. Primeiro, sobre o que é exatamente uma reestruturação. As reações alarmadas que recentemente demoveram a Alemanha da sua tentativa de incluir no novo pacote para a Grécia algum tipo de “participação do setor privado” mostraram que, no mundo real dos investidores e das agências de rating, não existe eufemismo capaz de disfarçar uma reestruturação. Qualquer mudança não-voluntária de aspectos dos compromissos da Grécia com seus credores será considerada como tal.

Um segundo ponto de discussão é o fôlego da Grécia para que o país, a União Europeia (UE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) continuem “tocando com a barriga”. Para alguns, é uma questão de meses antes de acontecer uma reestruturação. Para outros, este desfecho ainda pode ser jogado um pouco mais para frente, talvez até 2013.

Em recente artigo no Financial Times, Steven Rattner, ex-assessor do Tesouro americano, nota que a Alemanha está hoje em uma situação muito favorável de crescimento, e que a crise da periferia europeia, ironicamente, ao manter o euro desvalorizado, contribui para competitividade externa do país. Por outro lado, uma crise descontrolada da Grécia, que ameaçasse a integridade do euro, poderia romper esse quadro positivo – daí o interesse da Alemanha em não deixar a Grécia sem alguma boia de salvação, ainda que, para satisfazer seu eleitorado, a chanceler Angela Merkel busque ao máximo associar a ajuda a uma forte cobrança de austeridade dos gregos.

Se essa visão estiver correta, é possível que a Alemanha “estique a corda” ao máximo, e evite eventos de ruptura, mesmo que, para o grande público, assuma uma postura de dureza.

Efeito global – Há um debate também sobre os efeitos no mundo de uma eventual reestruturação da dívida grega (que poderia provocar um efeito cascata, atingindo Portugal, Irlanda e até, na pior das hipóteses, a Espanha). As previsões vão desde uma absorção relativamente pacífica do evento (mas não indolor ou barata) até um cenário “Lehman Brothers”, em que as consequências seriam caóticas, levando a uma nova contração de crédito violenta na Europa, e, possivelmente, no mundo, e a uma disparada da aversão global ao risco.

As piores previsões decorrem, naturalmente, da possibilidade de uma moratória súbita e caótica, que combine as grandes perdas previstas de bancos europeus detentores da dívida grega com pânico geral nos mercados e forte contágio em outros países combalidos da zona do euro. Um fator de alívio é que não parece haver, no caso da dívida grega, uma miríade de derivativos tóxicos da dimensão da crise do sub-prime, que espalhou o risco de forma desconhecida e quase imensurável pelos mais inesperados recantos do globo.

Por outro lado, um novo choque global, mesmo que menos intenso que o de 2008 e 2009, pegaria as principais economias do mundo com a munição monetária e fiscal já inteiramente gasta, e com mínima capacidade de reação.

Outra discussão complexa é sobre se a eventual reestruturação será suficiente para tirar a Grécia do poço. O paralelo mais frequente da situação grega é com a Argentina dos anos finais da década de 90 até a virada de 2001 e 2002, período no qual o país passou por gravíssima crise de endividamento, perda de competitividade e contração econômica, até declarar default da sua dívida e romper a conversibilidade do peso com o dólar.

Para os mais céticos, não é suficiente que a Grécia se livre, por meio da reestruturação, do sufocante peso do serviço da sua dívida. Se não houver, como na Argentina, uma desvalorização quase simultânea – que significaria sair do euro e reintroduzir a dracma -, não há como o país recuperar a competitividade e voltar a crescer num ritmo saudável.

Alguns autores, como o economista Barry Eichengreen, consideram quase impossível uma saída do euro, tamanho é o nível de entrelaçamento, em termos financeiros, econômicos, institucionais e geopolíticos, entre os países que compartilham a moeda. Em outras palavras, a ruptura seria tão cataclísmica que, na prática, sua viabilidade política e econômica seria próxima a zero. Outros economistas, como o prêmio Nobel Paul Krugman, acham que a situação grega já é tão desesperadora que o cenário de filme-catástrofe da saída do euro seria, por comparação, palatável.

O último e, possivelmente, principal debate sobre a crise grega é o que tenta desvendar o futuro do projeto da moeda única e, em termos ainda mais amplos, o destino da Europa. Uma hipótese extrema seria a saída da Grécia do euro, o que poderia acarretar, por contágio, o abandono forçado da moeda única por outros participantes problemáticos. Nesse caso, seria possível pensar em um euro restrito, abrangendo os países do norte e do centro da Europa. Mas trata-se de um cenário tão carregado de riscos, e de potenciais desastres no meio do caminho, que qualquer tentativa de esboçá-lo soa quase como ficção científica.

Destino da Europa – Um exercício um pouco menos apocalíptico, mas nem por isso necessariamente mais correto, é o de imaginar como a zona do euro pode manter a Grécia, com ou sem reestruturação da dívida. Há um grupo de analistas que vê a crise grega como um acidente muito sério no projeto de paulatino aprofundamento da união econômico-política dos países do bloco – o acidente, porém, paradoxalmente, deve acelerar o processo, e não retardá-lo ou detê-lo.

A ideia é que a única saída para atual crise é aumentar os poderes das instâncias supranacionais do bloco do euro, forçando os membros a seguir políticas fiscais, tributárias, previdenciárias e outras emanadas do comando central. Até sobre um ministro das Finanças “europeu” já se falou.

Uma corrente contrária vê a crise grega e dos demais países periféricos como prova do fracasso do projeto de união progressivamente maior entre os países que partilham o euro. Assim, a turbulência não só teria revelado a falta de solidariedade entre eleitorados com identidades nacionais distintas, como estimulou o crescimento do voto “antieuropeu”, frequentemente associado ao fortalecimento de correntes políticas nacionalistas de extrema-direita (mas não exclusivamente).

O desenrolar da crise grega, portanto, vai revelar muitas verdades e desfazer muitas dúvidas, não só sobre o país mediterrâneo, mas também sobre a Europa e a economia global.

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