Marielle e a socialdemocracia

Comoção nacional com o assassinanto de uma líder política negra, de origem favelada, mostra que sociedade brasileira continua a demandar redistribuição e justiça - algo importante de ser registrado pelo centro liberal.

Fernando Dantas

20 Março 2018 | 23h40

A comoção nacional causada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) lembrou a alguns analistas as maciças manifestações de protesto de junho 2013. A semelhança entre os dois processos (ainda que a dimensão de 2013 tenha sido muito maior) está no seu caráter espontâneo e surpreendente, vindo diretamente das ruas e sem comando e planejamento pelas forças políticas organizadas, sejam as partidárias ou aquelas ligadas a sindicatos e diversos movimentos sociais.

As interpretações sobre 2013 variam. Há quem veja o episódio como o momento em que as ruas foram tomadas da esquerda, com o surgimento de movimentos de massa de centro e direita, como os que tiveram na base do impeachment de Dilma Rousseff. No extremo, teria sido a oportunidade para o surgimento da extrema-direita encarnada pela candidatura de Jair Bolsonaro.

Seja como for, o episódio de 2013 teve forte impacto na política nacional, e foi a partir dali que houve a implosão da popularidade da então presidente Dilma Rousseff. Mas a onda de insatisfação popular não se restringiu ao governo federal, espraiando-se também para boa parte dos governadores e especialmente para os principais partidos políticos. Pode-se dizer que foi naquele momento que começou a ser abalado o arcabouço tradicional de funcionamento da política partidária brasileira desde o plano Real: PT e PSDB disputando o governo do País e o PMDB como principal representante da massa amorfa do Congresso que está sempre no poder e é fundamental para garantir os votos no sistema de presidencialismo de coalizão.

O profundo abalo nacional com o assassinato de Marielle parece, por um lado, reforçar o diagnóstico de que o eleitorado busca personalidades novas desconectadas do jogo político tradicional. A vereadora era do PSOL, mas a emoção e a revolta despertadas pela sua morte parecem transcender a ideologia de extrema-esquerda do partido. De qualquer forma, o episódio pode ser um sinal de que a maré alta da direita nas ruas já ficou para trás.

Os assassinos de Marielle, como o restante da população do País, devem ter se surpreendido com a dimensão da reação nacional. Evidentemente, matar uma representante do Legislativo da segunda maior cidade do Brasil é o tipo de crime perversamente ousado, e os perpetradores sabiam que não se tratava de matar mais um joão-ninguém anônimo nas periferias urbanas – um tipo de crime tão disseminado no Brasil que mal vale notícia em jornal.

Ainda assim, a enorme onda de revolta nacional e internacional suscitada pelo assassinato de Marielle provavelmente não estava no radar dos criminosos que o cometeram. Trata-se, sem dúvida, de uma leitura errada do Brasil atual: a de que o custo de matar uma mulher negra de origem favelada é necessariamente menor do que o de assassinar algum membro da elite socioeconômica majoritariamente branca.

Pelo contrário, é exatamente pelo caráter simbólico que a morte de Marielle teve tanta repercussão. E isso manda uma mensagem direta para o sistema político. A sociedade brasileira continua sequiosa por reparar a gigantesca dívida social acumulada em quinhentos anos de história.

Essa preferência do eleitorado por redistribuir renda, direitos e dignidade, como há alguns anos vem notando alguns analistas, deu a tônica da política e da economia desde a redemocratização. O Brasil montou um Estado de Bem Estar social nos trópicos com méritos, como maciças transferências de renda pelo Estado, mas também com inúmeros defeitos: por onde passou o pobre também passou o lobista do rico garantindo subsídios e privilégios (e contribuindo para levar à atual crise fiscal); e para, além do consumo proporcionado pelo aumento da renda e do boom de crédito da década passada, o pobre continuou um cidadão de segunda classe em termos de educação, saúde, saneamento, transporte urbano, segurança, etc.

Agora, está claro que esse “contrato social da redemocratização” tem que ser redesenhado, porque a dinâmica de crescimento do gasto público sistematicamente acima do PIB das últimas décadas simplesmente inviabilizou o desenvolvimento econômico – e, por conseguinte, social – do Brasil.

O que a reação ao assassinato de Marielle mostra é que o sistema político não deveria vender esse necessário ajuste econômico como uma necessidade tecnocrática. As chagas sociais brasileiras estão latejando, a sociedade (com exceção da minoria fascista que prefere atacar a vereadora morta e não os seus assassinos) está sensível a isso e mesmo o discurso meritocrático da direita civilizada tem claros limites num país ainda às voltas com injustiças tão escandalosas. A pauta do ajuste econômico deve servir ao objetivo de recolocar em construção o Estado de Bem Estar Social, e não o de combatê-lo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/3/18, segunda-feira.