Marina agora tem de mostrar que pode governar

Eduardo Campos, se vencesse, já teria grandes complicações para formar base política. Com Marina, problema é ainda maior.

Fernando Dantas

21 de agosto de 2014 | 12h36

O grande desafio eleitoral de Marina Silva é o de mostrar que tem condições de governar o Brasil. A candidata reúne qualidades óbvias para o posto presidencial: história de vida, carisma, caráter, liderança, mensagem de mudança, etc. Mas a forma súbita e trágica pela qual veio a se tornar a cabeça de chapa socialista acentua ainda mais as fragilidades políticas que já acometeriam o candidato Eduardo Campos, caso não tivesse falecido e vencesse as eleições.

Como notou o cientista político Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), em artigo recente sobre uma hipotética vitória de Eduardo Campos, seria vital que o governo socialista recebesse o apoio do PSDB – entre outros motivos pela declarada disposição do ex-governador de Pernambuco de não fazer aliança com as forças fisiológicas tradicionais do Congresso Nacional, de boa parte do PMDB ao que Amorim chama de partidos da “direita varejista”.

Só que, para o cientista político, o PSDB não bastaria, e Campos deveria buscar também a cooperação do PT para conseguir uma maioria parlamentar no sistema brasileiro de “presidencialismo de coalizão”.

Para Amorim, um cenário pessimista – mas que este colunista considera mais realista – é que o hipotético governo Campos não conseguisse atrair simultaneamente os dois adversários históricos, PT e PSDB, para a sua base. Neste caso, escreveu o pesquisador, “o presidente socialista se encontrará, muito provavelmente, à frente de um Executivo minoritário”. Isso iria na contramão de todo o ideário de pensar a longo prazo da candidatura socialista pois, como diz Amorim, “uma regra de ouro da democracia reza que governos politicamente frágeis tendem a ser imediatistas em termos de ação econômica”.

Tudo o que foi dito em relação ao governo Campos parece se aplicar também a um eventual governo de Marina Silva, com agravantes. Poderia Marina, por exemplo, com sua imagem de integridade política ainda mais emblemática do que a de Campos, voltar atrás na promessa do falecido candidato de não pactuar com as forças fisiológicas do Congresso Nacional? Parece muito difícil.

Assim, Marina também se veria diante do dilema de buscar a adesão do PSDB, do PT ou dos dois. No caso dos petistas, a manobra seria dificultada por um provável segundo turno contra a presidente Dilma Rousseff que, caso ocorra, tem tudo para ser uma briga extremada.

Fica claro, portanto, que a costura de uma base política por Marina Silva, caso chegue à presidência, não será nada trivial.

Mas a candidata tem problemas adicionais de demonstrar suas condições de governabilidade, quando comparada com Campos. Enquanto este foi um governador vitorioso de dois mandatos em Pernambuco, tão bem sucedido que sua experiência administrativa galgou-o a candidato à presidência, Marina criou uma reputação de paralisar o andamento de processos na sua passagem pelo ministério do Meio Ambiente.

Ontem (20/8), de forma esperta, o ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, filiado ao PT, comentou na sua conta do Twitter: “Não desqualifiquem Marina. Critiquem. Em cinco anos (como ministra) ela não emplacou a Lei do Clima, lei de Resíduos, Santuário de Baleias. Em dois anos as aprovamos”.

Numa subsequente série de “Tweets”, Minc criticou a ex-ministra pelo aumento do desmatamento na Amazônia, por não tratar de lixo, esgoto, diesel e saúde do trabalhador, e por não implantar parques naturais por ela criados.

Sejam justas ou injustas, as críticas de Minc refletem uma visão de Marina como uma pessoa mais ligada a princípios do que a resultados práticos.

Todas essas questões deverão ser levantadas e revolvidas pelos seus adversários de campanha, caso ela se consolide como uma das favoritas. A caminhada de Marina até uma eventual vitória nas eleições de 2014 deve ser mais árdua do que parece quando se analisa de forma muito restrita a primeira pesquisa de intenção de votos após o falecimento de Eduardo Campos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/8/14, quarta-feira.

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