Mas o que mesmo o sucesso do modelo chinês nos ensina?

Reformas pró-mercado de Deng Xiaoping que fizeram decolar milagre chinês foram saudadas como prova da superioridade do capitalismo, mas mais recentemente grande presença do Estado chinês na economia é vista como argumento contra receituário liberal.

Fernando Dantas

13 de outubro de 2021 | 11h04

O sucesso econômico da China nos últimos quarenta anos de início reforçou o capitalismo liberal, mas de uns tempos para cá contribui para lançar dúvidas sobre o sistema econômico mais associado ao ocidente capitalista.

Quando Deng Xiaoping lançou reformas pró-economia de mercado na China no final dos anos 70, e levou o país a decolar para altíssimas taxas sustentáveis de crescimento econômico, isso foi visto como mais um prego no caixão do comunismo, junto com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética e da Cortina de Ferro.

Mas à medida que a China ia encaixando uma década atrás da outra de fenomenal desenvolvimento, e ia se estabelecendo em setores de altíssima tecnologia antes reservados a poucos países ricos, muitos analistas começaram a salientar que, a despeito da economia de mercado, o papel do Estado continuava muito forte no gigante asiático.

A China controla câmbio e juros de forma nada liberal, tem um número enorme de estatais e bancos públicos, faz uma política industrial maciça e subsidia pesadamente setores considerados estratégicos pela burocracia comunista.

Nos últimos tempos, as coisas pioraram para a narrativa de que o milagre chinês reforça as vantagens do capitalismo.

Já há alguns anos, sob o governo de Xi Jinping, a interferência e o controle das atividades das empresas privadas pelo Partido Comunista Chinês (PCC) têm avançado.

Não se impede que empresários e executivos busquem o lucro com o tipo de gestão encontrado no setor privado de qualquer país capitalista, mas o olho do governo permanece firme na cobrança de alinhamento com os objetivos do poder político hegemônico.

Mais recentemente, o governo chinês, preocupado com a crescente desigualdade e com a excessiva glamourização dos superempresários do país, como Jack Ma, do grupo Alibaba, partiu para uma campanha de corretivos públicos em magnatas – que, como em qualquer país, tende a ser de agrado das massas.

Os métodos usados para pôr o cabresto nos superricos variam de manifestações de desagrado via fontes oficiais ou quase oficiais, como muitos veículos da mídia chinesa, até interferência direta nos negócios.

No caso de Ma, foram aplicados um voto compulsório de silêncio por vários meses (chegou-se a temer que o empresário estivesse “desaparecido”), uma multa ao Alibaba equivalente a US$ 2,8 bilhões por práticas monopolísticas e ações que levaram o grupo a abortar na última hora a abertura de capital da afiliada Ant Financial.

Agora, o governo chinês vem “dando uma dura” regulatória em plataformas chinesas de internet, voltadas a serviços como entrega de comida, comércio eletrônico, fintech, jogos e educação.

Alguns analistas ocidentais consideram que a linha geral de muitas dessas intervenções chinesas no mundo dos aplicativos está correta em termos de proteção da privacidade e de segurança de dados pessoais dos usuários.

Numa ditadura, porém, é muito mais fácil e rápido para o governo promover ações desse tipo, comparado com as democracias, nas quais as empresas têm uma repleta caixa de ferramentas para se defender, como lobistas, advogados, financiamento de campanhas políticas e o próprio Estado de Direito que limita o poder arbitrário do governo.

Em trecho de entrevista a um jornalista australiano há alguns anos, (compartilhado no YouTube recentemente pelo economista André Roncaglia) o cientista político e empresário chinês Eric Li, fundador do site popular de notícias Guancha.cn, declarou que “a China é uma economia de mercado, mas não é um país capitalista”.

A razão, continuou Li, é que na China, ao contrário dos Estados Unidos e outros países ocidentais (na visão dele, é claro), a economia de mercado é vibrante, mas não existe nenhuma forma de os capitalistas imporem a sua agenda estreita de interesses ao poder político do PCC, em tese voltado ao bem comum da sociedade.

É muito duvidoso, porém, mesmo levando em conta todos os acertos na gestão do milagre econômico das últimas décadas, que o Estado ditatorial chinês seja uma entidade moral superior capaz de arbitrar com perfeição, para sempre, todos os conflitos econômicos, sociais e políticos de uma sociedade complexa.

E as democracias no mundo atual, apesar de enfrentarem uma fase problemática de ascensão do populismo, tampouco podem ser vistas como total e definitivamente transformadas em plutocracias.

Alguns dos países mais “bem resolvidos” da atualidade, como os escandinavos, combinam padrão material de vida extremamente elevado, baixa desigualdade e total liberdade política e pessoal dos cidadãos – um mix do qual a China ainda está distante.

Os chineses, aliás, não precisam ir muito longe para perceber que o capitalismo democrático tão cedo não será superado como modelo pelo sistema político-econômico da China continental.

Um estudo de 2020 dos economistas Branko Milanovic e Marco Ranaldi – que analisou diversos países – mostrou que Taiwan, mais rica que a China, também é menos desigual em renda e menos “dividida em classes”. Esta última expressão significa que, na China, os pobres dependem mais da renda do trabalho e os ricos auferem maior porção da sua renda do capital do que na Taiwan capitalista.

No final das contas, o PCC talvez tenha mesmo do que se preocupar com os excessos dos capitalistas chineses.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/10/2021, segunda-feira.