Mas vai ter ou não recessão nos EUA?

Índices antecedentes do Conference Board, reputada instituição empresarial e de índices econômicos, ainda não apontam recessão americana prevista por alguns importantes economistas.

Fernando Dantas

25 de abril de 2022 | 23h50

Saber se os Estados Unidos entrarão ou não em recessão como consequência do atual ciclo de alta dos juros para controlar a inflação explosiva (para padrões do mundo avançado) é uma das grandes questões econômicas da atual conjuntura global.

Em recente artigo no site econômico Vox, os economistas Alex Domash e Lawrence Summers (prestigiado ex-secretário do Tesouro americano) – a mesma dupla que, em trabalho recente, abordado pela coluna, inferiu que o mercado de trabalho norte-americano está extremamente aquecido –  escreveram que o baixo nível de desemprego e a alta inflação hoje nos Estados Unidos são ambos fortes preditores de recessões futuras.

Dessa forma, eles concluem, “a probabilidade de o Fed [BC dos EUA] conseguir fazer um pouso suave [desinflação sem recessão] na economia parece baixa”.

Os dois economistas analisam dados trimestrais desde 1950 para calcular a probabilidade de recessão num horizonte de 12 a 14 meses, de acordo com diferentes níveis de inflação e desemprego.

É com base nesse exercício que apontam que a inflação corrente de quase 8% e o desemprego abaixo de 4% sugerem, de acordo com a evidência histórica, que há “uma probabilidade muito substancial de recessão no período entre os próximos 12 e 14 meses”.

Uma visão diferente é apresentada em recente artigo de Dana Peterson e Ataman Ozyildirim, ambos do Conference Board (organização empresarial e de pesquisa econômica de renome mundial), respectivamente economista-chefe e diretor sênior de Economia da instituição.

Ozyildirim é especialista no desenvolvimento de indicadores econômicos e em projeções em base agregada da atividade econômica em termos globais.

Usando a conhecida metáfora do “canário na mina de carvão” (a ave, mais sensível a gases que o ser humano, morre antes que seja perceptível aos sentidos humanos uma vazamento de gás), e se referindo à economia americana, os dois economistas escrevem que “o canário do Conference Board na mina de carvão ainda está cantando”.

Isto é, por enquanto a previsão é de que a economia dos Estados Unidos vai crescer acima do seu potencial (de aproximadamente 1,7% ao ano, segundo os economistas) tanto em 2022 quanto em 2023.

Mas isso não significa um cenário totalmente róseo. Eles frisam que há riscos relevantes para a consecução daquele cenário, e recentemente o Conference Board rebaixou suas previsões de crescimento americano para 2022 e 2023.

A análise dos pesquisadores do Conference Board se inicia com o fato de que houve recentemente inversão na curva de juros, o que historicamente sinaliza o fim de bons tempos econômicos.

Entre o final de março e início de abril, a rentabilidade do título do Tesouro dos EUA de dois anos ficou acima daquela do papel de dez anos. Mas eles acrescentam que aquela inversão não ocorreu no caso dos Fed Funds (taxa básica dos EUA, de curtíssimo prazo) e o título de dez anos.

Peterson e Ozyildirim frisam que esse segundo spread é um componente do “The Conference Board Leading Economic Index” (LEI, o indicador antecedente) – no caso, dos Estados Unidos.

Em seguida, os economistas escrevem que, mesmo com a guerra na Ucrânia e o aperto monetário nos Estados Unidos, os indicadores antecedentes do Conference Board continuam a sinalizar crescimento positivo na economia americana nos próximos seis a nove meses, possivelmente entrando em 2023.

Eles chamam a atenção em particular para o Leading Credit Index (LCI), uma medida ampla das condições de crédito e subcomponente do LEI, cujo comportamento não indica recessão nos Estados Unidos.

Na verdade, prosseguem os economistas, o LEI, que tem dez componentes, está subindo moderadamente, o que costuma sinalizar crescimento saudável.

Em média, desde 1959, quando foi pela primeira vez calculado, o LEI começou a cair (após um pico) onze meses antes do início de recessões. O LEI iniciou a queda pós-pico precisamente 11 meses antes da recessão de março de 2001 (estouro da bolha dot.com), e 21 meses antes de dezembro de 2007, que é considerada a data inicial da recessão associada à grande crise financeira global.

Com base no LEI, o Conference Board projeta crescimento de 3% nos Estados Unidos este ano, com expansão de 1,7% no último trimestre, ante igual período de 2021.

Os autores chamam atenção do mercado de trabalho robusto e, quanto aos consumidores, apesar do nervosismo, não há excesso de pessimismo. A indústria manufatureira e a construção se mostram resilientes, mas há o fantasma do aperto monetário pelo Fed.

Um dos riscos apontados pelo Conference Board é justamente que o aperto do Fed – eles citam expectativa de que os Fed Funds, hoje em 0,25%-0,5%, fechem em 2% este ano e em 3% em 2023, junto com a redução do balanço do banco central, que enxuga liquidez da economia – seja mal calibrado e jogue a economia em recessão.

Outro risco são os embargos e desabastecimento de produtos na economia global na esteira da guerra da Ucrânia, que já deu mostras de que não terá fim rápido.

Os economistas ressalvam que o LEI não é muito bom em captar efeitos imediatos de choques econômicos. Porém, alguns de seus componentes, como preços de ações e rentabilidade de títulos do Tesouro medem melhor a direção do vento no momento dos choques.

Eles colocam ênfase particular na importância do LCI, que é relativamente novo dentro do LEI (desde 2012). Comparativamente aos ‘índices de condições financeiras’ em geral, prosseguem, o LCI funciona particularmente bem para indicar os pontos mais altos e mais baixos dos ciclos econômicos. A razão é o foco nas mudanças das condições de crédito das empresas que fazem investimentos.

A boa notícia, portanto, é que o LCI em março de 2022 “estava firmemente plantado em território expansionistas, ainda que alguns outros indicadores financeiros (p.ex., preços de ações, alguns tipos de spread) sinalizassem problema no horizonte”.

A mensagem final de Peterson e Ozyildirim para os investidores é a de ficarem de olho no LCI como “canário da mina”. Os riscos, com condições de crédito pioradas, são maior retração dos consumidores e menos investimentos das empresas. Se a “morte do canário” se combinar com piora de outros componentes do LEI, é bom se preparar para o pior.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/4/2022, segunda-feira.