Mau humor chegou ao mercado

Presidente Jair Bolsonaro perdeu rapidamente popularidade e agora parece estar perdendo confiança do mercado também.

Fernando Dantas

17 de abril de 2019 | 18h17

A pesquisa recente do Datafolha sobre a popularidade presidencial mostrou que o presidente Jair Bolsonaro está perdendo muito rapidamente a componente do seu capital político ligada ao eleitorado – a mais importante.

Mas a evolução recente das cotações dos principais ativos financeiros demostra que o capital político também está sendo corroído no front do mercado financeiro.

Traders, analistas e banqueiros são uma proporção ínfima do eleitorado, mas isto não quer dizer que estar de bem com o mercado não tenha importância política para um presidente. Dólar, juros de mercado e bolsa impactam o otimismo de investidores e até de consumidores. Além disso, criam (ou não) as condições para a economia sair do marasmo, o que afeta o eleitorado como um todo.

É difícil, porém, desembaraçar o que é componente doméstico da piora dos mercados – e que, em parte, poderia ser atribuído a erros do governo – e aquilo que vem de fora, e não é culpa de Bolsonaro (não que o eleitorado se importe com isso, mas identificar onde a atual administração do País pode melhorar ou não o seu jogo é relevante).

Livio Ribeiro, economista do Ibre/FGV, vem se especializando (é apenas um dos seus muitos focos) justamente em destrinchar o que é interno e o que é externo nas variações do câmbio e do risco Brasil, e inclusive desenvolveu um modelo para isso.

Segundo Ribeiro, “durante fevereiro ainda estava meio a meio, mas a partir de março o componente doméstico ganhou proeminência”. Ele acrescenta que “o comportamento do CDS (brasileiro) parece estar descolando dos grandes fundamentos globais, com a questão política interna ‘pegando’ de maneira geral”.

O CDS de cinco anos (Ribeiro usa o de dez no modelo) chegou a um mínimo de 150,35 pontos base em 19 de março, subiu até um pico de 185,22 em 28 de março, e ontem foi cotado a 168,69.

Não há nenhum mistério nas razões pelas quais o ambiente interno vem tirando ânimo dos ativos brasileiros, que tiveram um firme impulso inicial com a eleição de Bolsonaro e a nomeação de Paulo Guedes para o Ministério da Economia.

A primeira é que a recuperação econômica só faz desapontar. Parte considerável das projeções de crescimento em 2019 já caminham para 1,5%, ou até menos.

A segunda razão é a recusa de Bolsonaro em fazer política para passar sua agenda no Congresso.

Ganhou tração nas redes sociais, nas últimas semanas, uma emblemática tirinha do cartunista paulista Pietro Soldi, composta de três quadrinhos. No primeiro, um casal aproxima-se de uma mesa sobre a qual estão bule e xícaras de café, e ao lado da qual está um jumento vendado. O homem anuncia que o animal vai servi-los. No segundo quadrinho, o jumento vendado, como era de se esperar, manda a mesa e a louça para os ares com um coice. No terceiro quadrinho, com a mesa tombada e cacos e café espalhados por todos os cantos, o homem interpela a companheira: “Aposto que você torceu contra, né, Alice”?

A tira sintetiza – não se está dizendo que necessariamente esta era a intenção original do autor – a visão de que o governo Bolsonaro está fazendo tudo absolutamente errado em termos de estratégia política, mas ainda assim seus adeptos e correligionários não só mantêm a fé de que tudo dará certo no final, como acusam os críticos de má vontade e de torcer contra.

Um alerta: meu uso da metáfora se refere exclusivamente à forma muito equivocada de atuação política do governo como um todo, e não a qualquer ataque de mau gosto à figura presidencial.

À alegoria do jumento vendado se contrapõe a ideia de que a eleição de Bolsonaro mudou completamente a forma de se fazer política no Brasil, e não se pode projetar o sucesso da sua “estratégia” (as aspas expressam a dúvida sobre se há alguma) com base nos ditames da velha política.

A piora do componente doméstico dos ativos brasileiros nas últimas semanas mostra que o mercado pode estar gradativamente despertando do sonho da “nova era” para a realidade do jumento vendado.

O protagonismo do Centrão e do próprio PSL em complicar a aprovação da reforma da Previdência na CCJ (o que, nos tempos da “velha política”, seria considerado barbada) e lutar por aumentos reais do salário mínimo reforçam a tomada de consciência do mercado descrita acima. O mesmo pode se dizer do episódio da Petrobrás e do preço do diesel, mesmo que o desfecho não tenha sido tão desastroso.

“O mercado estava muito comprado no Paulo Guedes, e agora está ajustando esta posição”, resume Alexandre Pavan Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/9/19, quarta-feira.

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