Medindo a incerteza

Está aumentando a relevância dos índices de incerteza econômica, um conceito que se diferencia do risco, e cuja medição utiliza, entre outras coisas, textos da mídia impressa e online. No Brasil, os indicadores mostram quase um pico de incerteza no presente. Este é um ramo de pesquisa relativamente novo, e economistas brasileiros já vêm se dedicando ao assunto.

Fernando Dantas

17 de fevereiro de 2017 | 18h52

Os indicadores de incerteza estão ganhando relevância para analistas da conjuntura econômica. Como explica o economista Ricardo de Menezes Barbosa, do BNDES, que vem trabalhando no tema junto com Eduardo Zilberman, da PUC-Rio, a incerteza é um conceito diferente de risco. A incerteza “diz respeito à incapacidade das pessoas de enxergar futuros possíveis”, conforme a compreensão de teóricos que se debruçaram sobre o assunto no passado e mais recentemente.

Assim, de forma simplificada, o risco estaria associado a um quadro de probabilidades de diferentes cenários que se consegue mapear, enquanto a incerteza se refere justamente à impossibilidade de mapear de forma coerente os cenários futuros.

Barbosa e Zilberman elaboraram índices de incerteza econômica para o Brasil, tanto para a que tem origem doméstica quanto para a que vem do mundo externo. A incerteza doméstica (medida por médias móveis de 12 meses) está nos níveis mais altos da série iniciada em 2000, superando, portanto, o patamar máximo atingido em 2002, ano de eleição de Lula, da disparada do dólar e de temores de calote; e o pico durante a crise global de 2008 e 2009.

Em mais detalhe, o pico histórico do índice de incerteza econômica doméstica dos dois pesquisadores ocorre durante 2016, mas já há um recuo ao final do ano passado, quando se encerra a série (mas ainda assim mantendo-se acima dos níveis do passado até 2000).

Barbosa aponta que, externamente, vivem-se também tempos de grande incerteza. No caso do Reino Unido, o índice de incerteza de políticas econômicas – que tem entre seus formuladores e gestores o economista Nick Bloom, uma das principais autoridades mundiais nesta área de pesquisa – disparou depois do referendo a favor do Brexit no ano passado, e hoje se situa de longe no seu maior nível desde 2004. Evidentemente, a eleição de Donald Trump é outro fator que fez aumentar fortemente os índices de incerteza não só nos Estados Unidos, mas em diversos pontos da economia global.

Barbosa e Zilberman construíram uma proxy para capturar as incertezas que afetam o Brasil provenientes da economia global, usando parcialmente índices de incerteza de alguns dos principais parceiros comerciais do País.

Um elemento de todos os índices de incerteza, que foge bastante dos tradicionais indicadores usados por economistas, é a incidência de determinadas palavras e expressões chaves no noticiário da mídia.

No caso do índice desenvolvido pelo pesquisador Pedro Guilherme, do Ibre-FGV, e sua equipe, 70% do indicador provém da detecção de termos de incerteza – como a própria palavra, ou ‘crise’, ‘instabilidade’, etc –, associados a termos econômicos, numa maciça base de notícias organizada a partir de edições online, impressas e do Twitter de um grupo relevante de publicações da imprensa brasileira.  No restante do índice do Ibre, 20% vem do nível de variação de previsões de mercado sobre câmbio e inflação, e 10% provém da volatilidade do índice Ibovespa.  O índice do Ibre, aliás, também confirma os altos níveis atuais de incerteza no Brasil.

As pesquisas sobre incerteza estão avançando. No Brasil, Barbosa e Zilberman fizeram exercícios que confirmam as evidências teóricas e as empíricas em outras partes do mundo de que a incerteza freia a atividade econômica. Eles estimaram que, se não houvesse o aumento da incerteza doméstica no segundo semestre de 2014, a produção industrial em 2015 teria sido entre 0,9% e 3,9% maior, dependendo da abordagem utilizada. Os dois, entretanto, também investigando o caso brasileiro, não encontraram evidências de que a incerteza reduz o impacto da política monetária – esta é uma hipótese investigada externamente, com resultados dúbios.

Já Bráulio Borges, economista-chefe da LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, fez exercícios que indicam que a dispersão das previsões de analistas é um componente que não acrescenta informação relevante aos índices de incerteza, por ser endógeno em relação aos componentes da mídia e da volatilidade do mercado. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/2/17, terça-feira.

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