Medo de recessão

Com a inflação americana ainda nas alturas (e elevada também na Europa e vários emergentes), a perspectiva de aceleração do aperto monetário dos BCs traz o temor da recessão. Na China, a dificuldade não é inflação, mas há muitos problemas.

Fernando Dantas

12 de maio de 2022 | 12h07

Com a inflação americana – e, em menor escala, de outras partes do mundo avançado, para nem falar do emergente – ainda longe de estar domada, surgem de novo inquietações sobre o risco de recessão.

No Reino Unido, o próprio Bank of England (banco central) já mencionou o risco de recessão, enquanto nos Estados Unidos a possibilidade – como consequência do ciclo de aperto monetário para conter a altíssima inflação – assusta os mercados.

Ontem [terça-feira, 10/5], foi divulgado pelo Ibre-FGV que os Barômetros Globais (produzidos mensalmente pelo think-tank em parceria com o KOF Swiss Economic Institute) recuaram pelo segundo mês consecutivo. Os Barômetros são um conjunto de indicadores antecedentes e coincidentes de atividade econômica global, a partir de pesquisas de tendência econômica em mais de 50 países.

O Barômetro Econômico Global Coincidente e o Barômetro Econômico Global Antecedente recuaram em maio para os menores níveis desde, respectivamente, outubro de 2021 e julho de 2020. Segundo Paulo Picchetti, pesquisador do Ibre, o recuo da ilusão de que a atual alta inflacionária era temporária levou à reação mais enérgica das autoridades monetárias nas principais economias do mundo, com impacto negativo nos Barômetros Globais.

Paralelamente, as condições financeiras globais medidas pelo importante índice do Goldman Sachs chegaram ao nível mais apertado desde maio de 2009, ainda em pleno impacto da grande crise financeira global.

Já Robin Brooks, economista chefe do Institute of International Finance (IIF), think-tank econômico em Washington DC, aponta que a projeção de crescimento global do IIF para 2022 é de 2,2%, bem abaixo do consenso de mercado e da previsão do FMI, ambos de 3,6%.

A projeção do IIF está ligeiramente abaixo do carregamento estatístico do crescimento da economia global de 2021 para 2022, de 2,3% – o que significa que na prática o PIB do mundo vai ficar em média parado este ano, em relação ao final de 2021.

As projeções do IIF também são bem pessimistas para o crescimento dos Estados Unidos (1,8%, ante 3,1% do consenso) e China (3,5%, o consenso é 4,9%) em 2022. Já no caso do Brasil, em consonância com o movimento de revisões para cima que vem ocorrendo, o IIF tem 1,3% de crescimento este ano, ante 0,6% do consenso (Bloomberg) e 0,8% do FMI.

Na zona do euro, a projeção do IIF de crescimento em 2022 é de 1% (3,1%, consenso; e 2,8%, FMI), ficando abaixo do carregamento estatístico de 1,9%, o que Brooks já vê como recessão.

Em postagem hoje no Twitter, o economista escreveu que “estamos à beira de uma recessão global”.

Finalmente, narrativas que vêm se disseminando sobre a gravidade dos problemas político-econômicos da China – sejam verdadeiras ou não – também contribuem para alimentar o pessimismo global.

Um artigo de Kevin Rudd, ex-primeiro ministro da Austrália, publicado ontem pelo Wall Street, é um bom exemplo desses temores.

Segundo o autor, Xi Jinping, presidente chinês, está enrascado em 2022 – ano em que está prevista a sua nomeação para um novo mandato – por quatro fatores: a crise imobiliária que vem se revelando pior do que se pensava desde o colapso da Evergrande, megaempresa do setor, no ano passado; o ataque de Xi ao setor de tecnologia, que fez as dez maiores empresas do segmento perderem mais de US$ 2 trilhões em preço de mercado; a invasão da Ucrânia que elevou o preço de energia e commodities e piorou os gargalos de oferta, péssima notícia para o país que é o maior produtor industrial do mundo; e a estratégia de Covid zero, que já levou a algum tipo de quarentena 373 milhões de chineses em 45 cidades desde abril.

Para Rudd, a meta oficial de crescimento de 5,5% este ano parece cada vez mais irrealista, e não alcançá-la será desastroso para Xi. O problema mais profundo, porém, é a preferência ideológica do presidente chinês pelo setor estatal, em detrimento do privado. Os estímulos fiscais e monetários que vêm sendo anunciados, na visão do ex-primeiro-ministro australiano, não vão resolver o problema de confiança do setor privado, o que tolhe – entre outros fatores – a capacidade de crescimento chinês à frente.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/5/2022, quarta-feira.