Medo exagerado da desaceleração global?

Corrente mais pessimista nos mercados internacionais vê "japanização da Europa" com risco de contaminar os Estados Unidos. Outros analistas acham que temor de nova e aguda desaceleração global pode ser exagerado.

Fernando Dantas

17 de outubro de 2014 | 19h35

Os mercados globais viveram esta semana momentos de grande angústia ante a possibilidade de uma forte desaceleração global. Na visão dos mais pessimistas, o mundo rico está seriamente ameaçado pelo tipo de estagnação deflacionária que derrubou a economia japonesa a partir do estouro da bolha nipônica na virada dos anos 80 para os 90. O estopim recente, é claro, teria sido a grande crise global de 2008 e 2009.

Nessa narrativa, a zona do euro já teria caído na armadilha de liquidez, e estaria caminhando para a “japanização”. Os Estados Unidos, porém, junto com outros países da esfera anglo-saxã (o Reino Unido é o principal deles), se saiu melhor e ensaia uma normalização. O problema é que o empuxo da estagnação japonesa e europeia é tão forte que é bem possível que, em vez de puxar o mundo para fora da zona do perigo deflacionário, os Estados Unidos e o resto da esfera anglo-saxã podem acabar sendo tragados pela estagnação.

Um dos canais para isso é o câmbio. Com a perspectiva de subida de juros nos Estados Unidos e Reino Unido e da persistência e do aprofundamento das políticas monetárias ultra-acomodatícias na zona do euro e no Japão, o dólar e a libra esterlina valorizaram-se fortemente, o que poderia sufocar o canal externo da retomada anglo-saxã. Somem-se a isso a desaceleração chinesa e de outros emergentes e o sintoma preocupante da queda do preço do petróleo, e está desenhado o quadro de forte desaceleração global.

E há, finalmente, como pano de fundo, a nova teoria da estagnação secular, ligada principalmente aos Estados Unidos, e que vê fatores estruturais de demanda e de oferta limitando o crescimento futuro do mundo rico para níveis bem abaixo dos experimentados no período que antecedeu a grande crise global.

Existe, porém, uma corrente de analistas que acha a narrativa acima exagerada, e que vê os picos de volatilidade desta semana e a proliferação de teorias sobre a desaceleração como consequências mais de ruídos e oscilações pouco fundamentadas de sentimento do que de uma análise acurada dos fatos.

Para um respeitado economista brasileiro, que compartilha da visão cética em relação ao risco de uma aguda desaceleração global, é inegável que fatos recentes esfriaram o ânimo em relação à economia mundial. A decepção concentra-se basicamente na Europa, com dados ruins de atividade e inflação na Alemanha e na zona do euro como um todo. Há inclusive uma discussão sobre se os problemas alemães podem ser mais conjunturais, ligados a fatores como as sanções à Rússia, ou se trata-se de uma perda de fôlego mais fundamental, que certamente daria a tônica da zona do euro por um prazo mais longo.

Uma outra discussão é até que ponto os problemas europeus e japoneses impactam a economia americana, que continua a apresentar alguns bons indicadores.

É aqui que entra especificamente a questão cambial, que teve forte repercussão recentemente. Em setembro, o dólar valorizou-se expressivamente ante as principais moedas, ganhando 4,2% ante o euro. Na semana passada, o Federal Reserve (Fed, BC americano) divulgou a ata da última reunião do seu comitê de política monetária, realizada em setembro.

Como nota o economista mencionado acima, a ata tratou pela primeira vez em muito tempo do tema do crescimento mais lento do resto do mundo e da possibilidade de que afetasse, via câmbio, a recuperação americana. “O Fed olha normalmente só para os Estados Unidos, e foi como se dissesse à zona do euro e ao Japão que não ia assistir impassivelmente à valorização do dólar, e que isso poderia ser levado em conta em suas futuras decisões”. Desta forma, esse foi mais um fator a contribuir para que o mercado repensasse suas projeções sobre quando o Fed começará a elevar a taxa básica (Fed Funds).

O analista ressalva, entretanto, que o canal externo é pouco significativo para o crescimento americano, que depende muito mais do consumo das famílias do país. Estas, por sua vez, se beneficiam com comida e gasolina mais baratas, na esteira da queda do preço das commodities, o que libera poder de compra. Mas também reduz os índices cheios de inflação, dando mais força aos argumentos dos “pombos” no Fed, aqueles mais preocupados com o risco de atividade do que com o risco de inflação.

“Os pombos ganharam argumentos adicionais para defende um ajuste mais lento dos juros”, diz o economista. Ele acha que, mais do que dilatar o prazo projetado para o início de elevação dos Fed Funds, o conjunto de fatos recentes “desprecificou” as chances de antecipação da alta, que foi cogitada no início do ano. “Meados do ano que vem continua sendo uma boa aposta”, ele acrescenta.

Mas o analista vê correntes do mercado extrapolando, como a ideia de que a recuperação até agora da economia americana deveu-se basicamente aos programas de expansão quantitativa de liquidez, o que no limite levaria o Fed a se engajar numa quarta rodada.

“No médio prazo, o processo de remoção da liquidez global deve se dar de forma mais lenta, com novas iniciativas de afrouxamento quantitativo na Europa, com o Banco do Japão (BC) voltando a imprimir e com o Fed mais devagar na normalização do que se pensava no início do ano”, sintetiza o economista. Isto, para ele, abre espaço para o Brasil fazer um ajuste ordenado da economia, especialmente do desequilíbrio externo. De qualquer forma, ele acha que a direção dos ventos não mudou: o excesso de liquidez será drenado, mesmo porque o impacto das ações do Fed é bem maior do que os do BCE e do Banco do Japão.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/10/14, sexta-feira.

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