Meirelles é mesmo o cara?

Analistas econômicos e políticos dissecam o que se pode e não se pode ganhar com a "alternativa Meirelles".

Fernando Dantas

11 de novembro de 2015 | 18h59

Os rumores de que em breve Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central (BC), possa vir a substituir Joaquim Levy no Ministério da Fazenda vêm exercendo uma influência positiva nos ativos brasileiros.

Como Meirelles e Levy compartilham as mesmas crenças ideológicas e programáticas, a melhora do mercado tem mais a ver com estilo do que substância. A crença é de que o ex-presidente do BC tem mais condições de conduzir uma agenda que é basicamente a mesma.

Essa análise nubla-se um pouco pelo fato de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, patrocinador da alternativa Meirelles, defender a expansão do crédito como parte do receituário de uma “nova” política econômica. Relatos na imprensa dão conta de que Meirelles poderia implementar a terapia macroeconômica lulista.

O mercado, porém, não crê nisto, a não ser que se trate de medidas simbólicas que atendam o objetivo político de sair da agenda exclusiva do ajuste fiscal. A razão é simples. Do ponto de vista ortodoxo, uma expansão de crédito no momento teria efeitos que iriam variar do inócuo ao contraproducente. Meirelles é considerado muito inteligente para concordar em dar um tiro no pé logo na largada.

O cientista político Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV-Rio), acha que os analistas de mercado perdem tempo ao levar ao pé da letra cada declaração de Lula.

“O que o ex-presidente está fazendo, ao falar em expansão de crédito e defender Meirelles ao mesmo tempo, é a clássica manobra peronista de sinalizar a esquerda antes de virar à direita – isso faz parte da tentativa do Lula de satisfazer diferentes bases políticas simultaneamente”, avalia Amorim.

Supondo-se que Meirelles na Fazenda se ateria ao seu histórico e à sua visão de mundo, descartando o choque de crédito, resta saber se de fato ele teria condições de fazer o que Levy já não consegue.

Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, observa que o próprio fato de que Levy venha sendo sistematicamente torpedeado por notícias de sua iminente substituição enfraquece o ministro, e faz com que um eventual substituto – ainda mais com as credenciais ortodoxas de Meirelles – possa trazer alguma melhora à situação.

“Acho que do jeito que está, a saída do Levy está se tornando inevitável”, diz Ribeiro.

Amorim, por sua vez, nota que a crença de Lula pode ser a de que Meirelles tenha mais estatura política para negociar com o Congresso e no interior do próprio governo, ao mesmo tempo em que estabelece um bom relacionamento com o mercado.

Já o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, observa que “Henrique (Meirelles) é menos abrasivo que Joaquim (Levy)”, o que em teoria poderia facilitar negociações.

Uma outra visão que justificaria a melhora do mercado com os rumores sobre a alternativa Meirelles é apontada por Alexandre Póvoa, presidente e sócio fundador da gestora Canepa. Para ele, o nome de Meirelles indica que a alternativa para substituir um enfraquecido Meirelles não é heterodoxa, o que por si só já representa um alívio para o mercado.

Segundo Póvoa, se o atual ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, substituísse Meirelles, os profissionais do setor financeiro interpretariam como uma opção heterodoxa e reagiriam mal.

O economista acha que o mercado pode achar que Meirelles, por representar sangue novo, poderia conseguir “uma coisinha a mais”, mas a melhora que o nome traz tem mais a ver com reduzir as chances do “downside” do que de ampliar as do “upside”.

Ribeiro, da MCM, acrescenta à complexa equação da alternativa Meirelles a visão – que muitos acham que seduziria o ex-presidente do BC – de que ele aceitar ir para o Ministério poderia ser algo como a chegada à Fazenda de Fernando Henrique Cardoso em 1993. FH assumiu numa situação dificílima, logrou sucesso com o plano Real e pavimentou sua caminhada até a presidência.

Ribeiro avalia que, independentemente da plausibilidade de Meirelles comprar essa possibilidade e de ter um tal sucesso que a transforme em realidade, esse cenário contém efetivamente alguns dos elementos que hoje estão em falta e que explicam o nó político, fiscal e econômico.

Ele nota que um dos componentes principais da atual crise política é a ausência de um personagem político nacional que apresente um projeto crível de poder e consiga com isso catalisar apoio para as difíceis medidas que o País precisa adotar. Dilma é carta fora do baralho, Lula está desgastado e ao PSDB falta força no Congresso.

Assim, se o timing político favorecesse Meirelles logo na partida de uma eventual chegada à Fazenda – como a aprovação da DRU no início do próximo ano –, não seria impossível que uma sucessão de modestas vitórias criasse a sensação de que o País recuperou um pouco de rumo, e isso fosse atribuído ao novo ministro. Esta percepção, por sua vez, cacifaria o sonho presidencial de Meirelles, o que, por sua vez, melhoraria o ambiente político econômico com a perspectiva de um projeto crível de poder. Em suma, haveria alguma chance de que gradativamente um ciclo virtuoso substituísse o atual ciclo vicioso.

Mas Ribeiro faz questão de ressaltar que todo esse cenário “é apenas uma esperança e nada mais”.

Na outra ponta do espectro, há a visão de que, ao se alegrar com Meirelles, o mercado está se deixando levar novamente por uma maré injustificada de otimismo, semelhante a que saudou a chegada do próprio Levy ao Ministério.

“É hora de se posicionar para realizar lucros em seis dias, caso o Meirelles não aceite, ou em seis meses, caso aceite”, ironiza Schwartsman, que é bastante cético em relação à possibilidade do ex-presidente reverter a maré negativa da economia.

“Não é uma questão de ser politicamente hábil, o problema é que o governo está enfraquecido e não consegue aprovar nada – nem a oposição nem o PMDB querem entregar a CPMF para a Dilma, e preferem vê-la se desgastando”, diz o consultor.

Schwartsman critica o que chama de “sebastianismo” do mercado, isto é, a crença que um nome com ótimas credenciais chefiando a equipe econômica possa resolver os problemas do País. Para ele, a exigência de nomear toda a equipe econômica, inclusive o ministro do Planejamento e o presidente do BC – atribuída em relatos da imprensa como condição de Meirelles para aceitar um eventual convite para a Fazenda – parece tipicamente o preço altíssimo e quase inaceitável que alguém coloca em um produto ou serviço quando efetivamente não quer vendê-lo.

Sobre a animação do mercado com Meirelles, Schwartsman diz que “vimos este filme há apenas 11 meses”, referência à melhora dos ativos na onda de otimismo do início da gestão de Levy.

(fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/11/15, quarta-feira.

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