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Melhor investir na Selic

Economista Carlos Rocca tem dados que mostram a crise pela ótica das empresas.

Fernando Dantas

01 Novembro 2016 | 17h10

O economista Carlos Rocca, diretor técnico do Centro de Estudos do Instituto Ibmec (CEMEC), vem coligindo dados que dissecam um dos principais nós a travar a retomada da economia brasileira: as vulnerabilidades econômico-financeiras das empresas e o contexto financeiramente adverso para a retomada do investimento.

De 2010 até hoje, ocorreu um impressionante desabamento do lucro líquido. Com dados da Economática para empresas abertas (um grupo de 320, incluindo Petrobrás, Eletrobrás e Vale) e da publicação Maiores e Melhores da revista Exame para as fechadas (421 maiores), parte-se de um pico de lucro líquido correspondente a 5,32% do PIB em 2010 para -1,47% do PIB em 2015. Considerando-se apenas o grupo das abertas, a queda é de 3,97% do PIB em 2010 para -1,20% ao fim de 2015, com um pequeno alívio para -0,9% do PIB no segundo trimestre de 2016 (para esta última data, há apenas o resultado das abertas).

Já a alavancagem do grupo total de empresas, calculada pela relação entre dívida bruta e patrimônio líquido, praticamente duplica como proporção do PIB entre 2010 e 2015, saindo de 0,57% para 1,07%. Tomando-se a apenas as abertas, o indicador vai de 0,61% do PIB em 2010 para 1,2% em 2015, e recua para 1,06% no segundo trimestre de 2016.

Um aspecto particularmente perturbador são as trajetórias do retorno sobre capital investido (ROIC, na sigla em inglês) e do custo médio de capital de terceiros. De 2005 a 2011, o retorno sempre esteve à frente do custo do capital, mas a tendência inverteu-se em 2012 e explodiu em 2015.

Assim, em 2010 o ROIC do conjunto de empresas abertas e fechadas foi de 12,7%, contra um custo de capital de terceiros de 9%. Em 2014, os dois indicadores foram de, respectivamente, 6,6% e 10,2%. Em 2015 o custo do capital disparou para 16,7%, superando em 11,1 pontos porcentuais (pp) o ROIC de 5,6%. Se for usado o custo médio de capital, e não apenas o de terceiros, o indicador vai para 18,9% em 2016, e a diferença para o ROIC aumenta para 13,3 pp.

Rocca observa que a Selic média, descontado o imposto de renda, foi de 11,4% em 2016, o que faz com que seja em média uma decisão melhor para os capitalistas investirem em títulos do governo do que colocar recursos em empresas com ROIC médio de 5,6%. Evidentemente, não é um ambiente favorável nem à retomada da produção nem à ampliação do investimento.

A proporção de empresas no grupo com ROIC maior que o custo total de capital caiu de 45,8% em 2010 para 25,9% em 2015; com ROIC maior que o custo de capital de terceiros, de 61,6% para 29,5% nas mesmas datas; e maior que a Selic líquida de IR, de 67,8% para 40,1%.

Os números apresentados pelo CEMEC mostram ainda uma queda dos investimentos do conjunto de empresas abertas e fechadas de um pico de 10,23% do PIB em 2008 para 4,20% em 2015; já no caso do grupo de abertas, parte-se de um pico de 8,46% do PIB naquele mesmo ano para 2,97% do PIB em 2015 e 0% no segundo trimestre de 2016.

Outro dado que chama a atenção é que, apesar de o lucro líquido como proporção do PIB ter desabado desde 2010 e se tornado negativo em 2015, a distribuição de dividendos na mesma base de comparação, ainda que também tenha caído no período, manteve-se positiva no ano passado (e também no segundo trimestre de 2016, no caso das empresas abertas).

Rocca ressalva que a amostra de empresas utilizada nesses cálculos tem alguns problemas de representatividade em relação ao conjunto do setor produtivo no Brasil. Ela engloba apenas empresas grandes e a agricultura e a agroindústria estão sub-representadas. Ainda assim, o retrato que sua pesquisa faz do panorama empresarial brasileiro ajuda a explicar por que os sinais da aguardada retomada econômica têm sido tão decepcionantes. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/10/16, quarta-feira.