Mendonça ataca o pessimismo

Para Luiz Carlos Mendonça de Barros, ciclo do populismo econômico se esgotou e, com melhora da política econômica, catastrofismo se provará errado.

Fernando Dantas

19 de abril de 2015 | 19h52

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros acredita que a atual maré relativamente mais positiva dos mercados não é uma mera trégua antes da “tempestade perfeita”, mas sim uma conjuntura ligada aos fundamentos. Assim, a possibilidade de um movimento mais consistente de revalorização parcial do real, para a faixa de R$ 2,80 a R$ 2,90, e de alta da bolsa – sujeita, naturalmente, às oscilações de mercado – é possível, na sua opinião.

Na sexta-feira (17/4/15), em artigo no jornal Folha de São Paulo, ele criticou o que chama de “cenário de fim de mundo”. Resumidamente, Mendonça de Barros crê que a fase de política econômica populista está com os dias contados com o enfraquecimento do PT, que ele aposta que se transformará numa derrota consumada nas eleições municipais do próximo ano. A partir daí, o que vê como uma nova configuração do eleitorado brasileiro, em que maioria hoje aposta no avanço no mercado de trabalho e não na dependência do Estado, levaria a política econômica para a direita.

Aos 72 anos, Mendonça de Barros – com sua longa bagagem, que inclui a presidência do BNDES e o Ministério das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso – contrasta a sua visão com a da “turma do Rio” e da “geração de 40 anos”.

A “turma do Rio” são os sócios de diversas gestoras que proliferam na cidade, sendo que alguns deles com passagem pela cúpula do Banco Central. Deixando claro que é amigo de todos eles, apesar das fortes discordâncias, Mendonça de Barros diz ironicamente que “é um pessoal que gostaria de viver numa sociedade que não existe no Brasil, uma sociedade liberal, racional – eu tenho vontade de dizer para eles para se mudarem para os Estados Unidos, para ver se conseguem ganhar dinheiro lá como ganham aqui”.

Já a “geração de 40 anos” são os profissionais do mercado financeiro desta faixa etária que, para Mendonça de Barros, têm o pendor para o catastrofismo. O economista, que está se desligando da gestora Quest Investimentos, diz que uma das razões é que não tem mais “paciência” para as novas gerações.

Independentemente das estocadas e gozações com seus companheiros de profissão – ele sempre ressalta que tem grande respeito intelectual por muitos a quem critica –, Mendonça de Barros aponta para um cenário qualitativamente diferente daqueles que estão no mapa de muitos analistas.

As suas projeções contêm duas hipóteses fortes que, se corretas, de fato levarão o País numa direção muito diferente da que vem sendo imaginada por uma expressiva corrente do mercado.

A primeira hipótese é de que haverá uma mudança muito duradoura da política econômica numa direção mais liberal e ortodoxa. A razão da consistência dos novos rumos é que Mendonça de Barros a enxerga como uma opção que terá apoio crescente da maioria dos brasileiros.

A segunda hipótese é a de que a correção da política econômica colocará o Brasil de volta numa situação econômica razoável num prazo relativamente curto. O economista frisa que a atual recessão é necessária para corrigir o equilíbrio inflacionário, e crê numa inflação entre 4,5% e 5% em 2016 e no crescimento voltando a um nível entre 2,5% e 3% já a partir de 2017. Ele acha que o mercado de consumo interno, ancorado numa força de trabalho com 70% de formalização, e a recuperação da indústria sustentarão uma nova fase de investimentos e crescimentos, assim que a etapa de ajuste econômico estiver concluída.

Mendonça de Barros também é otimista em relação à economia global. Para ele, as dificuldades da China devem passar em dois a três anos, e um ritmo de crescimento menor do que no passado será compensado pelo fato de que a fatia do país na economia global agora é muito maior. O economista também considera que a valorização do dólar está fazendo a demanda americana em recuperação vazar para o resto do mundo. Isto ajuda particularmente a Europa, onde o afrouxamento quantitativo pelo Banco Central Europeu (BCE) jogou o euro para mais perto da paridade com o dólar.

Ele nota que há interesse estrangeiro no Brasil, e acha que operações como o previsto aporte de R$ 800 milhões da gestora canadense Brookfield na OAS indicam que a solução para o imbróglio causado pela Lava Jato na cadeia do petróleo e em outros setores de infraestrutura pode ser gradativamente resolvido com a entrada de atores internacionais nestes mercados. Para Mendonça de Barros, “a Petrobras fez a coisa certa e foi ouvir a Sec (Securities and Exchange Comission)”, referência ao esforço da estatal para resolver seu problema de balanço.

Em resumo, do alto da sua experiência, o economista prevê o fim do ciclo populista e o início de um novo ciclo político-econômico mais à direita, fenômeno para o qual estariam cegos “a turma do Rio” e “a geração de 40 anos”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/4/15, sexta-feira.