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E-Investidor: qual o melhor investimento para 2020?

Menor déficit, mas com menos financiamento

Livio Ribeiro, do Ibre-FGV, analisa perspectivas do setor externo brasileiro após a eclosão da pandemia.

Fernando Dantas

29 de abril de 2020 | 10h59

No contexto de forte pressão sobre o real, os efeitos da pandemia sobre a economia brasileira e global devem levar a um recuo do déficit em conta corrente este ano em relação ao que era anteriormente previsto, nas contas de Livio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV.

Isso, porém, pode não ser tão tranquilizador numa conjuntura de financiamento internacional que também piora muito em 2020, nas estimativas do economista.

As projeções de Ribeiro agora são de déficit em conta corrente de 2% do PIB (US$ 31 bilhões) em 2020 e de 2,9% (US$ 49 bilhões) em 2021.

“Assim, se as previsões estiverem corretas, nem em 2021 nós atingiremos nossa projeção anterior de déficit em conta corrente para 2020, que era de 3,2% do PIB”, ele diz.

Ribeiro faz uma ressalva sobre as enormes incertezas do cenário, que dificultam muito o exercício de projetar as variáveis do setor externo.

O seu cenário para o comércio global, por exemplo, combina projeções da OMC e do FMI. Porém, em nenhum dos casos leva-se em conta a possibilidade de uma retomada mundial em “W”, em que haja uma “segunda onda” de medidas de isolamento social (não necessariamente tão intensas quanto a primeira) em diversos países e regiões e os consequentes efeitos econômicos adversos. Ele nota que a recuperação em W é um cenário bem factível.

É difícil também prever o que acontecerá com a economia brasileira. No cenário utilizado por Ribeiro, a importante desaceleração do consumo e o colapso dos investimentos em 2020 levam um recuo de 5,7% na demanda doméstica este ano, seguido de uma retomada de 3,8% em 2021.

Ele nota que o real se desvalorizou intensamente não só ante o dólar, mas também em relação à cesta de moedas dos parceiros comerciais do Brasil.

Por outro lado, a fortíssima desvalorização das commodities em função do choque do coronavírus revelou-se menos intensa em matérias-primas particularmente importantes para a balança comercial brasileira, como soja e minério de ferro.

Ribeiro baseia-se em três fatores para fazer projeções do setor externo brasileiro. O primeiro são os termos de troca (relação entre preços de exportações e importações) que, como mencionado acima, devem piorar (porque o Brasil é importante exportador de commodities), mas não muito.

A taxa de câmbio real efetiva (em relação aos parceiros comerciais), que também já foi mencionada, ficará mais favorável este ano e também em 2021. O diferencial de crescimento entre o Brasil e o mundo (se o Brasil cresce mais, a tendência é negativa para a balança comercial) deve ser um fator de pressão sobre o déficit comercial este ano, e de redução e estabilização em 2021.

É combinando esses fatores e as premissas do modelo que Ribeiro chega a um déficit comercial de US$ 32 bilhões em 2020 e U$$ 24 bilhões em 2021.

Há algumas projeções de outros indicadores das contas correntes que merecem destaque. A remessa de juros e dividendos (que conta negativamente) cai muito em 2020, já que são precisos cada vez mais reais para remeter a mesma quantidade de dólares. De forma similar, os gastos de brasileiros em viagens internacionais despencam este ano, mas se recuperam em 2021.

Pelo lado do financiamento internacional, entretanto, a situação é mais preocupante.

A pandemia teve um efeito fortíssimo de fuga de capitais de países emergentes. Os fluxos para fora a partir dessas economias estão sendo muito maiores, por exemplo, do que durante a grande crise financeira global de 2008 e 2009.

Em março de 2020, houve um resultado mensal negativo no balanço de pagamentos (basicamente perda de reservas internacionais) de US$ 22 bilhões, pior resultado desde pelo menos janeiro de 1995, o início da série. A projeção de Ribeiro para 2020 é de um resultado negativo no balanço de pagamentos de US$ 47,5 bilhões.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/4/2020, segunda-feira.