Menos chuchu, mais pimenta

Se quiser de fato ser fiador do centro na chapa de Lula, Alckmin terá que ser menos subserviente ao petista e explicitar e defender as posições e bandeiras que gostaria de ver integradas ao plano de governo.

Fernando Dantas

10 de maio de 2022 | 11h13

O pronunciamento remoto de Geraldo Alckmin, candidato a vice-presidente da chapa de Lula, no lançamento da candidatura, despertou entusiasmo em alguns observadores centristas. Houve até comparações com o famoso discurso do falecido Mario Covas em 1989, no qual o então senador tucano e candidato a presidente pregou um “choque de capitalismo”.

A parte do discurso de Alckmin que agradou o centro liberal foi justamente o final:

“Vamos mudar também os termos do debate político. Vamos provar que não há incompatibilidade entre a prosperidade individual e uma sociedade solidária. Vamos provar que a eficiência econômica e a justiça social não são coisas opostas, não permitir que essa falsa dicotomia restrinja a política a um eterno confronto entre liberdade e igualdade. A política pode e deve ser instrumento para a promoção da igualdade sem prejuízo da liberdade. Não há democracia sem liberdade, assim como não há liberdade sem justiça, nem justiça sem igualdade.”

Belas palavras, que de fato exprimem a essência de uma visão moderna de socialdemocracia. Mas o problema é que o restante do pronunciamento de Alckmin tem muito pouco a ver com a fórmula proposta acima, que é muito mais fácil de defender do que de implementar.

O discurso do candidato a vice girou em torno de alguns pontos básicos, sendo que talvez o mais crucial deles seja o de que “sem Lula, não haverá alternância de poder no país; e sem alternância de poder, não haverá garantias para a nossa democracia”.

Alckmin emenda dizendo que “Lula é, hoje, a esperança que resta ao Brasil. Não é a primeira, a segunda nem a terceira. Ela é única via da esperança para o Brasil”.

Essas frases de efeito podem ser lidas de duas formas. A primeira é pelo prisma de forte pragmatismo eleitoral. Alckmin estaria dizendo que nenhum dos vários candidatos de terceira via tem a menor chance de derrotar Bolsonaro na prática, o que apenas pode ser feito Lula com seu cacife de popularidade e prestígio.

Se é isso que o ex-tucano quer dizer, ele nem estaria tão longe, por exemplo, de Arminio Fraga, que declarou que votará em Lula no segundo turno se a margem for apertada. A única diferença é que Alckmin já detectou que as alternativas de terceira via não têm a menor chance, enquanto Arminio ainda está dando tempo ao tempo.

Entretanto, como Alckmin entrou entusiasmadamente na chapa de Lula, é muito provável que suas declarações vão além do mero pragmatismo eleitoral. Lula, além de ser o candidato com mais capacidade de derrotar Bolsonaro, é também alguém particularmente bem capacitado para a reconstrução do País.

O problema é que Alckmin não dá nenhuma indicação sobre por que tem essa opinião. O seu discurso louva, com razão, o gesto de Lula de lhe oferecer (ao ex-tucano) o posto de candidato a vice-presidente, como – para além de “um sinal de reconciliação entre dois adversários históricos” – “um verdadeiro chamado à razão”.

Novamente, a declaração é correta e cristalina se for referência a uma pragmática estratégia eleitoral. Com Alckmin como vice, Lula supostamente tranquiliza o eleitorado de centro com medo de um governo mais radical à esquerda.

Mas em nenhum momento Alckmin se coloca como empecilho a qualquer direcionamento de um futuro governo Lula. Pelo contrário, seu discurso soa como uma sucessão de juras de “amor incondicional”, que se esperariam mais de um militante fogoso do que de um aliado de outra corrente política que se junta numa frente para defender a inclusão de suas ideias no futuro programa de governo.

Dessa forma, frases como “o caminho é com Lula”, “vamos responder com Lula” e “a solução virá com Lula” pontilham o discurso do ex-governador de São Paulo.

De forma bem humorada, Alckmin assume um apelido inicialmente pejorativo, ao dizer que “mesmo que muitos discordem da sua opinião [de Lula] de que lula é um prato que cai bem com chuchu, o que acredito venha ainda a se tornar um hit da culinária brasileira, quero lhe dizer, perante toda sociedade brasileira: muito obrigado”.

Como se sabe, o apelido de chuchu deriva da imagem de Alckmin de um político insípido, sem graça. Mas estendendo um pouco a metáfora, pode-se pensar também em alguém que não se impõe, que diz obrigado sem ter nada do que realmente se sentir agradecido.

Se quiser de fato ser o fiador da confiança centrista na chapa de Lula, o ex-governador de São Paulo deveria ser menos chuchu e mais pimenta, reduzir o tom de subserviência a Lula, exprimir de fato o que considera necessário incorporar à plataforma petista e explicar por que aposta que seu companheiro de chapa, como presidente, vai acatar as suas (de Alckmin) contribuições.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/5/2022, segunda-feira.