Menos desemprego, empregos piores

PNADC de outubro mostra desemprego no trimestre ago-set-out de 12,1%, abaixo da mediana das projeções de 12,3%. Mas a renda média caiu para o nível mais baixo desde o início da série, em 2012.

Fernando Dantas

28 de dezembro de 2021 | 19h05

A PNADC do trimestre até outubro (inclusive) mostrou um desemprego de 12,1%. A taxa ficou abaixo da mediana das expectativas do Projeções Broadcast, de 12,3%, e encostada no piso das previsões, de 12%.

É melhor do que se o desemprego tivesse surpreendido para cima, mas não muda a perspectiva pouco brilhante do mercado de trabalho brasileiro, atrelada ao cenário sombrio da atividade econômica.

Um dado sintetiza o mal-estar do mercado de trabalho. A renda média habitual do trabalho de R$ 2.449 na PNADC de outubro – recuo de 4,6% ante o trimestre anterior, maio-junho-julho, e de 11,1% ante o mesmo trimestre (até outubro) de 2020 – é o nível mais baixo da série histórica, iniciada em março de 2012.

“O aumento da informalidade está acabando com uma década de evolução do rendimento médio”, comenta Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, especialista em mercado de trabalho.

É claro que a alta inesperadamente alta da inflação contribuiu também para a queda do rendimento médio, junto com as condições do mercado de trabalho.

A informalidade subiu de 40,2% da PO no trimestre anterior (maio-junho-julho) para 40,7% na PNADC de outubro. Neste mesmo trimestre agosto-setembro-outubro de 2020, a informalidade ficou em 38,4%.

Não há dúvida de que a população ocupada (PO) segue em recuperação com a reabertura da economia, frisa Donato, e deve voltar ao nível pré-pandemia na PNADC de novembro ou dezembro (sempre os trimestres até aquele mês) deste ano.

Isso, porém, aponta na direção do momento em que esse movimento de recomposição terá se esgotado, sem que uma  atividade econômica minimamente dinâmica entre em campo para continuar empurrando o emprego – como nota o economista da LCA.

Assim, em 2022, com a perspectiva mediana de crescimento do PIB rumando para zero (algumas projeções já são negativas), Nonato antevê uma grande moderação na criação de vagas, acompanhada de alguma recuperação, mas muito modesta, da renda média. Suas projeções são de desemprego médio de 13,1% este ano e de 11,9% em 2022.

Bruno Ottoni, economista da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, observa que, mais no início da pandemia, havia uma grande dúvida dos especialistas em relação à prevista volta à força de trabalho do grande contingente que saiu por conta da Covid-19.

Ou haveria uma alta forte do desemprego, para patamares ainda bem mais elevados do que os atuais, ou ocorreria forte queda na qualidade do emprego. Ele nota que essa segunda hipótese é a que vem se confirmando.

Há vários sinais que confirmam esse quadro, aponta Ottoni. O mais clamoroso é o já mencionado recorde negativo do rendimento médio desde 2012.

Já o número de trabalhadores por conta própria, que atingiu 25,6 milhões em outubro, não só continua crescendo como também é recorde desde o início da série em 2012. Tanto os conta-própria sem CNPJ, a grande maioria, como os com CNPJ estão aumentando, e se encontram em níveis superiores ao pré-pandemia.

Já a subocupação por insuficiência de horas trabalhadas vem caindo desde julho, quando ficou em 7,8 milhões, mas essa queda se dá em ritmo lento e a partir de um nível muito elevado. Em outubro, o indicador foi de 7,7 milhões.

Assim, as pessoas, com a reabertura da economia e o fim do auxílio emergencial, voltam ao mercado de trabalho, mas são obrigadas a se conformar com empregos de baixa qualidade, ou a trabalhar menos horas do que o desejado, porque a retomada está lenta e fraquejando.

Como diz Nonato, da LCA, “o informal não procura emprego, ele simplesmente se reocupa”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/12/2021, terça-feira.