Menos disciplina, por favor

Alemanha é pressionada pelo resto do mundo a largar a mania de austeridade e ter déficits públicos. Seria uma forma de a economia alemã contribuir para aumentar a demanda que faz falta na economia global.

Fernando Dantas

13 de agosto de 2019 | 18h22

Com as preocupações crescentes com a desaceleração global, os principais players da economia mundial estão tentando dizer para a Alemanha que a bola está com ela: é o único grande país que tem espaço totalmente seguro para fazer um estímulo significativo, via política fiscal, que serviria no mínimo para tentar reavivar a atividade na União Europeia (UE).

A Alemanha é um caso à parte de paixão pela disciplina. Se fosse um filho, seria daquele tipo a quem os pais imploram que largue um pouco os estudos e vá se divertir.

Em 2018, a Alemanha teve o astronômico superávit em conta corrente de 7,3% do PIB, de quase US$ 300 bilhões. Saldo positivo externo significa que o país gera mais renda, da sua produção e investimentos, do que gasta. Em termos líquidos, suga demanda do mundo, ou injeta oferta, é a mesma coisa.

Como nota Armando Castelar, economista do Ibre/FGV, a demanda agregada da Alemanha tem um enorme componente externo, especialmente na forma da maciça exportação de bens industriais. Dessa forma, a desaceleração global bate com particular força na economia alemã, e especialmente na sua poderosa indústria.

Alguém poderia dizer que, de certa forma, é um feitiço virando contra o feiticeiro. A agenda de disciplina e reformas nas áreas fiscal, salarial e trabalhista na Alemanha pós-unificação rendeu frutos. No período mais recente, o país vinha num desempenho comparativo (a outras economias avançadas) muito bom, na esteira do reaquecimento mundial depois da crise financeira de 2008-2009.

“Estava funcionando, porque eles estavam conseguindo exportar”, aponta Castelar.

Porém, quando, desde 2018, a demanda doméstica começou a perder o ímpeto em outras áreas vitais da economia global, como os Estados Unidos e a China/Ásia, o modelo alemão também começou a ratear. A superdisciplina produtiva não funciona se os outros não estão comprando.

Há expectativa de que o PIB alemão do segundo trimestre, a ser divulgado amanhã, possa até ter registrado ligeiro recuo, o que seria pior do que o resultado da zona do euro. O motor da Europa agora pode ter virado freio.

Há problema específicos no importante setor automotivo alemão, com um escândalo ligado a regras de emissões de motores a diesel e também uma interrogação global sobre o futuro desta indústria.

“A China também não está bem no setor, há uma tendência estrutural de se usar menos os carros”, diz Castelar.

Por outro lado, a Alemanha tem uma regra fiscal que proíbe déficits e teve um superávit de 1,7% do PIB nas contas públicas em 2018.

Comparativamente à maior parte dos países, há um apego cultural à austeridade, e é politicamente difícil soltar as rédeas da política fiscal. Tampouco contribui nessa direção o fato de que o mercado de trabalho ainda vai bem e há certa exuberância no setor imobiliário.

Uma possível solução que vem sendo articulada, como nota o pesquisador do Ibre, é um aumento do gasto público “verde”. Os alemães também são particularmente ligados à questão ambiental, e são pioneiros na importância dos verdes na política. Há planos do governo nesse sentido, mas ainda não está claro se cogita-se flexibilizar a política fiscal que impede os déficits públicos.

Uma questão adicional é que a política monetária no mundo avançado está muito carente de munição para estimular a demanda – especialmente na Europa, onde a taxa básica está colada ao zero e já há pencas de títulos soberanos, inclusive de prazos longos, com rentabilidade negativa.

A austeridade fiscal alemã reduz a necessidade de financiamento do setor público, contraindo a oferta de títulos, o que só joga mais combustível na tendência de baixa dos rendimentos (inclusive no território negativo).

A pressão dos principais atores do establishment econômico e financeiro mundial sobre a Alemanha, para que o país relaxe a disciplina e goze um pouco mais a fartura que fez por merecer, deve se intensificar à medida que os temores de uma recessão global aumentam. Dado o histórico alemão, entretanto, vai ser um difícil trabalho de convencimento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/8/19, terça-feira.

Tendências: