Mercado à beira do ataque de nervos

Mercado financeiro, que torce pela vitória de Aécio, sofre com Datafolha que coloca Dilma à frente. No que talvez possa ser torcida ou wishful thinking (a ver no domingo, dia 26), analistas alimentam esperança de que subestimação de votos em Aécio nas últimas pesquisas do primeiro turno possa se repetir no segundo.

Fernando Dantas

22 de outubro de 2014 | 15h36

A pesquisa eleitoral da Datafolha divulgada ontem (segunda-feira, 20/10/14), em que Dilma Rousseff ultrapassou Aécio Neves em intenções de voto, mesmo que ainda dentro da margem de erro, foi um jato de água fria no mercado. A queda do Ibovespa e a alta do dólar hoje estão dentro das reações inteiramente previsíveis depois que o instituto de pesquisas divulgou seu último levantamento eleitoral.

(Nova pesquisa da Datafolha foi divulgada hoje, 22/10, quarta-feira, dia em que a coluna foi postada no blog, com resultados muito próximos da pesquisa de 20/10)

No entanto, segundo participantes do mercado ouvidos por essa coluna hoje, permanecem grandes incertezas em relação às reais chances de cada candidato. Dilma, sem dúvida nenhuma, reinstaurou-se como favorita a partir da pesquisa de ontem (levantamentos de outros institutos foram na mesma direção, mas o Datafolha tem mais credibilidade e é acompanhado com mais atenção pelo mercado). Por outro lado, proliferam análises no mercado sobre os fortes erros das pesquisas no primeiro turno, o que as tornaria guias menos seguros para o resultado final da eleição. Pode ser “wishful thinking” por parte do mercado, mas o fato é que a esperança de vitória de Aécio permanece, ainda que significativamente reduzida a partir de ontem.

Pela ótica pessimista, o grande temor é que a pesquisa de ontem tenha revelado apenas o início de uma tendência de distanciamento de Dilma em relação a Aécio. “O PT tem um histórico de demolição dos adversários, como pode ser visto no primeiro turno com Marina – o medo agora é que o mesmo esteja começando a ocorrer com Aécio, e que a diferença venha a se ampliar”, diz o sócio de uma gestora de recursos. Ele acrescenta que “João Santana (marqueteiro de Dilma) é extremamente eficiente em campanha negativa”.

Esse analista considera que o mercado não tem nenhuma vantagem comparativa em termos de prever resultados eleitorais e, portanto, fica estritamente preso a interpretar e comparar as pesquisas eleitorais à medida que vão sendo divulgadas. “Hoje o que as pesquisas dizem é que aumentaram as chances de Dilma, e é precisamente isto que está sendo refletido nos preços dos ativos”, ele acrescenta.

Por outro lado, os grandes erros das pesquisas no primeiro turno mantêm a esperança de que Aécio, visto como pró-mercado, acabe vencendo. “As pesquisas erraram muito, provavelmente por problemas de metodologia que tem de ser resolvidos e não foram”, comenta o economista-chefe de outra gestora de recursos.

Ele observa que a última pesquisa do Datafolha foi coletada em apenas um dia, ontem, que era feriado do comércio. “Não acho que é comparável com as pesquisas anteriores”, analisa o economista, notando que normalmente os levantamentos incluem dias úteis. Ele acha a diferença relevante porque as pesquisas são realizadas na rua, e, ainda que sigam procedimentos amostrais, a frequência de um dia de feriado pode ter algum viés em relação a dos dias úteis. “Não estou dizendo que seja pró-Dilma, mas apenas que não é comparável”.

Haja ou não algum grau de “torcida” nesse tipo de argumento, ele contribui para manter acesa a chama de Aécio no mercado, embora bem mais esmaecida. Outro analista acha que o fato de as últimas pesquisas – e mesmo a boca de urna – do primeiro turno terem indicado um desempenho melhor de Dilma e pior de Aécio do que o ocorrido pode indicar que há um viés antitucano nas amostras. Ele nota que a discrepância se mantém, embora menor, mesmo quando os respondentes declaram em quem de fato votaram no primeiro turno no questionário das pesquisas de segundo turno.

Um viés desse tipo poderia ser causado por inúmeras causas, como o voto facultativo do analfabeto (que tem tendência pró-Dilma e pode votar em menor proporção, o que não seria captado pela pesquisa) ou de migrantes que se declaram por um candidato na pesquisa mas não votam efetivamente.

De qualquer forma, as próximas pesquisas devem influenciar muito fortemente o ânimo do mercado. Se Dilma continuar a abrir, fica configurada uma tendência, e provavelmente a atribuição de chances de vitória da candidata da situação pode aumentar muito. Se a diferença em favor da presidente se mantiver apertada, dentro da margem de erro, ou se Aécio voltar a superar ou empatar numericamente com Dilma, o mercado retorna à visão de que tudo pode acontecer, e irá para as eleições em estado de incerteza total.

“Parte dos movimentos desta semana se explicam pela zeragem de posições, já que na segunda-feira o risco pode ser alto demais, quem sabe até algo como ganhar ou perder 2% da cota em um dia, em cima de um resultado totalmente imprevisível”, resume um participante de mercado”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 21/10/14, terça-feira.

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