Mercado dá uma trégua, mas ela é frágil

Na segunda-feira (3/11/15), Bolsa subiu 4,76% (com leve recuo hoje, 4/11). Dólar em torno de R$ 3,8 caiu bastante ante pico de R$ 4,2 em setembro. Juros futuros também estão abaixo dos picos recentes. É uma trégua, por motivos internos e externos, mas analistas alertam que é frágil enquanto não houver solução para o impasse político e fiscal.

Fernando Dantas

04 de novembro de 2015 | 16h27

Prossegue a relativa estabilização dos mercados nas últimas semanas, com o recuo do dólar e dos juros futuros em relação aos picos do final de setembro. Na segunda-feira (3/11/15), a Bolsa subiu 4,76%. Para analistas ouvidos pela coluna, a trégua deriva de uma combinação de fatores internos e externos, mas é frágil.

No mercado internacional, mais do que a ida e vida das expectativas em relação ao início da elevação dos Fed Funds, taxa básica de juros dos Estados Unidos, conta a percepção crescente de que o ajuste da política monetária norte-americana será muito lento e gradual. E, desta forma, o abalo potencial em países emergentes debilitados, como o Brasil, tenderá a ser menor do que com um processo de aperto monetário mais abrupto na economia dominante.

Em relação à China, os temores de uma desaceleração mais traumática e fora de controle também parecem hoje menores, quando comparados à perspectiva há cerca de um mês.

Internamente, na visão do economista-chefe de uma grande gestora de recursos, “o sentimento de ruptura a curto prazo no quadro político se dissipou recentemente”. Ele nota que tanto a reforma ministerial quanto o enfraquecimento político do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tornaram menos provável o impeachment a curto prazo.

“A temperatura política caiu um pouco”, diz o gestor, que preferiu falar anonimamente. Ele nota que, ainda que uma eventual interrupção do mandato da presidente Dilma Rousseff pudesse vir a ser uma solução para o atual quadro de crise política, seria um caminho com grandes riscos, e esta possibilidade estava mexendo com os nervos do mercado.

Alexandre Póvoa, presidente e sócio fundador da gestora Canepa, no Rio, observa que há um contraste entre o que chama de “fotografia” e “filme” da atual conjuntura econômica brasileira, em termos dos fatores que afetam o risco país. A fotografia não é tão ruim, especialmente quando comparada a crises do passado, como 1999, em que as reservas internacionais caíram a níveis críticos, ou 2002 e 2003, quando grande parte da dívida pública estava indexada ao dólar e à Selic, que subiam.

O problema, continua Póvoa, é que hoje “o filme é muito ruim”, isto é, há um processo longo e acentuado de deterioração da situação econômica. Com a perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s (S&P) no início de setembro, o economista acha que boa parte do mercado se deixou levar pelo “filme” e se posicionou para níveis de ruptura. Isto se refletiu no dólar acima de R$ 4 e no juro real de algumas NTN-Bs em torno de 8%.

No entanto, embora o País esteja atolado num processo recessivo longo e profundo, a aposta na ruptura – possivelmente instigada também pelo imbróglio político – talvez tenha sido exagerada, ao menos para o padrão das expectativas do momento atual.

Particularmente em relação ao dólar, Póvoa nota que “o governo não gastou um tostão das reservas, e a redução do déficit em conta corrente já está a caminho, ainda que muito pelo motivo ruim da recessão – de qualquer forma, bem ou mal, o câmbio flutuante começa a funcionar e temos que pesar um dólar a R$ 4 em relação à situação de um país que não está quebrando”.

Além disso, acrescenta, com a aproximação do fim do ano, há a sensação adicional de que o espetáculo do caos político, que mina a governabilidade, pode ser interrompido por uns meses, até o fim do Carnaval.

Mas Póvoa ressalva que a inação no campo fiscal e a perspectiva de déficit primário em torno de 1% do PIB este ano, ou até mais, podem deflagrar um downgrade com perda de grau de investimento por parte da Fitch ainda em 2015, o que poderia provocar uma nova onda de nervosismo nos mercados.

Já o gestor que conversou com a coluna em “off” pondera que a diminuição da temperatura política não significa que os problemas de governabilidade tenham sido reduzidos, o que torna a atual trégua muito frágil. “Pode ser que não haja maioria para fazer o impeachment da presidente, mas provavelmente também não há maioria para passar as medidas econômicas do governo”, ele sintetiza. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 3/11/15, terça-feira.

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