Mercado de trabalho avança

PNADC de maio mostra melhora indiscutível do mercado de trabalho, apesar de a renda salarial média ainda estar bastante baixa.

Fernando Dantas

01 de julho de 2022 | 17h59

Dessa vez não há ambiguidade. Os resultados da PNADC de maio (trimestre março-abril-maio), divulgados em 30/6, 5ª feira, foram muito bons.

Isso não quer dizer que o mercado de trabalho tenha ficado ótimo, já que a renda salarial real média ainda está muito baixa e o desemprego, mesmo caindo, é elevado. Além disso, há um aperto monetário em curso, que pode mudar a paisagem econômica um pouco mais adiante.

Feitas as ressalvas, é preciso dizer que a PNADC de maio mostra, sim, que o mercado de trabalho está melhorando. E o Caged, que registra os empregos formais, tem indicado quadro semelhante.

Começando pela taxa de desocupação (desemprego), as estimativas do Projeções Broadcast tinham como teto 10,6%, mediana de 10,2% e piso de 9,9%. O resultado veio em 9,8%, melhor que a projeção mais otimista.

Mas talvez a leitura mais eloquente da melhora é que a taxa de desocupação caiu de 14,7% na PNADC de maio de 2021 (março-abril-maio do ano passado) para os 9,8% da PNADC de maio de 2022.

Para José Márcio Camargo, economista-chefe do Banco Genial, “o resultado da PNADC foi excelente, o mercado de trabalho está bombando”.

Ele lembra que, no auge da pandemia, havia forte pessimismo e muitos previam que a taxa de desemprego só voltaria a um dígito em 2024, mas isso acaba de ocorrer em 2022.

“Estamos gerando 10 milhões de empregos por ano, há tendência de formalização, e tudo isso é muito positivo”, continua o analista.

Precisamente, o aumento da população ocupada (PO) entre a PNADC de maio de 2021 e de maio de 2022 foi de 9,4 milhões (+10,6%). Desse total, 6,3 milhões (+14,9%) foram vagas de empregados no setor privado, sendo 3,8 milhões (+12,1%) formais e 2,5 milhões (+23,6%) informais.

Em relação à PNADC de fevereiro de 2022 (dezembro-janeiro-fevereiro), houve criação de 2,3 milhões (+2,4%), de ocupações, das quais 1,9 milhão (+3%) de empregados no setor privado. Destes, 981 milhões (+2,8%) foram com carteira e 523 milhões (+4,3%) sem carteira.

Camargo tem duas explicações principais para o que considera excepcional melhora do mercado de trabalho.

A primeira é o crescimento da economia, que tem surpreendido para cima. Ele vê alta do PIB em 2022 em torno de 2%, notando que os mais pessimistas no começo do ano falavam em estagnação ou até ligeira queda.

Particularmente o setor de serviços, incluindo comércio, está criando muitas vagas, e indústria e construção civil não deixam a desejar.

O efeito no crédito do aperto da política monetária, ele ressalva, deve frear em alguma medida a construção e o consumo de bens industriais duráveis.

Porém, para Camargo, os serviços devem continuar acelerados pelo afã da população pós-pandemia de sair de casa e aproveitar restaurantes, bares, shows, viagens, turismo em geral etc.

Outro vetor de crescimento que o economista enxerga como menos afetado (o que não quer dizer imune) ao aperto monetário é o investimento.

Na interpretação do economista-chefe do Genial, aconteceram avanços muito expressivos na agenda de reformas nos últimos seis anos, que são um dos fatores no aumento da taxa de investimentos de cerca de 15,5% do PIB para as cercanias de 19,5% – e devendo ir a 20% do PIB, nível que o Brasil não tem há muito tempo, na projeção de Camargo, desde que não haja guinada forte na política econômica.

Ele exemplifica com a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, a autonomia do Banco Central, avanços no mercado de capitais e no crédito, a substituição da TJLP pela TLP no BNDES (com o fim de subsídios financeiros pouco transparentes nas operações do banco de fomento), e novos marcos regulatórios, como o do gás, entre outras medidas.

A partir dessa abordagem, Camargo chega ao segundo fator específico da melhora do mercado de trabalho (o primeiro foi a atividade surpreendendo para cima), na sua opinião: a reforma trabalhista.

Ele menciona que, pós-reforma, o número de demandas na Justiça de Trabalho se reduziu quase à metade, o que é incentivo para contratar e formalizar.

Já a liberação da terceirização levou a que cerca de ¼ dos novos trabalhadores por Conta Própria tenham registro na Receita Federal. Assim, podem ser contratados formalmente por empresas, que oferecem vagas em que serão mais produtivos do que na informalidade.

Na mesma linha de argumentação, o economista chega a um ponto que ele reconhece como polêmico e que tem a ver justamente com um aspecto do mercado do trabalho que ainda não está bem: a renda real salarial média de R$ 2.613 na PNADC de maio deste ano.

Este nível já é uma recuperação em relação ao mínimo de R$ 2.541 na PNADC de dezembro de 2021 (outubro-novembro-dezembro). Mas em relação à PNADC de fevereiro de 2022, o trimestre anterior, os R$ 2.541 significam praticamente estabilidade. E ante a PNADC de maio de 2021, representam queda de 7,2%.

Para se ter uma ideia de como os R$ 2.613 são um nível rebaixado, trata-se de um valor de renda média real do trabalho inferior ao de qualquer PNADC entre abril de 2012 e setembro de 2021.

Camargo nota, porém (e este é o ponto polêmico), que essa queda da renda média real é um sinal de que o mercado de trabalho brasileiro se tornou mais flexível – o que atribui em parte à reforma trabalhista.

Dessa forma, o ajuste está sendo feito via salário e não via desemprego, o que é positivo para ele e seria uma das explicações de por que a taxa de desocupação vem surpreendendo para baixo os analistas.

Adicionalmente, o economista aponta que a massa salarial real cresceu, na PNDAC de maio, 3,2% ante a PNADC de fevereiro e 3% ante a de maio de 2021. A sua visão é de que a queda do desemprego acaba levando à alta gradativa da renda média salarial “na margem” (ante a PNADC do trimestre anterior), o que já dá tênues sinais de estar ocorrendo desde a virada do ano.

Contraponto – O economista Bruno Imaizumi, da consultoria LCA, embora também tenha considerado a PNADC de maio positiva – a projeção de taxa de desocupação da PNADC de dezembro deste ano da LCA está em 9%, e deve ser revista para baixo –, tem uma visão mais cautelosa que Camargo.

Imaizumi concorda com a visão de que a atividade econômica, especialmente em abril e maio, surpreendeu positivamente e que esse é um vetor do bom desempenho do mercado de trabalho.

Mas o economista também menciona como causa dessa surpresa medidas nitidamente eleitorais como saque extraordinário do FGTS, antecipação de 13º salário de aposentados e pensionistas, desonerações tributária e o abrandamento da bandeira tarifária da energia elétrica (neste último caso, medida mesclando base técnica e timing político, na sua visão).

Ainda assim, ele diz, “a atividade econômica brasileira tem se mostrado mais resiliente a cenário de juros e inflação elevados”.

Imaizumi, porém, lembra que a renda média real do trabalho permanece muito baixa e, em argumento que já fez nesta coluna, afirma que “a taxa de desemprego não diz tudo”.

Ele nota que ainda há 2,8 milhões de pessoas com idade de trabalhar fora da força de trabalho a mais na comparação com o pré-pandemia (PNADC de fevereiro de 2020).

Mais gente em idade de trabalhar fora da força de trabalho reduz a taxa de desocupação, ele explica. Desocupados são os que buscam trabalho – estão na força de trabalho, portanto – e não encontram.

Uma questão importante é saber até que ponto essa saída de pessoas da força de trabalho na pandemia é transitória, duradoura ou permanente.

Analisando os microdados da PNADC, Imaizumi constatou que as mulheres voltaram menos à força de trabalho do que os homens. Uma possível causa é cuidar de crianças fora de escola (com a migração de escolas privadas para as públicas pela queda de renda, faltaram vagas nestas últimas, o que ainda pode estar retendo mulheres em casa).

Em termos etários, numa tendência que não é só brasileira, as pessoas de 60 anos ou mais retornaram menos à força de trabalho pós-pandemia do que as mais jovens. Nesse caso, podem se combinar aposentadoria precoce e medo remanescente da Covid e de suas sequelas de longo prazo.

Se a saída de pessoas da força de trabalho for mais permanente, aponta o economista, podemos vir a conviver com taxas de desocupação mais baixas do que no pré-pandemia e talvez até do que antes da crise de 2015.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/6/2022, quinta-feira.