Mercado de trabalho em queda

Indicadores de emprego e renda da PME apresentaram ligeiro alívio em março em relação aos meses muito ruins de janeiro e fevereiro. Mas especialistas apostam que piora continua.

Fernando Dantas

26 Maio 2015 | 10h45

Os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de abril, apesar do aumento do desemprego para 6,4%, acima da mediana de 6,3% dos analistas ouvidos pela AE Projeções, representam em alguns aspectos uma redução do forte ritmo de deterioração mostrado pelos números de fevereiro e março. Ainda assim, a tendência entre os analistas é de projetar um mercado de trabalho que continua a piorar ao longo do ano.

Em abril, a piora do desemprego esteve mais ligada ao crescimento da população economicamente ativa (PEA) do que à destruição de postos de trabalho. Essas duas tendências estão dando a tônica da atual deterioração. Com o enfraquecimento da economia, menos empregos são criados. E a redução da renda familiar empurra para a PEA, a força de trabalho, membros do domicílio que tinham saído ou nunca entraram.

A PEA, depois de cair expressivamente em 2013 e parte de 2014, voltou a subir. Segundo Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, o cálculo dessazonalizado da instituição indica que 300 mil pessoas voltaram à PEA da PME (que abrange as seis principais regiões metropolitanas) nos últimos 12 meses: de 24,1 milhões para 24,4 milhões.

Ainda de acordo com os números dessazonalizados pelo Safra, a PEA subiu 0,3% em abril na comparação com março, fazendo com que a taxa de participação (PEA sobre população em idade ativa, PIA) subisse de 55,6% para 55,8% – um avanço significativo para apenas um mês.

Por outro lado, na mesma base de comparação, a população ocupada (PO) teve até uma leve alta em abril, de 0,1%, que se compara a recuos de, respectivamente, 0,4% e 0,1% em fevereiro e março.

Também nos salários, quando o foco é a comparação dessazonalizada entre março e abril, registrou-se algum alívio em relação às quedas fortes dos dois meses anteriores. O rendimento nominal teve alta de 0,5% em abril, após queda de 1,3% em fevereiro e 1% em março. Em termos reais, houve alta de 0,4% em abril, contra recuo de 2,2% em fevereiro e 2,7% em março.

Os analistas são cautelosos ao interpretar esses leves sinais de abrandamento do ajuste em curso no mercado de trabalho. “É difícil extrapolar a partir de apenas um mês, mas o fato é que se os salários nominais continuassem caindo no ritmo de fevereiro e março isso levaria um ajuste mais rápido da inflação dos produtos non tradables (não negociáveis internacionalmente, basicamente serviços)”, diz Tiago Berriel, economista-chefe da gestora Pacífico.

Alessandra Ribeiro, economista da Tendências, destaca a piora em abril em relação ao mesmo mês de 2014, com queda da PO de 0,7% (171 mil pessoas) e de 2,9% na renda média real. Ela pondera que o cálculo dessazonalizado do mês contra o mês anterior pode por vezes apresentar complicações, especialmente quando se vem de um período de fortes recuos como fevereiro e março. A Tendências projeta um desemprego médio em 2015 na PME de 6,3%, com queda na renda real de 0,5%.

Kawall, por sua vez, nota que a inflação muito alta de fevereiro e março contribuiu para a queda forte da renda real, mas acrescenta que o pequeno alívio se dá num patamar muito baixo, próximo ao do início de 2013, tanto em termos do rendimento médio quanto da massa salarial. Ele prevê desemprego médio de 6% em 2015, comparado a 4,8% em 2014. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 21/5/15, quinta-feira.