Mercado de trabalho ainda de lado

Postos de trabalho aumentam, mas de má qualidade, e mal cobrem o aumento das pessoas querendo trabalhar. Causas da desaceleração do desalento (ainda muito elevado) são debatidas entre economistas.

Fernando Dantas

01 de novembro de 2019 | 10h01

O mercado de trabalho brasileiro não anima. Os resultados da PNADC de setembro (trimestre até setembro, inclusive) mostram um desemprego que está quase parando de cair (em relação ao mesmo trimestre de 2018), e muita informalidade ainda grassando na economia brasileira.

A taxa de desemprego em setembro de 2019 foi de 11,8%. Em setembro de 2018, era de 11,9%, ou seja, um recuo de apenas 0,1 ponto porcentual (pp). Essa diferença vem caindo. Em maio de 2019, o desemprego, de 12,3%, foi 0,5 pp inferior ao de maio de 2018.

No front da formalização, setembro tampouco trouxe boas notícias. Enquanto os empregos com carteira assinada cresceram apenas 0,5% na comparação com o mesmo período de 2018, os trabalhadores do setor privado de carteira assinada tiveram alta de 3,4%, e os conta própria (a grande maioria informal) de 4,3%.

Uma outra forma de ver como a informalidade continua sendo a força mais dinâmica no mercado de trabalho brasileiro, segundo a economista Laísa Rachter, pesquisadora do Ibre/FGV, especializada em mercado de trabalho, é verificar a contribuição de cada categoria para o aumento da população ocupada (PO) em setembro.

A PO cresceu 1,6% em setembro, comparado ao mesmo período de 2018. Para essa alta, os trabalhadores por conta própria sem CNPJ contribuíram com 0,71 ponto porcentual (pp), e os sem carteira do setor privado com 0,42 pp. Os conta própria com CNPJ foram responsáveis por 0,39 pp, e os com carteira do setor privado por apenas 0,18 pp.

É verdade, por outro lado, que o ritmo de criação de empregos, de 1,6%, continua razoavelmente sólido. O problema é que a população economicamente ativa (PEA) também vem crescendo expressivamente, elevando-se em 1,7% em setembro, em relação ao mesmo período do ano passado.

O economista Bruno Ottoni, da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, nota que a surpresa negativa com o desemprego de setembro (a mediana das expectativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast era de 11,6%) pode ter se devido ao fato de que tanto a PO quanto a PEA desaceleraram, mas a primeira se desacelerou mais.

Dessa forma, o crescimento da PO foi de 2% em agosto, caindo para 1,6% em setembro. Já o da PEA foi de 1,7% em agosto, caindo para 1,5%.

Ottoni, na verdade, enxerga uma pontinha de esperança nos dados da PNADC de setembro, a partir dos números dos desalentados e dos subocupados.

Os desalentados são aqueles que desistiram de buscar emprego. Cresceram 1,2% em agosto (sempre em relação ao mesmo período do ano anterior) e ficaram praticamente estáveis em setembro.

Já os subocupados são aqueles que não trabalham em regime integral e gostariam de trabalhar mais horas por dia. Cresceram 8,5% em agosto e 3,4% em setembro.

Ottoni prevê que haverá queda no desalento nos próximos meses.

A sua visão é de que a desaceleração tanto dos desalentados como dos subocupados pode sinalizar que o mercado de trabalho caminha para ficar mais aquecido.

Nessa visão, muita gente pode ter saído do mercado de trabalho por desalento nos piores momentos da economia, ou se empregado por menos hora do que desejaria trabalhar. À medida que o mercado vai se recompondo, essas pessoas buscam emprego ou aumentam suas horas trabalhadas.

No caso de quem busca emprego, quando esse estoque de ex-desalentados for absorvido na força de trabalho (PEA), pode haver uma queda no ritmo de crescimento da PEA. E aí, mantido a expansão da PO, o desemprego poderia cair mais rápido.

Ottoni lembra que taxa de participação (PO/PEA), de 62,1% em setembro, já está em nível recorde desde o início da série história, em março de 2012.

O economista também pensa que a desaceleração da subocupação, num contexto ainda de alta informalidade, pode sugerir uma progressão: primeiro se contratam informais com jornadas incompletas, depois aumentam-se a suas horas de trabalho e, num terceiro momento, se a economia responder bem, pode-se chegar à contratação mais significativa com carteira assinada.

O pesquisador frisa que todo esse quadro é uma especulação, que precisaria ser mais detalhadamente pesquisado.

Laisa, por outro lado, tem uma visão menos otimista. Para ela, o mercado de trabalho continua próximo da estagnação, num momento em que se aproxima o final de ano, quando se esperaria um aquecimento maior. O crescimento da massa salarial se deve à expansão dos empregos, já que a renda real está praticamente parada. E essa elevação da população ocupada vem com empregos de má qualidade, predominantemente informais.

Quanto à desaceleração do desalento, a pesquisadora observa que pode haver uma explicação diferente do aquecimento do mercado de trabalho, que é o chamado “efeito renda”. Quando as famílias sofrem restrição de crédito e têm pouca renda, o aumento da oferta de trabalho pode acontecer pelo grande valor que ganha qualquer aumento de consumo.

Numa linguagem mais simples, trabalha-se por necessidade absoluta de reforçar o orçamento da família, aceitando-se qualquer remuneração e quaisquer condições. Laisa acha mais provável que seja o efeito renda a pesar no momento na decisão de muitos brasileiros de procurar trabalho.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/10/19, quinta-feira.