Mercado dispensa a Previdência

As razões para o otimismo dos investidores, mesmo depois que o governo Temer desistiu da reforma da Previdência.

Fernando Dantas

23 Fevereiro 2018 | 18h19

Se a intervenção no Rio de Janeiro foi, entre outros objetivos, uma forma de suavizar o enterro final da reforma da Previdência, a estratégia parece estar sendo bem-sucedida. Os mercados brasileiros retomaram o otimismo, com novas demonstrações de exuberância na Bovespa.

Na verdade, porém, qualquer analista atento sabe que toda essa tranquilidade tem um robusto componente externo, cuja influência benfazeja não se limita ao Brasil. Os emergentes em geral atravessaram relativamente bem os últimos piripaques do mercado internacional, cujas manifestações e consequências pareceram se concentrar mais nos Estados Unidos.

O SP 500 ainda não voltou ao nível de 2 de fevereiro, logo antes do flash crash da segunda-feira, 5/2, enquanto o Ibovespa já está mais de 2,5% acima (a coluna foi escrita em 21/2, quarta-feira).

Em suma, as agências de risco previsivelmente torcem o nariz para a retirada da reforma da Previdência da pauta, mas os mercados prosseguem impávidos em seu otimismo em relação ao Brasil e outros emergentes.

Vários fatores podem explicar o que seria impensável durante boa parte de 2017, isto é, que sem dar qualquer encaminhamento para a causa principal do seu desequilíbrio fiscal estrutural – o déficit previdenciário –, o Brasil seria “absolvido” pelos investidores e os ativos do País seguiriam tranquilamente se valorizando.

O primeiro é a firmeza e um certo vigor com que a retomada econômica está ocorrendo neste início de 2018. Que haveria recuperação, já era sabido, mas o ritmo está surpreendendo para cima – ainda não é nada espetacular, mas está acima do que os analistas, extremamente escaldados pela intensidade da catástrofe de 2015 e 2016, previam até meados do ano passado. Em julho, a projeção mediana do Focus para o crescimento em 2017 e 2018 chegou a cair para, respectivamente, 0,32% e 2% (houve, claro, o efeito do escândalo da gravação de Joesley e Temer). Hoje a projeção já está em 1,03% e 2,8%, e o viés é de alta.

O segundo fator é a inflação, que continua a surpreender para baixo. Um experiente especialista em política monetária comenta que o mercado já está caminhando para uma expectativa de inflação de 3,5% este ano. Se isto ocorrer, dois anos de inflação rodando bem abaixo de 4% já irão criar inércia para 2019. Haveria a possibilidade, portanto (sempre sujeita a choques imprevisíveis, claro), de três anos seguidos de IPCA muito abaixo do centro da meta, de 4,5% (2017 e 2018) e 4,25% (2019).

Nesse contexto, o Banco Central pode se ver impelido a continuar cortando a Selic, o que sempre é festivo para o mercado que carrega títulos de renda fixa que se valorizam com a queda da taxa de juros.

No lado político, por sua vez, a virtual inabilitação de Lula para concorrer à presidência com chances de vencer e assumir o cargo em 2019 afastou o principal fantasma do mercado, e reforça o “wishful thinking” de um candidato do centro reformador sair vitorioso na eleição presidencial.

É claro que pode dar uma zebra: Ciro Gomes, por exemplo, com sua implícita ameaça aos poupadores brasileiros quando sugere uma redução forçada das despesas federais com os juros da dívida pública. Mas a diferença é que Lula é o líder absoluto de intenção de votos a esta altura do campeonato, diferentemente de Ciro e mais ainda de outros postulantes de esquerda.

A ideia de que o próximo ou a próxima presidente escolherá como sua primeira tarefa fazer a reforma da Previdência (para os que acham possível ou provável que isto ocorra) traz consigo até uma vantagem em relação ao cenário contrafactual em que Temer se encarregaria da tarefa. A reforma original deste governo já está extremamente diluída, e ficaria ainda mais desfigurada se Temer e seus operadores políticos partissem para uma negociação em ano eleitoral para aprovar qualquer coisa que seja.

Como comenta um analista, “a esta altura é até bom que o novo governo assuma sem nenhuma reforma recém-aprovada, e que recomece tudo com uma proposta mais robusta – o fato de algo insuficiente ter sido já aprovado no ano anterior só iria atrapalhar”.

Tudo certo, portanto, desde que um choque externo potente ou um encaminhamento das pesquisas eleitorais muito alarmante não trombem com os ativos brasileiros até o ano que vem. Por ora, enquanto não há sinais nem de uma coisa nem de outra, o mercado quer aproveitar a festa. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/2/18, quarta-feira.