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Mercado está gostando de Biden?

Alta das bolsas e valorização de moedas emergentes, como a do Brasil, indicam que mercados, no final das contas, podem não estar tão preocupados com "esquerdismo" do partido Democrata.

Fernando Dantas

06 de novembro de 2020 | 11h31

O real se valoriza, a bolsa sobe, a curva de juros cai e o governo brasileiro continua paralisado, sem nenhuma medida para resolver o impasse fiscal (pelo contrário, a derrubada do veto da desoneração piora a situação).

(a coluna foi escrita e publicada ontem, 5/11, quinta-feira)

Dessa vez está na cara que o movimento vem de fora, e só pode ter a ver com as eleições nos Estados Unidos, que caminham para uma provável vitória do candidato Joe Biden. As bolsas estão subindo no mundo todo, e moedas emergentes valorizam-se ante o dólar.

A grande questão é entender por quê. Mesmo com a experiência nas últimas década de presidentes democratas centristas que cuidaram bem da economia capitalista, como Clinton e Obama, o mercado ainda percebe o partido republicano como defensor de uma agenda mais próxima dos seus interesses.

Ainda mais no caso de Biden, que, apesar de centrista, teve que fazer concessões em sua plataforma a algumas ideias mais à esquerda, para unificar um partido que, nas primárias, deu muito votos a candidatos mais progressistas como Bernie Sanders e Elizabeth Warren. A própria vice-presidente da chapa democrata, Kamala Harris, está mais à esquerda que Biden em determinados temas.

Uma primeira explicação para o rally dos mercados, citada (mas não endossada) pelo economista Livio Ribeiro, do Ibre/FGV, especialista em câmbio, é a perspectiva de grandes gastos públicos se Biden for confirmado como novo presidente dos Estados Unidos.

Investimentos e gastos públicos em geral injetariam muita liquidez em dólares nos mercados globais, fazendo a moeda norte-americana se depreciar. A atual alta de outras moedas ante o dólar anteciparia essa tendência.

Ribeiro é cético sobre essa explicação por diversas razões, como o fato de que ainda é cedo para saber se Biden, se confirmado, de fato seguirá esse caminho de gastança (a vitória apertada e o Senado, que possivelmente ainda terá maioria republicana, não ajudam), e também que gastos num primeiro momento acelerariam a economia americana – e isso não faz o dólar enfraquecer, pelo contrário.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no Rio, concorda com Ribeiro. Se o grande pacote fiscal de mais de  US$ 2 trilhões que vem sendo aventado nos Estados Unidos sair, a economia americana vai crescer bem mais que a europeia, por exemplo, abalada pela segunda onda da Covid-19.

“Os níveis de dívida não são muito diferentes, e por que as pessoas tirariam dinheiro dos Estados Unidos em crescimento para uma Europa debilitada”, pergunta-se Rocha. O mesmo pode ser dito em relação a outros pousos de baixo risco para o dinheiro, como o Japão.

Rocha menciona mais duas explicações para o bom humor dos mercados com a indicação de vitória de Biden.

A primeira é, fiel à narrativa da preferência republicana dos investidores, de que a provável vitória será apertada e não houve o chamado “blue sweep” (varrida azul, cor dos democratas, mas que em português ficaria mais bem traduzido como onda azul).

O economista desconfia dessa explicação, no entanto, porque a ideia do risco de uma onda azul é relativamente recente e não derrubou os mercados quando surgiu, ou pelo menos não se notaram muitos comentários nesse sentido. Estranho haver alívio de uma apreensão que não se manifestou.

A outra alternativa é que os mercados de fato gostaram da ideia de um governo Biden. Há razões para isso, na visão de Rocha.  A forma errática, agressiva e turbulenta de Trump governar é um fator de incerteza que afetou bolsas e ativos em diversos momentos, como na escalada de hostilidades comerciais e geopolíticas com a China em 2019.

Especialmente para emergentes, como o México, cuja moeda também se fortaleceu significativamente desde a votação, o unilateralismo belicoso de Trump, que inclusive forçou uma renegociação do Nafta (acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México) representa um fator negativo,

Mas mesmo com tradicionais aliados ricos, como os europeus e o Canadá, o presidente americano veio criando problemas, e inclusive se voltando contra a Otan, a espinha dorsal geopolítica das potências ocidentais no pós-guerra. Na seara comercial, Trump revelou-se mais protecionista do que muitos democratas, fazendo uma virada na postura republicana, de apoio ao livre comércio.

Por outro lado, é fato que em muitas áreas, com taxação e regulação, a posição de Trump é bem mais pró-negócios do que a dos democratas, ainda mais com a plataforma puxada para a esquerda de Biden.

É aqui, entretanto, de acordo com Rocha, que o primeiro fator, a não materialização da onda azul, pode entrar para compor o quadro. Com a vitória apertada, e possivelmente minoritário no Senado, o eventual governo Biden terá de pender para o centro e buscar acordos com republicanos moderados. Isso, por sua vez, aponta na direção de uma política econômica na prática mais centrista, que seria bem-vinda pelos mercados.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/11/2020, quinta-feira.