Mercado exultante com Joaquim Levy

Fernando Dantas

24 de novembro de 2014 | 00h30

“O mercado estava precificando o Trabuco e agora está precificando o Levy”, diz um experiente economista-chefe e sócio de uma gestora de recursos. Ele se refere, claro, ao nome indicado pela presidente Dilma Rousseff para o Ministério da Fazenda. Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco recusou o convite, segundo o relato dos principais jornais do País. Joaquim Levy, presidente da Bradesco Asset Management (BRAM), e ex-secretário do Tesouro na primeira fase do governo Lula, foi convidado e teria aceitado, embora até agora não tenha sido feito o anúncio oficial.

(Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast na sexta-feira, 24/11, e atualizada, nesta versão do blog, para levar em contas as informações sobre os convites a Joaquim Levy e Nelson Barbosa para assumirem, respectivamente, o Ministério da Fazenda e do Planejamento)

De fato, o mercado parece satisfeito com os últimos capítulos da novela da sucessão na Fazenda. No dia 17, segunda-feira, o dólar fechou acima de R$ 2,60 e na sexta-feira era negociado a R$ 2,534 no momento em que esta coluna estava sendo escrita. O alívio também se refletiu nas taxas longas de juros. A NTN-B de 2050, que na segunda rendia IPCA mais 6,4% hoje era cotada a IPCA mais 5,95% no final da manhã da sexta. Na mesma hora, o DI de 2023, que chegou a 12,73% na segunda-feira, recuava para 12,14%. Já o Ibovespa subia mais de 7% no início da tarde da sexta, em relação a segunda.

A explicação é simples, segundo o economista mencionado acima: “O Levy é um técnico acima de qualquer suspeita, PhD em Chicago (universidade de pendor ortodoxo e liberal em Economia), e foi um bom secretário do Tesouro que cumpriu as metas fiscais”.

O problema, porém, é que a dança de nomes criou um quadro complexo e ninguém consegue exatamente saber como funcionará a química da equipe econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Como nota o economista e sócio de outra gestora de recursos, muito conhecido no mercado financeiro, o time em sentido amplo inclui quatro nomes que não estão exatamente alinhados ideologicamente: Levy; Nelson Barbosa, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda, que será o Ministro do Planejamento, segundo as informações da sexta-feira; Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, a ser mantido no cargo (sempre de acordo com as notícias da sexta); Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil, que vem falando cada vez mais abertamente sobre economia. Um possível quinto nome seria o de Arno Augustin, atual secretário do Tesouro. Rejeitado pelo mercado, é dado como certo que sairá do Tesouro, mas, considerando-se a sua propalada proximidade com Dilma, é possível que ganhe algum outro cargo.

Para alguns analistas, a atual melhora do mercado, que decorreu primeiro de Trabuco e depois de Levy, pressupôs acertadamente que este último fosse para a Fazenda, principal cargo econômico do governo.

Era Geisel

Há, porém, uma visão mais cética sobre a dupla Levy na Fazenda e Barbosa no Planejamento. Para um respeitado analista, a ideia da presidente pode ser a de usar as credenciais ortodoxas de Levy apenas o tempo suficiente para acalmar os mercados, preservar o grau de investimento e reequilibrar a economia. Posteriormente, ela tentaria novamente caminhar para uma abordagem mais heterodoxa.

Nesse cenário, a Fazenda reteria três das suas funções principais, o Tesouro (que cuida dos gastos), a Receita Federal e a administração da dívida pública. A formulação da política econômica, porém, seria gradativamente levada para o Planejamento. Para um analista, este seria um formato que até lembraria um pouco a dupla Mario Henrique Simonsen e João Paulo dos Reis Velloso – respectivamente na Fazenda e no Planejamento – no governo Geisel.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

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