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Mercado mais calmo com juro americano

Uma rara boa notícia econômica é que os ativos brasileiros, assim como de diversos emergentes, não estão sendo muito afetados pela perspectiva de alta em breve do juro básico dos EUA.

Fernando Dantas

15 de novembro de 2015 | 23h47

Os mercados precificavam no final da manhã da sexta-feira (13/11/15) uma probabilidade de 66% de que o Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) aumente a taxa básica, ou taxa dos fed funds, do atual intervalo entre 0 e 0,25% para 0,25% a 0,5% na sua reunião de 15 e 16 de dezembro. Se confirmado, será o início da normalização da política monetária dos Estados Unidos, precisamente sete anos depois de a taxa básica ter sido levada ao atual nível, de praticamente zero.

Mas as apreensões que muitos participantes do mercado nutriram desde 2013 em relação à chegada desse momento não parecem até agora se justificar. Desde meados de outubro, os juros referenciais de dez anos dos títulos do Tesouro americano subiram de cerca de 2% para 2,3%, enquanto o câmbio aqui oscilou em torno de US$ 3,8, e os juros futuros mantiveram-se comportados.

Uma das causas da reação tranquila dos ativos brasileiros (e de outros emergentes) aos sinais do eminente início de um ciclo de alta da taxa básica nos Estados Unidos é a elaborada e cuidadosa comunicação do Fed sobre este fato. Essa postura contrasta com o ocorrido em meados de 2013, quando a primeira menção do então chairman do Fed, Ben Bernanke, à possibilidade de iniciar a redução do programa de compra de títulos do mercado (afrouxamento quantitativo) causou turbulência global, e o Brasil foi duramente afetado.

Como rememora José Júlio Senna, diretor do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), o fator surpresa teve um papel importante naquele episódio, que ficou conhecido como “taper tantrum” (expressão difícil de traduzir, mas que indica que o mercado teve um ‘ataque’ diante da perspectiva de redução do afrouxamento quantitativo).

Em 1º de maio de 2013, no comunicado do Fed sobre sua reunião de 30/4 e 1/5 daquele ano, a autoridade monetária americana escreveu que “estava preparada para aumentar ou diminuir o ritmo” do programa de compra de títulos. Já em testemunho ao Congresso em 22/5, Bernanke sinalizou que se cogitava diminuir o ritmo.

“Foi de fato uma mudança de comunicação, e o mercado foi pego de surpresa, o que é muito diferente do que está acontecendo agora”, diz Senna. O susto pode ser observado no comportamento do treasury de dez anos, cuja rentabilidade saltou de cerca de 2% no final de maio de 2013 para acima de 2,7% no início de julho do mesmo ano.

Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, observa que a própria reação atual bem mais moderada (até agora) do título do Tesouro de dez anos, comparada ao “taper tantrum” de 2013, é um indício de como a mudança na política monetária americana está sendo bem absorvida pelos mercados, o que reduz os impactos em emergentes como o Brasil.

As projeções do mercado, como mostra recente relatório do Itaú-Unibanco, são de que a taxa dos fed funds ainda estará abaixo de 1,4% no final de 2017. Os membros do FOMC, por sua vez, projetam em média que, naquela data, a taxa básica já estará em 2,5% ou ligeiramente acima. Mas, evidentemente, as condições de liquidez são mais ditadas pelas crenças do próprio mercado.

E deve ser somada à visão benigna sobre o ciclo de alta do Fed a perspectiva de relaxamento monetário adicional na zona do euro, Japão e China, e também ao fato de que a economia chinesa parece estar conseguindo o seu “pouso suave” – um dos maiores riscos para emergentes exportadores de commodities, como o Brasil, seria um freada brusca na China.

A reação relativamente tranquila dos mercados à iminência de elevação do juro básico nos Estados Unidos não pode, evidentemente, ser creditada apenas à comunicação do Fed. Há por trás um fenômeno real, mais importante do que qualquer comunicação, e para o qual Brisola e Senna chamam a atenção – a baixa inflação nos Estados Unidos e no mundo.

Como nota o diretor do Centro de Estudos Monetários, recente artigo da economista Carmen Reinhart chama a atenção para o fato de que a mediana de inflação em 2015 de 189 países está um pouco abaixo de 2% e ligeiramente menor do que em 2014. A se manter este cenário, não há muita justificativa para alta de juros e redução de liquidez no mercado internacional, o que representa uma ajuda externa ao Brasil, num momento de aguda crise econômica e fiscal. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/11/15, sexta-feira.

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