Mercado não vê recessão nos EUA

Projeções implícitas de inflação na negociação de títulos e previsões de crescimento do PIB trimestral até o final de 2023 se combinam para formar um quadro de pouso suave da economia americana. Mas nem sempre o mercado acerta...

Fernando Dantas

07 de julho de 2022 | 11h51

A grande questão que ocupa as mentes de investidores e profissionais do mercado financeiro no mundo todo é se haverá ou não uma inflação nos Estados Unidos, como consequência da alta inflação e da elevação dos juros necessária para contê-la.

Economistas de prestígio global, como Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano, veem um risco crescente de recessão no próximo ano.

Porém, comparando-se as projeções de mercado de crescimento dos Estados Unidos nos próximos trimestres com previsões de inflação no país para um intervalo futuro relevante, o que está desenhado é ainda um pouso suave (“soft landing”), como nota o economista-chefe de uma gestora de recursos que têm se focado em analisar a economia norte-americana.

Tomando-se a mediana das projeções de analistas coletadas pela Bloomberg, os Estados Unidos não entrarão em recessão até o final de 2023.

Quando se olha o crescimento trimestral do PIB contra o mesmo período do ano anterior, só há taxas positivas até o quarto trimestre do ano que vem. O mesmo ocorre pela comparação dessazonalizada de cada trimestre com o anterior que, no caso americano, é apresentada de forma anualizada (e, na verdade, registrou recuo de 1,6% no primeiro trimestre de 2022).

Tanto numa leitura quanto na outra, o crescimento trimestral dos Estados Unidos até o final de 2023, ficará dentro – ou próximo – do intervalo entre 1,5% e 2,5% (lembrando que todas as taxas são anualizadas).

O analista mencionado acima observa que, como o crescimento potencial da economia americana é de aproximadamente 1,8% ao ano, aquela trajetória do PIB projetada pelos participantes do mercado até o final de 2023 nem mesmo cai de forma relevante abaixo do PIB potencial.

Acontece, entretanto, que por si só a projeção da trajetória de crescimento não determina rigorosamente o pouso suave. É preciso também que a inflação desacelere do nível atual, que sinaliza poder chegar bem próximo a 9% acumulado em 12 meses, para níveis mais próximos da meta de 2% no longo prazo do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA).

O economista-chefe chama a atenção para outro gráfico, que mede a inflação embutida nas taxas de mercado para o período que vai do 13º mês ao 24º mês para além do momento em que a observação foi feita. No caso, o que se mede é o CPI (índice de preços ao consumidor) implícito nas transações de mercado com títulos em que o CPI é o indexador e com papéis prefixados.

Nota-se nesse gráfico que a inflação implícita para o período de “um ano após um ano” – isto é, do 13º ao 24º mês após o momento da observação – piorou ao longo do primeiro trimestre de 2023, saindo de níveis próximos a 3% em janeiro para um máximo de 4% em março.

Esse movimento foi natural, pois foi quando caiu a ficha de que a alta da inflação nos Estados Unidos (e em diversos países do mundo) era muito mais intensa do que se imaginava até o final de 2021.

A partir de março, porém, o indicador, com oscilações, entrou em tendência de queda, que se tornou bastante aguda de junho em diante. Nesse último período, caiu de cerca de 3,7% para 2,65% em 5 de julho.

Esse último número quer dizer que, implícito nas taxas praticadas pelo mercado, está que a inflação do ano aproximadamente composto pelo segundo semestre de 2023 e o primeiro semestre de 2024 será de 2,65%. E essa queda a partir do nível atual, que se aproxima de 9%, transcorrerá sem crescimento negativo do PIB – e quase sem crescimento abaixo do potencial – até o final de 2023.

O que, sem dúvida, significa um pouso suave. Evidentemente, o mercado pode se enganar. Mas ainda é o que temos para hoje.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/7/2022, quarta-feira.