Mercado otimista com inflação de 2016?

Alguns analistas consideram baixa demais projeção do Focus para IPCA de 2016.

Fernando Dantas

21 de março de 2015 | 19h30

A mediana das projeções do IPCA em 2016 está em 5,6% (nível de 17/3/15, quando coluna foi escrita), mas alguns analistas acham este número excessivamente baixo. Tiago Berriel, economista-chefe da gestora Pacífico e professor de Economia da PUC-Rio, julga que a inflação do próximo ano deva ficar mais em torno de 6,5%.

Berriel nota que a queda prevista pelo mercado (última mediana das projeções do Focus) de 7,93% (nível de quando a coluna foi escrita) em 2015 para 5,6% em 2016 “é uma desinflação considerável”. Para o analista, a questão fundamental é o que vai acontecer com o preço o preço dos produtos não comercializáveis internacionalmente (non-tradables) e dos serviços, diante do ajuste forte dos preços administrados e – a julgar pelo impulso de depreciação cambial – dos produtos comercializáveis (tradables).

Ele considera, tomando como exemplo os ajustes de preços relativos de 1999 e 2002, que os non-tradables e serviços devem até se acelerar um pouco em relação ao ritmo atual, pelos efeitos da contaminação dos tradables, mesmo se considerando que a economia está em recessão. O ajuste então se faria com os tradables acelerando-se mais, mas sem que os serviços cedessem de ritmo.

“No fundo quem decide o nível de inflação no qual vai se dar o ajuste (de preços relativos) é a política monetária – teria que ser um aperto ainda bem maior se quisessem que o ajuste se desse num nível mais baixo”, diz Berriel. O economista acha que o PIB em 2005 deve cair entre 0,5% e 1% e diz que 2016 está incerto demais para se prever.

Sergio Vale, economista da MB Associados, tem uma projeção de IPCA de 5,4% para 2016, mas diz que “o trabalho de controlar a inflação está em segundo lugar com a política fiscal e em primeiro lugar com o Banco Central”.

Vale acha que a recessão não será pequena, agravada pelos efeitos do escândalo da Petrobrás e pelo risco de racionamento. Ainda assim, ele considera crucial as decisões de política monetária do BC nas reuniões abril e junho: “Se o Copom não fizer o trabalho correto, as expectativas (para 2016) vão se descolar e subir”, ele diz. O economista acha que a Selic, a taxa básica, hoje em 12,75%, tem de ir para “pelo menos 13,5%, mas acredito até que tenha que ser mais que isso”.

Ele lembra que nos últimos quatro anos o BC agiu de forma pouco crível, e, portanto, há um risco de o mesmo padrão se repetir agora. Vale acha que a autoridade monetária precisa, nas suas ações e comunicação, deixar claro que o risco de inflação tem precedência sobre o de atividade na atual conjuntura. Ele chega a citar o exemplo de Paul Volcker, o lendário chairman do Federal Reserve (Fed, BC americano) que levou a taxa básica a 20% em 1981 para recolocar a inflação dos Estados Unidos sob controle.

Salomão Quadros, que chefia a área de inflação no Ibre/FGV-Rio, é outro que acha 5,6% uma projeção muito baixa para 2016, prevendo um IPCA entre 6% e 6,5%. Ele acha “quase artificial” a suposição de que 2015 receba todo impacto do ajuste de preços administrados, não sobrando nada para 2016.

Quadros nota ainda que o mercado trabalhou com uma projeção da inflação de 2015 no teto da meta (6,5%) até meados de dezembro, e desde lá ela deu um salto para 7,93%. Quadros pergunta-se se algo assim também não possa acontecer com as projeções para 2016.

O economista considera difícil que os ajustes não sejam pelo menos em alguma medida repassados adiante: “O comerciante recebe um aumento de 50% na energia elétrica e não vai repassar nada?”, pergunta.

Quanto à depreciação, o economista vê o câmbio “ainda adormecido” em termos de repasses, mas acrescenta que eles devem acontecer de forma mais significativa quando se perceber um novo nível mais permanente, especialmente se este for acima de R$ 3.

Quadros ressalva que um ajuste fiscal forte e uma política de juros mais dura atuarão para conter a inflação, mas acha duvidoso que mesmo uma queda de 1% do PIB derrube tanto a inflação a ponto de fazê-la caminhar para a atual projeção de mercado ao fim de 2016. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada em 17/3/15, terça-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.