Mercado reage ao comunicado do Copom

Taxas de juros caíram forte ao longo de todos os vencimentos da curva de juros, sinal de que a comunicação mais "dovish" (menos preocupada com a inflação) do Copom, após a prevista decisão de cortar a Selic em mais 0,5 ponto porcentual, para 5,5%, foi uma surpresa.

Fernando Dantas

20 de setembro de 2019 | 18h36

A reação do mercado hoje ao comunicado da decisão do Copom de ontem, de cortar a Selic para 5,5%, não deixa margem de dúvida. Foi uma forte surpresa baixista (o comunicado, não o corte de 0,5 ponto porcentual, que já era consensual).

Agora, a aposta de Selic terminando abaixo de 5% nesse ciclo de queda ganha força e pode vir a se tornar majoritária.

Esse cenário de Selic abaixo de 5%, aliás, já começa a ser imprimido na curva de juros, que cai hoje com força em todos os prazos, o que mostra que os investidores estão se reposicionando de acordo com sua interpretação das informações recebidas ontem – isto é, no comunicado.

Como explica Fernando Rocha, economista-chefe da gestora JGP, a manutenção da expressão “ajuste adicional no grau de estímulo”, idêntica à do comunicado da reunião anterior, de julho, foi vista como uma senha de um novo corte de 0,5 ponto porcentual em outubro.

As projeções do modelo de inflação do BC para 2020 teriam sido outro sinal. No cenário de mercado, com câmbio que termina 2019 em US$ 3,90 e permanece neste patamar até o final de 2020, e Selic que encerra 2019 a 5% e se mantém até o final de 2020, o IPCA do ano que vem fica em 3,6%.

Tomando-se o câmbio de ontem, por volta de R$ 4,10, como o que prevalece até o fim de 2020, e supondo o impacto inflacionário adicional do pass-through (repasse inflacionário), em relação a um câmbio de R$ 3,90, tem-se algo como 0,25 ponto porcentual a mais de inflação. Chega-se, portanto, a uma inflação de 3,85% em 2020 (3,6 + 0,25), ainda abaixo da meta de 4%. Logo, a Selic poderia ir abaixo dos 5% daquele cenário.

O cenário que combina Selic constante de 6% e câmbio de R$ 4,05 até o fim de 2020 também leva a um IPCA de 3,6% no próximo ano, pelo modelo do BC. Um corte de 1 ponto porcentual na Selic em relação a esse cenário (para 5%), nas contas de analistas de mercado, aumentaria a inflação entre 0,2 e 0,3 ponto porcentual, indo para 3,8% ou 3,9% (3,6 + 0,2 ou 0,3) em 2020. Ainda abaixo da meta de 4%, o que sinalizaria que o BC pode levar a Selic um pouco abaixo de 5% (ainda mais com a economia tão chocha).

Em relação ao cenário externo, a mudança da palavra “benigno”, no comunicado de julho, para “relativamente favorável”, neste último comunicado, associa-se ao qualificativo “mais intensa” – que aparece agora, mas não em julho – para se referir ao risco de desaceleração global, que está nas duas comunicações.

Para quem gosta de sutilezas interpretativas, pode-se dizer que o BC talvez esteja um pouco mais preocupado com o cenário externo agora do que em julho, mas não parece nada de intensidade suficiente para mudar o plano de voo da autoridade monetária.

Rocha nota que o mercado, por outro lado, anda um pouco mais calmo em relação ao risco externo (fenômeno mais recente do que a distância entre julho e setembro que separa as posições dos comunicados do Copom). Há esperança – baseada nos últimos sinais – de que saia algum acordo entre Estados Unidos e China no front da guerra comercial.

Mas esse é um cenário que muda como as nuvens, para usar a célebre frase atribuída ao falecido político brasileiro Magalhães Pintos, em referência à política em geral – e a disputa sinoamericana é mais geopolítica do que estritamente comercial.

Em relação ao cenário interno, em que o mais importante é a continuidade das reformas, as mudanças de linguagem entre os dois últimos comunicados do Copom são ainda mais rarefeitas em significado.

Talvez mais significativa tenha sido a remoção da frase do comunicado de julho que apontava que o risco (inflacionário) de frustração no front das reformas era preponderante. Agora, removida a frase, não parece haver hierarquia entre aquele risco inflacionário e o risco desinflacionário de que o elevado nível de ociosidade na economia faça a inflação ficar mais baixa do que o esperado à frente.

De qualquer forma, uma mesma mensagem é martelada nesses dois últimos comunicados: o risco inflacionário da frustração com as reformas se intensifica caso o cenário externo se deteriore.

Esse é, sem dúvida, o grande risco atual não só para a política monetária, mas para a economia brasileira como um todo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/9/19, quinta-feira.